segunda-feira, 7 de julho de 2014

A jaguatirica morreu atropelada. E agora, quem retira o cadáver?

“Uma jaguatirica, espécie ameaçada de extinção, morreu após ser atropelada neste sábado (5) na BR-365, a cerca de sete quilômetros de Ituiutaba. O corpo do animal, um filhote macho, tinha quase um metro de comprimento e ficou no acostamento da rodovia. No local onde ocorreu o atropelamento existem várias fazendas de criação de animais, como gado e suínos, o que pode ter atraído a jaguatirica para a região.

Cadáver no acostamento é um perigo
Imagem: reprodução TV Integração
A cena chamou a atenção de quem passou pelo local. “Está acabando com tudo, com o nosso meio ambiente. Dá até dó de ver um bicho desses assim, é chocante, mas não tem como fazer nada”, disse o encarregado de transporte, João Alves de Araújo.

A Polícia de Meio Ambiente não soube à produção do MGTV de quem é a responsabilidade de retirar o corpo da onça da rodovia.”
– texto da matéria “Filhote de Jaguatirica morre atropelado na BR-365 em Ituiutaba”, publicada em 5 de julho de 2014 pelo portal G1

O atropelamento de uma jaguatirica, espécie classificada como “vulnerável” na listagem brasileira de animais em risco de extinção, já é uma grande. Dependendo da população local do bicho, a quantidade de atropelamentos pode contribuir bastante para a extinção em uma região.

E toda extinção de uma espécie resulta em uma série de consequências, como, por exemplo, a o não controle das populações de outras espécies, o que gera outra série de outras consequências. Um efeito em cadeia.

Mas a matéria do portal G1 chama a atenção por um detalhe que, pouco explorado e deixado no final do texto, não chama a atenção da maioria das pessoas: quem vai retirar o cadáver da jaguatirica da beirada da pista?

A falta de ter claro de quem é essa responsabilidade coloca em risco outros animais: os carniceiros. Bichos que se alimentam de carcaças e carne em decomposição serão atraídos para o local do atropelamento da jaguatirica e poderão também ser atingidos por veículos. Deixar o animal morto no local do acidente coloca em risco outros animais e motoristas.

Na gestão de uma rodovia, o papel de quem deve retirar cadáveres das pistas, acostamentos e proximidades da faixa de asfalto tem de estar bem definido. Tal indefinição só aumenta o problema.

- Leia a matéria no portal G1

Começar a semana pensando...

...sobre o tráfico de animais como demonstração de riqueza.
Foto: Cites
"Estamos observando uma preocupante mudança na demanda de algumas espécies. Antes, essas espécies eram caçadas porque achavam que algumas de suas partes curavam doenças. Mas, agora, observamos que o uso dessas peças visa demonstrar riqueza".

John Scanlon, secretário-executivo da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Selvagens de Fauna e Flora (Cites), na matéria “ONU denuncia produtos derivados de animais em extinção”, publicada em 4 de julho de 2014 no site da revista Exame, sobre o tráfico de chifres de rinocerontes e partes de tigres

- Leia a matéria completa da Exame

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Reflexão para o fim de semana: atropelamento leva coruja para o cativeiro eterno

Imagem: reprodução TV Anhanguera

“Uma coruja foi resgatada na BR-060, em Rio Verde, no sudoeste de Goiás, após ser atropelada na quarta-feira (2). O motorista que atingiu a ave a levou até o posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para tentar conseguir ajuda. O animal, que teve a asa quebrada, foi encaminhado pelos agentes a uma clínica veterinária do município.

(...) Segundo o veterinário que realizou o atendimento, mesmo depois de recuperada, a ave não deve conseguir viver livre no cerrado novamente. “Ela não vai conseguir voar e pegar as presas dela mais, então ela vai ter que ser criada em cativeiro”, explicou Alberto Guerreiro Moraes. Após receber alta da clínica veterinária, a coruja deve ser encaminhada para o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) de Goiânia.”
– texto da matéria “Coruja é resgatada na BR-060 após ser atropelada por motorista em GO”, publicada em 3 de julho de 2014 pelo portal G1

Parabéns ao motorista que não a abandonou ferida.

Infelizmente, animal em cativeiro não cumpre suas funções ecológicas. É quase como se estivesse morto.

- Leia a matéria completa do G1

Aves em cativeiro em Minas Gerais: o desejo falou mais alto que a lei

Nos rincões mais isolados do país ainda é possível alegar desconhecer a lei que proíbe a criação de animais silvestres sem autorização. Apesar de a exigência existir desde 1967, há localidades com gente sem acesso às informações, que reproduzem hábitos antigos.

Mas, na maioria dos casos, as pessoas sabem que manter aves silvestres na gaiola é ilegal. E como a fiscalização e as punições legais são falhas, poucos se preocupam em respeitar a lei.

Há ainda os que sabem da necessidade das autorizações e, quando não conseguem percorrer toda a burocracia, resolvem seguir pela ilegalidade. É o caso do infrator flagrado em Uberlândia (MG).

“A Polícia Militar de Meio Ambiente resgatou 49 aves da fauna silvestre na manhã desta terça-feira (1º), em uma casa no Bairro Pacaembu, em Uberlândia. A polícia informou que chegou ao local por meio de uma denúncia anônima. Além dos pássaros, a polícia apreendeu no local 28 gaiolas, dois viveiros, um alçapão dentre outros materiais. Um homem de 43 anos foi preso.

Aves apreendidas em Uberlândia (MG)
Foto: divulgação Polícia Militar

As aves, que eram mantidas em cativeiro, foram levadas para a Delegacia de Polícia Civil e em seguida vão ser entregues ao Hospital Veterinário da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que tem convênio com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Segundo os militares, das aves apreendidas 41 são da espécie canário-da-terra. O registro dos animais não foi apresentado.

Para a polícia, o dono dos pássaros disse que gosta de criar aves e que já faz isso há dez anos. Sobre a legalização, ele argumentou que teve dificuldades para fazer o processo. O preso não tinha antecedentes criminais e, de acordo com a polícia, não reagiu e colaborou com os militares.”
– texto da matéria “Pássaros da fauna silvestre são resgatados de cativeiro em Uberlândia”, publicada em 1º de julho de 2014 pelo portal G1

O desejo falou mais alto que a lei. Pena que a punição, se houver, será branda.

- Leia a matéria completa do portal G1

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A morte de Presley, a mais velha ararinha-azu,l e a luta pela sobrevivência da espécie

“Presley, o macho de ararinha-azul mais velho do mundo, morreu aos 40 anos na última quarta-feira (25). O animal era um ícone da conservação da espécie e dos problemas enfrentados por muitas outras espécies que são alvo do tráfico de animais, atividade criminosa que todo ano captura cerca de 38 milhões de exemplares apenas no Brasil. 

Presley tinha 40 anos
Foto: divulgação ICMBio

"Ele era um dos últimos indivíduos do ambiente natural. Como essa espécie é extinta na natureza, existem poucas matrizes para reprodução. Ele é muito valioso para ampliar a diversidade genética e evitar os cruzamentos entre aparentados", explica Patrícia Serafini, analista ambiental do Centro Nacional de Pesquisas e Conservação das Aves Silvestres (Cemave/ICMBio).

(...) História
Presley foi retirado ilegalmente da natureza por traficantes de animais silvestres, em 1984, e vendido como animal de estimação nos Estados Unidos. Através de iniciativas oficiais de conservação da espécie, Presley retornou ao Brasil em 2002.

Na Fundação Lymington, onde viveu por quase dez anos, foram feitas várias tentativas de reproduzi-lo em cativeiro, sem sucesso. Ano passado, o nascimento de filhotes por técnicas assistidas de fertilização sinalizou o potencial e o êxito da inseminação artificial em outros espécimes de ararinha-azul.

Em março de 2014, especialistas da Universidade de Giessen (Alemanha) colheram sêmen de Presley por eletroejaculação. Porém, os espermatozoides apresentaram aspectos negativos, morfológicos e de motilidade, consequência dos problemas cardíacos e idade avançada da ave.

Presley permaneceu na Fundação até ser internado no Hospital Veterinário da Unesp de Botucatu, em 20 de junho, porque não se alimentava mais sozinho. Lá, ficou sob cuidados veterinários de alta qualidade até o dia de sua morte.

A necropsia foi realizada no Laboratório de Patologia Comparada de Animais Selvagens (Lapcom), da Universidade de São Paulo, e as células germinativas (conservação de germoplasma) da ave foram preservadas para serem transplantadas em outro macho, que passaria a produzir o esperma de Presley. Esta técnica já foi realizada em outros grupos de aves e é a última tentativa para incorporar o material genético desta ave no grupo das ararinhas-azuis em cativeiro atualmente.”
– texto da matéria “Ararinha-azul mais velha do mundo morre aos 40 anos”, publicada em 2 de julho de 2014 pelo Portal Brasil

As ararinhas-azul foi declarada extinta na natureza em 2000. Além da perda de hábitat, o tráfico de fauna foi responsável pela extinção (problema abordado na animação Rio, com o personagem Blu. Atualmente, menos de 100 delas vivem em cativeiro de institutos de pesquisa (a maioria fora do Brasil).

Blu, a ararinha-azul da animação Rio
Todo o trabalho para garantir que a genética de Presley seja passada para futuras gerações é um exemplo do esforço para salvar a espécie – o cruzamento entre parentes, no longo prazo, é um fator negativo.

Existe todo um planejamento para reintroduzir as ararinhas-azuis em seu hábitat (o sertão da Bahia). Esse trabalho segue o Plano de Ação Nacional (PAN) para a Conservação da Ararinha-azul e está concentrado no Projeto Ararinha na Natureza, patrocinado pela Vale e envolve o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil) o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e as instituições que criam as ararinhas em cativeiro: A Al-Wabra Wildlife Preservation (Catar), a Association for the Conservation of Threatened Parrots (Alemanha), a Fundação Lymington e o criadouro Nest (ambos no Brasil) e a Fundação Loro Parque (Espanha).

Foto da última ararinha-azul em vida livre, feita em 1990
Foto: Luiz Claudio Marigo

As metas do Ararinha na Natureza são recuperar e conservar o hábitat de ocorrência histórica da espécie até 2017, inclusive com criação de unidades de conservação, e chegar a 150 aves em cativeiro visando o início das reintroduções até 2021.

- Leia a matéria completa do Portal Brasil

Portugal e os atropelamentos de animais silvestres em rodovias

“A monitorização da mortalidade de animais nas estradas portuguesas iniciou-se após o estabelecimento, em 2010, de um protocolo de colaboração entre a EP e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).

Esta parceria teve como objetivo a identificação dos locais com maiores índices de mortalidade e dos grupos faunísticos mais afetados para posterior adoção de medidas de minimização do seu impacto negativo nas populações silvestres, explica a EP no seu website.

Placa, em Portugal, alertando para a presença de anfíbios na rodovia
Foto: Jorge Nunes

Assim, desde 2011 que tem sido contabilizado o número de atropelamentos de animais domésticos e silvestres e analisada a sua incidência dos diferentes grupos faunísticos, bem como a sua variação espacial e temporal, resultados que são apresentados sob a forma de relatórios de síntese anuais acessíveis no website da EP.

A avaliação anual mais recente, que diz respeito a 2013, foi disponibilizada online recentemente e revela que o número de atropelamentos registrados foi de 2678, um acréscimo de 238 ocorrências em relação a 2012.

O aumento da mortalidade é atribuído pela EP à ampliação da rede viária sob a gestão da empresa. Com efeito, o número de animais atropelados triplicou no distrito do Porto, onde a extensão das estradas concessionadas sofreu um incremento de 94 km.”
– texto da matéria “Relatório: Atropelamentos de fauna nas estradas portuguesas aumentaram 10% em 2013”, publicada em 1º de julho de 2014 pelo site português Naturlink

Chama a atenção o fato de o órgão que gerencia as rodovias, Estradas de Portugal (EP), realizar tal monitoramento e divulgar os números. No Brasil, ainda há a falta de transparência envolvendo a questão. Será que se o poder público (federal, estaduais e municipais) não faz tal acompanhamento e divulga amplamente os dados para não sofrer pressão da sociedade? Alguns estados, como o de São Paulo, têm essa estatística.

Ao mesmo tampo, deve-se destacar que Portugal só começou a fazer tal trabalho em 2010. Tudo muito recente.

Grita também a dimensão dos números, que aparentam ser baixos mesmo se for levado em consideração as dimensões do país europeu. O fato é que muito mais animais morrem que os dados indicam. E eles sabem disso:

“No entanto, o relatório salienta que a elevada representatividade dos mamíferos pode ser uma consequência da metodologia de recolha amostragem, que pode subestimar os atropelamentos de outros grupos, nomeadamente de répteis e anfíbios, devido à sua baixa detetabilidade e elevada taxa de degradação.” – texto do Naturlink

- Leia a matéria completa do Naturlink (tem o link para o relatório)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Atropelamentos em rodovias: sentenciando à extinção as jaguatiricas dos EUA

No Brasil, estimativa do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas indicam que 475 milhões de animais silvestres morrem em atropelamentos nas estradas e rodovias todos os anos. Para espécies com populações reduzidas, esse pode ser um fator determinante para extinções locais. Essa é uma das preocupações, por exemplo, dos profissionais que lutam pela conservação do ameaçado mico-leão-dourado, que tem seu hábitat cortado por estradas e a BR-101, no Rio de Janeiro.

Nos Estados Unidos, os oncelotes (jaguatiricas) têm sua sobrevivência fortemente ameaçada pelos atropelamentos. Estima-se que apenas 50 animais ainda existam naquele país.

“Em novembro do ano passado, um belo e raro ocelote (felino chamado de jaguatirica, no Brasil) foi morto na State Highway 100, em Rio Grande Valley, no Texas (EUA). Tratava-se de um macho de quatro anos e meio de idade, e sua morte trouxe os números da população, que já são precários, ainda mais perto da extinção. As informações são da Care2.

Conforme relatado pela National Geographic, a equipe do refúgio de vida selvagem que vinha monitorando o felino ficou preocupada com os seus movimentos. Ao invés de vagar em habitats silvestres, ele perambulava ao redor de lojas de conveniência, estradas, rodovias e casas de campo.



Nos Estados Unidos, as jaguatiricas são
chamadas ocelotes. Só restam 50
Foto: Care2

Boyd Blihovde, gerente do refúgio, lamentou que “perder tantos desses animais em colisões com veículos parece simplesmente sem sentido”. Enquanto parece sem sentido para os humanos, o macho ocelote estava motivado por fatores primordiais em seu núcleo: acasalar-se e marcar território.

(...) O que está matando os ocelotes
Nos Estados Unidos, estradas e rodovias com carros em alta velocidade são a principal ameaça a esses animais. De acordo com a National Geographic, seis entre catorze ocelotes rastreados foram mortos em acidentes envolvendo veículos.

Há outros perigos iminentes para os ocelotes. A fragmentação e a perda do habitat estão atingindo a maioria dos felinos. Segundo a reportagem, infelizmente 95 % do território original do ocelote tem sido transformado para atender às necessidades agrícolas e de moradia do ser humano.

A linha de fundo é que os ocelotes precisam de mais espaço para realizar o que o recente macho que foi morto arriscou a vida para fazer. É necessário espaço para acasalamento e estabelecimento de território.

Ainda conforme a reportagem, décadas se passaram e o Serviço de Vida Selvagem dos Estados Unidos fizeram pouco para ajudar os ocelotes. No entanto, os recentes números sombrios fizeram mudar essa atitude passiva. Como relatado pela National Geographic, o governo comprou 100 mil acres (equivalentes a 404 km²) de terras para desenvolver um território para os animais. A má notícia é que os especialistas acreditam que seria necessário no mínimo um milhão de acres para reconstruir números populacionais saudáveis do felino.”
– texto da matéria “Restam apenas 50 jaguatiricas vivas nos Estados Unidos”, publicada em 1º de julho de 2014 pela Agência de Notícias de Direitos Animais (Anda)

Jaguatirica atropelada em Presidente Epitácio (SP)
Foto: Djalma Weffort/Apoena

Ultimamente, o Fauna News tem repercutido os diversos posts sobre atropelamentos de onças pardas. O último, “Divisa de São Paulo com Mato Grosso do Sul: onça-parda morre atropelada em rodovia”, foi publicado ontem (1º de julho). A situação das onças-pardas no Brasil não é tão dramática como das jaguatiricas dos EUA, mas extinções locais podem ocorrer se nada for feito.

Quantas espécies já não desapareceram por causa dos impactos das estradas e rodovias. Atropelamentos, fragmentação do hábitat, interrupção do acesso à água e da manutenção de corpos hídricos e tantos outros problemas estão no cotidiano da fauna silvestre. E o Brasil só recentemente acordou para a questão.

Apesar de ter acordado, com o poder público instituindo leis e aperfeiçoando (mesmo que lentamente) os processos de licenciamento ambiental desses empreendimentos, a velocidade e a intensidade de investimentos em medidas que reduzam os atropelamentos e outros impactos à vida silvestre ainda são insuficientes.

Acordar para descobrir o problema não basta. Trabalhar intensamente é necessário, caso contrário, casos como o das jaguatiricas dos Estados Unidos tornar-se-ão bastante comuns no Brasil – isso se já não forem.

- Leia a matéria completa da Anda
- Releia o post “Divisa de São Paulo com Mato Grosso do Sul: onça-parda morre atropelada em rodovia”, publicado pelo Fauna News em 1º de julho de 2014

Dica de leitura: artigo de Fernanda D'Abra, especialista em Ecologia de Estradas

Sempre que encontra uma boa matéria jornalística ou um bom artigo escrito por especialista, o Fauna News faz questão de publicá-lo na íntegra. É o caso do texto “Atropelamento de fauna: desastre ambiental fácil de evitar”, escrito pela bióloga Fernanda D’Abra e publicado no site O Eco e, 30 de junho de 2014. Ela é autora da dissertação de mestrado “Monitoramento e avaliação das passagens inferiores de fauna presentes na rodovia SP-225 no município de Botas, São Paulo”, apresentada no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

 Fernanda D'Abra, bióloga especialista em Ecologia de Estradas
Foto: acervo pessoal

Vale a leitura!

'"Roads are seeds of tropical forest destruction".
(Estradas são as sementes da destruição da floresta tropical.)
Thomas Lovejoy

Desde a primeira vez que ouvi esta frase em uma palestra entendi que uma recém-proposta disciplina, a Ecologia de Rodovias, ramo da grande Ecologia, seria bastante aplicável no Brasil, pois, entre tantas coisas trazidas da América do Norte e Europa, o Brasil adotou o Sistema Rodoviário como o principal modal de transporte para o desenvolvimento socioeconômico do país.

A origem das Rodovias no Brasil se deve ao slogan de campanha "Governar é abrir estradas" de Washington Luís – o estradeiro – que em 1920 utilizou esta marca em sua campanha para Governador do Estado de São Paulo (1920 – 1924) e posteriormente para Presidente da República (1926 - 1930). Durante suas gestões, foi responsável por grandes marcos no desenvolvimento do modal rodoviário no país, mas principalmente no Estado de São Paulo. Seus próximos cinco sucessores do governo paulista perpetuaram a abertura de estradas e rodovias durante suas gestões, com destaque a importantes obras interligando cidades do interior paulista.

A década de 1930 foi marcante pelo surgimento de importantes rodovias, como a Rio-São Paulo, Rio-Petrópolis e Itaipava-Teresópolis. Estas marcaram o início da implantação de uma malha rodoviária moderna no país, que ganharia impulso nas décadas seguintes, espelhando-se em exemplos de países com economias bem sucedidas, como as autobahns alemãs e highways norte americanas que escoavam mais facilmente seus produtos, barateavam mercadorias e integravam cidades.

Ao mesmo tempo em que nas décadas de 1920 e 30 foram abertas as primeiras estradas e rodovias¹ brasileiras, nos Estados Unidos da América, foram publicados os primeiros artigos científicos sobre impactos destes empreendimentos sobre o meio ambiente natural – um abismo temporal no conhecimento teórico e aplicado sobre o assunto. Estes estudos apontavam uma grande perda de biodiversidade causada pelo atropelamento de animais silvestres na malha rodoviária do país².

Pesquisadores de países desenvolvidos começaram a reconhecer impactos ambientais decorrentes da implantação e operação das rodovias – como citado por Willian Laurence, "estava aberta a caixa de pandora".

Danos generalizados
Da mesma forma que na mitologia grega, a abertura da caixa libertou – ou melhor, escancarou – todos os males do mundo, a implantação de Rodovias afeta direta ou indiretamente a integridade biótica, causando danos significativos. Estes incluem a dispersão de espécies invasoras por meio dos corredores lineares, alterações de ciclos hidrológicos devido a interrupções na drenagem, mudanças microclimáticas devido à pavimentação – que tende a aumentar as temperaturas locais e diminuir a umidade do ar – poluição atmosférica devida à produção de gases tóxicos e material particulado, produção de ruído, contaminação das águas e do solo, perda e degradação de habitats e fragmentação de ambientes naturais.

Especificamente para a fauna silvestre, há dois impactos principais: a perda de espécies por atropelamento, que é direto, visível e mensurável por conta das carcaças presentes em faixas de rolamentos e acostamentos, e o efeito barreira, um impacto indireto e não mensurável que resulta do não encorajamento dos indivíduos em atravessar rodovias, consequentemente trazendo problemas relativos ao isolamento e perda de variabilidade genética, eventualmente ocasionando extinções locais e regionais.

Países como Estados Unidos e Canadá, e da União Europeia, possuem um robusto acervo de estudos, de longo prazo inclusive, monitorando animais em rodovias. Estes produziram estimativas assombrosas, como 1 milhão de vertebrados terrestres sendo atropelados diariamente na malha rodoviária dos Estados Unidos, um dado perturbador mas justificável pela alta densidade de rodovias e animais do país.

Mas, e no Brasil? Sendo a Ecologia de Rodovias uma disciplina tão recente e ainda com poucos estudos conclusivos por aqui, o que está acontecendo com a nossa fauna desde o slogan retumbante do Presidente Washington Luis? Quais espécies são as mais afetadas? Os atropelamentos ocorrem mais com a fauna generalista porque são mais encorajadas a atravessar as rodovias? E as espécies especialistas, as essencialmente florestais, que evitam rodovias e ficam isoladas, separadas por 20-40 metros de plataforma pavimentada? Qual a viabilidade populacional de algumas espécies afetadas por rodovias seja por quaisquer dos impactos citados? O que acontecerá com o lobo guará, a onça parda, uma vez que, p. ex. para algumas rodovias paulistas é conhecida a significativa perda de indivíduos por atropelamento?

Estas questões são importantes não só pela dimensão da malha rodoviária brasileira, mas também porque rodovias já impactam áreas protegidas únicas. Por exemplo, o Parque Estadual do Morro do Diabo é cortado pela SP-613, enquanto as Reservas Biológicas de Sooretama (ES) e União (RJ) o são pela BR 101.

Mais que isso, a proposta para reabertura da Estrada do Colono, no Parque Nacional do Iguaçu (PR) mostra como a ciência ainda passa longe das políticas públicas, uma simples inclusão do termo "estrada-parque" na Lei do SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação, "resolve" todos os problemas e impactos ambientais de uma estrada dentro da área inatingível de um Parque Nacional, simples assim.

Segurança em risco
Além da necessidade de estudos e diagnósticos, temos problemas recorrentes com fauna silvestre e doméstica, todos os dias nas nossas rodovias, os animais adentram as faixas de rolamento, colocando em risco a segurança do usuário. Este é um erro grave tanto da administração pública como privada de Rodovias, e é neste aspecto que há possibilidades de tomadas de decisões efetivas em relação à implantação de medidas mitigadoras para atropelamentos: a segurança do usuário. A administração rodoviária está preocupada, acima de tudo, em diminuir acidentes.

A pesquisa científica gerou diversas medidas de mitigação, como as passagens de fauna inferiores e superiores, cercas, placas de sinalização, redutores de velocidade físicos e eletrônicos, sistemas de detecção animal e várias práticas de conserva da própria rodovia que colaboram para evitar atropelamentos e reestabelecer a conectividade estrutural e funcional entre ambientes cortados por empreendimentos rodoviários.

Passagem de fauna na SP-225
Foto: Fernanda D'Abra

Com certeza tais medidas, muitas delas trazidas de outros países, deverão ser aos poucos ajustadas para cada grupo faunístico específico e para cada bioma brasileiro. Com quase um século de pesquisas, o profissional da conservação e os engenheiros rodoviários brasileiros não precisam inventar a roda, eles somente devem ajustá-la e inová-la, quando necessário.

Apesar dos problemas relatados, ainda temos um freio cultural. De forma geral, os profissionais da conservação, principalmente, tem tanto medo de testar, errar e de ser criticado que, no fim das contas (uma conta cara por sinal), o argumento de "não fazer" baseado na falta de publicações, insuficiência de dados e validações estatísticas é maior do que o fato real de que "a nossa biodiversidade está se esvaindo no asfalto". Isso é difícil de ser compreendido uma vez que no universo da Ecologia de Rodovias, novos conhecimentos devem ser aplicados, testados e ajustados, como em um ciclo virtuoso, até que se atinja o objetivo planejado.

É recorrente iniciar um assunto sobre medidas de mitigação para atropelamentos e ouvir: "mas e os predadores que vão ficar espreitando e predando animais dentro das passagens de fauna? Li um relato de uma onça parda comendo tatus nessas passagens!" - como se isso – se e quando ocorre – justificasse não implantar as estruturas e fosse pior que deixá-las sendo atropeladas e causando acidentes.

"Os custos de implantação de cercas e passagens oneram muito a obra." Pois é, e quantos anos uma rodovia permanece na paisagem? É uma cicatriz permanente que impacta a fauna desde a sua implantação até quanto durar a sua operação. Implantação de medidas de mitigação não é um luxo exclusivo de grandes obras rodoviárias ou rodovias concessionadas, elas são urgentes, necessárias e na verdade oneram, no máximo, uma casa decimal do valor total do empreendimento.

Estudos sobre o custo benefício da implantação de medidas mitigatórias para atropelamentos mostram que os empreendedores poupam dinheiro com a diminuição de acidentes³, pois nesses casos eles devem, impreterivelmente, indenizar os usuários.

A única certeza que temos é que "governar é abrir estradas" está arraigado nas nossas gestões públicas nos âmbitos federais e estaduais. Em pleno século XXI, frequentemente testemunhamos a abertura de novas rodovias e, principalmente obras de duplicações, ampliando, sobremaneira, o avanço do pavimento impermeável nas áreas naturais do nosso país. Enquanto isso, pessoas e animais morrem todos os dias em acidentes rodoviários perfeitamente evitáveis.'



1. O nome "Ecologia de Estradas" é a tradução exata do inglês Road Ecology. Entretanto, o Código Brasileiro de Trânsito diferencia "estrada" de "rodovia". Estrada é classificada como uma via rural sem pavimentação, enquanto que a rodovia é necessariamente uma via rural pavimentada. Dessa forma, o termo "Ecologia de Rodovia" é mais bem empregado para tratar das vias principais e secundárias no âmbito municipal, estadual e federal e é com base nessas rodovias que a maioria dos estudos sobre atropelamento de fauna silvestre e implantação e monitoramento de medidas de mitigação são realizados.
2. STONER, D., 1925. The toll of automobile. Science 61, 56-58.
3. HUIJSER, M.P., ABRA, F.D., DUFFIELD, J.W., 2013. Mammal road mortality and cost benefit analyses of mitigation measures aimed at reducing collisions with Capybara (Hydrochoerus hydrochaeris) in São Paulo State, Brazil. Oecologia Australis, 17: 129-146.

- Leia o artigo em O Eco

terça-feira, 1 de julho de 2014

Respeito à vida silvestre: começando dede cedo no Rio Grande do Sul

Educação ambiental é uma das principais – talvez a principal – forma de combater o tráfico de fauna. Não adianta ter sistema de fiscalização e repressão (com agentes e, leis), por exemplo, se ainda houver gente querendo comprar os bichos. A consciência de que lugar de animais silvestres é em seus hábitats, cumprindo suas funções ecológicas e mantendo os ecossistemas equilibrados e sadios, deve ser passada para as crianças desde cedo.

“A primeira infância é o momento mais importante para o desenvolvimento intelectual das crianças. Com base nesta premissa, escolas de educação infantil de Taquara, incentivadas pela Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esportes, estimulam o conhecimento dos estudantes, ensinando, por meio de atividades lúdicas, temas como a preservação do meio ambiente. A Escola Municipal de Educação Infantil Leonel de Moura Brizola, no bairro Empresa, desenvolve há dois meses o projeto “Animais”, abrangendo 70 alunos, visando a ensinar as espécies de animais existentes, bem como os seus hábitos e as formas de proteção a cada um deles.

Alunos de escola municipal de Taquara com seus trabalhos
Foto: Magda Rabie

A professora Raquel Catiana Scherer Pinheiro diz que o trabalho é feito em conjunto com todos os professores das turmas da manhã e tarde. “Estamos trabalhando sobre os diversos animais que existem no meio ambiente, como os marinhos, os da floresta, silvestres, domésticos e de jardim, procurando passar a todos os pequenos a importância que cada animalzinho tem ao planeta”, comenta Raquel. “A turminha confeccionou o livro ‘Os animais do Mundinho’, que utiliza formas geométricas para a sua montagem”, reitera.

Além de Raquel, o projeto é trabalhado pelas professoras Daniela Martins, Cátia Furquim, Viviana Schirmer, Dianete Gottliieb, Tatiana Correa da Silva e Patrícia Ferreira da Rosa. Para Cátia, o mais importante é a consciência da preservação ensinada aos alunos. “Os estudantes aprendem a conviver com os animais, explorando bastante cada um deles, deixando o medo de lado. As famílias são integradas, pois ajudam as crianças a confeccionarem os trabalhinhos de casa. É um projeto bem gratificante”, revela Cátia.”
– texto da matéria “Projeto “Animais” estimula estudantes para a preservação das espécies” publicada em 29 de junho de 2014 pelo site do jornal Panorama (Taquara – RS)

Essas crianças, além de levarem para o futuro bons valores, introduzem em suas famílias a ideia da conservação e do quão importante é o respeito à vida de outras espécies. No futuro, com as aulas de ciências, elas aprenderão sobre o papel de cada bicho e planta na manutenção da vida na Terra... o que inclui o ser humano.

- Leia a matéria completa do Panorama

Divisa de São Paulo com Mato Grosso do Sul: onça-parda morre atropelada em rodovia

O Fauna News tem, insistentemente, publicado casos de onças pardas atropeladas. Na região de Bauru (SP), já foram quatro casos, o último em 21 de junho (veja o post “Ares de tragédia em Bauru (SP): quatro onças-pardas atropeladas desde dezembro de 2013”, publicado em 26 de junho). Agora, na divisão de São Paulo com Mato Grosso do Sul, outro animal foi atingido por um veículo. E morreu.

“Uma onça parda foi encontrada morta à beira da Rodovia Marechal Rondon (SP-300) próximo ao aterro da Usina de Jupiá, entre as cidades de Três Lagoas e Castilho-SP. O animal tinha aproximadamente 1,20m.

Policial Militar Rodoviário com cadáver da onça
Foto:Paparazzi News

O flagrante aconteceu na noite desta sexta-feira (27) e foi atendido pela Polícia Militar Rodoviária do lado paulista. O local é muito frequentado por pescadores de Três lagoas que pescam no rio Paraná.” – texto da matéria “Onça Parda é encontrada em rodovia próximo a Usina de Jupiá”, publicada em 29 de junho de 2014 pelo site da Rádio Caçula (Três Lagoas – MS)

Animal foi encontrado na pista
Foto: Paparazzi News

É questão de tempo para que esse tipo de fato não aconteça mais. Afinal o número de onças vai diminuir tanto que serão raros os atropelamentos.

Lamentável.

- Leia a matéria completa do site da Rádio Caçula
- Releia o post “Ares de tragédia em Bauru (SP): quatro onças-pardas atropeladas desde dezembro de 2013”, publicado em 26 de junho pelo Fauna News