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"Todos os argumentos que provam a superioridade humana não eliminam este fato:
no sofrimento os animais são semelhantes a nós."
Peter Singer - Filósofo e professor de bioética na Universidade de Princeton, autor de Libertação Animal (1975)

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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Em Londres, os caminhos para combater o tráfico de fauna estão postos

O governo britânico realizou nos dias 12 e 13 de fevereiro, na Sociedade Zoológica de Londres, em um encontro com representantes de cerca de 40 países sobre como combater o comércio ilegal de animais selvagens. Autoridades ambientalistas, ONGs e especialistas dos Estados Unidos, China e de diversos países europeus e africanos estiveram presentes. A matança desenfreada de elefantes (pelo marfim), rinocerontes (pelo chifre) e tigres (pela pele e ossos) chamou a atenção dos governantes das nações mais desenvolvidas do mundo por dois motivos: a conservação da biodiversidade e, principalmente, o dinheiro envolvido no tráfico de fauna está financiando grupos terroristas que atacam essas nações ocidentais e guerras civis em nações africanas.

Elefante com a cabeça destroçada para a retirada do marfim
Foto: Martin Harvey/WWF

Outro aspecto que também chama a atenção no mercado negro de silvestres é o envolvimento de quadrilhas que antes atuavam no tráfico de drogas, armas e seres humanos.

“Segundo Stewart (Davyth Stewart, oficial da Interpol), muitos criminosos veem esse setor como sendo de poucos riscos e altos lucros.

"O risco de apreensão é baixo - é uma pena, mas as forças de segurança não investem em combate a crimes ambientais os mesmos recursos que investem (no combate a) outros crimes", afirmou.

"Mesmo na Justiça, as penas são muito menores. No ano passado, na Irlanda, vimos duas pessoas sendo presas por contrabandear chifres de rinocerontes que valiam meio milhão de euros. E elas foram multadas em apenas 500 euros."

Para John Cellar, ex-chefe de segurança da Convenção de Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (Cites, em inglês), o esforço de ambientalistas deve mudar seu foco: do atual, mais voltado à conservação, para a questão da criminalidade.

Ele afirmou, também, que as mesmas táticas usadas para combater o tráfico de drogas e armas podem ser aplicadas no controle do tráfico de animais.

"Mas as pessoas (responsáveis por isso) não estão na sala (debatendo o tema) - os juízes, os agentes de alfândega, a polícia."
– texto da matéria “Vida selvagem é alvo crescente do crime organizado, alerta Interpol”, publicada em 12 de fevereiro de 2014 pelo site da BBC Brasil.

Rinoceronte morto por causa do chifre
Foto: Troy Otto

Será que o tráfico de fauna deve ser combatido como é feito com o tráfico de drogas? A resposta a essa pergunta você terá ao responder esta outra: qual o sucesso que os governos de todo o mundo tiveram ao investir em repressão em massa ao comércio de entorpecentes?

Já está mais do que comprovado o fracasso mundial de tentar acabar com o tráfico de drogas com políticas que priorizam repressão policial e militar. Esse tipo de fiscalização é necessária, mas não pode ser a linha condutora para resolver o problema dos entorpecentes.

O mesmo raciocínio deve ser aplicado no combate ao mercado negro de fauna.

Perceba que, enquanto no Vietnã ou na China, por exemplo, a população acreditar que pode curar câncer ou qualquer outra doença com pó de chifre de rinoceronte ou de ossos de tigres, sempre haverá gente vendendo. A ilegalidade é mantida pela demanda.

E quanto mais difícil de conseguir o produto, devido à repressão ter aumentado nas áreas de caça, mais caro ficará o “produto” com essa alta procura pela população ignorante e desinformada.

Para o marfim, a situação é um pouco diferente pois envolve status. Novos ricos, principalmente na Ásia, ostentam objetos de “arte” e de ornamento pessoal (pulseiras, por exemplo) como uma vitrine de sua riqueza.

Repressão pesada e armada é necessária, mas não pode ser o principal foco para uma política internacional de combate ao tráfico de fauna e seus produtos. Um processo educativo e amplo tem de começar imediatamente e sem prazo para acabar. A conscientização é lenta, mas, quando ocorre, efetiva.

E os especialistas que estão nesse encontro em Londres sabem disso. Veja:

‘No entanto, muitos conservacionistas dizem que o principal avanço teria que vir do lado da demanda - ou seja, as pessoas deixarem de comprar produtos da caça ilegal.

"O principal desafio atual é que disparou a demanda por produtos de vida selvagem", afirmou John Robinson, diretor da Wildlife Conservation Society. "(O crescimento) decorre da maior prosperidade no extremo leste (asiático), sobretudo na China."

Chifres de rinoceronte são vendidos como medicamento - anunciados como um remédio que cura qualquer coisa, apesar de serem feitos de queratina, a mesma substância que forma nossos cabelos e unhas.

Outras partes de animais, como couro de tigre ou presa de elefante, são compradas como símbolo de status.

"É preciso fazer com que as pessoas saibam que o marfim, por exemplo, vem de animais vivos que têm de morrer para que o material seja extraído. E isso não é plenamente entendido em partes do mundo", agregou Robinson. "Acredito que, se as pessoas entenderem as questões (envolvidas), haverá mudanças significativas."’
– texto da matéria da BBC Brasil

Remédios asiáticos feitos com partes de tigres
Foto: Reuters

Resta agora saber qual o caminho que será escolhido...

- Leia a matéria completa da BBC Brasil

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