quarta-feira, 31 de agosto de 2011

359 vítimas do tráfico de animais

Arataca é sinônimo de "arapuca", armadilha utilizada para captura de animais silvestres. Com esse nome, policiais federais, militares ambientais de São Paulo e fiscais do Ibama batizaram uma operação que apreendeu, em 30 de agosto de 2011, 358 aves e um filhote de jiboia nos estados de São Paulo e Minas Gerias.

Duas pessoas foram presas e serão por crime ambiental, falsificação de selo público (por causa de anilhas falsas e adulteradas) e formação de quadrilha. Como sempre acontece nesses casos, os suspeitos permanecem livres, afinal, manter animais silvestres em cativeiro, ou comercializá-los, sem autorização legal é crime de menor potencial ofensivo.


Pássaro apreendido com anilha irregular
Foto: Divulgação / Polícia Federal

A operação contou com a participação de cerca de 130 policiais federais e ambientais, além de servidores do IBAMA. Os 38 mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça federal foram cumpridos em 19 cidades nas circunscrições das Delegacias de Polícia Federal em Jales (SP), Sorocaba (SP) e Uberlândia (MG).

“As investigações tiveram início há alguns meses quando a PF teve conhecimento de que o grupo investigado estava capturando irregularmente grande quantidade de animais silvestres nas matas localizadas na região de Jales e outros municípios do estado de São Paulo. O objetivo do grupo era comercializar ilicitamente tais animais. Além disso, para conferir um aspecto de legalidade ao transporte, posse e comércio de pássaros, as quadrilhas falsificavam ou adulteravam as anilhas fornecidas pelo Ibama, o que configura o crime de falsificação de selo ou sinal público.

Após alguns meses de investigação foi possível constatar a existência de um grupo que atua na região de Jales (SP) e Santa Fé do Sul (SP) e outro grupo que age na região de Sorocaba/SP. As quadrilhas contam com intermediadores que realizam o comércio e a transferência irregular de anilhas e pássaros; outros indivíduos fabricam e adulteram as anilhas; e finalmente, criadores autorizados pelo IBAMA, que também possuem em seu criadouro pássaros com anilhas falsificadas às quais são colocadas em aves capturadas ilicitamente na natureza, também fazem parte do grupo investigado.”
– texto do site da Polícia Federal

Durante as buscas, os policiais encontraram 15 armadilhas e cerca de 100 anilhas avulsas com sinais de adulteração.

De acordo com pesquisa da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), 82% doas animais traficados no Brasil são aves, principalmente da ordem passeriforme. Vale destacar também que, entre 60% e 70% dessa atividade criminosa é para abastecer a demanda nacional.
Vamos então simplificar: os próprios brasileiros incentivam o tráfico de animais; crime que só perde para a perda de hábitat como causa da extinção de espécies.

Agora, se você pensa que a apreensão desses animais significa que os mesmos estão salvos do cativeiro. Engano. Esses bichos serão encaminhados para Centros de Triagem de Animais Silvestres do Ibama ou criadouros cadastrados pelo órgão federal, onde, em tese, deveriam ser reabilitados para vida livre.
Quantos animais você acha que superam essa jornada toda e voltam para seus hábitats? Isso mesmo: uma minoria.

- Leia o texto de divulgação da Polícia Federal.
- Leia a matéria do site tn.temmais.com.
- Conheça a Renctas.

Assista à matéria da TV TEM sobre a Operação Arataca:

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Reflexão para o fim de semana: somos apenas mais uma entre milhões de espécies

Homo sapiens sapiens. Esse é o nome da espécie humana que, para muitos antropocentristas, é a que domina a Terra. Essa megalomania pode ser questionada eticamente, afinal o ser humano pode dispor das 8,7 milhões de espécies que se estima viver na Terra? Perante tal número, divulgado pela revista científica PLoS Biology e repercutido pela imprensa mundial em matérias veiculadas nesta semana de agosto de 2011, é possível ter uma noção da comunidade em que vivemos; da biodiversidade em que estamos inseridos.

Os dados são da equipe do Censo da Vida Marinha, coordenada por Camilo Mora, cientista da Universidade do Havaí. Para os pesquisadores, esse é o número mais preciso já obtido por taxonomistas (responsáveis pela descrição das espécies). Mesmo assim, há uma margem de erro de 1,3 milhão de espécies, para mais um para menos.

O censo levou em conta os organismos eucariontes (com que possuem células com núcleo organizado, individualizado por membrana). Os procariontes, como vírus e bactérias – que têm uma grande variedade -, não foram contabilizados.

“No mundo, como até agora foram catalogadas cerca de 1,2 milhões de espécies, isto significa que mais de 7 milhões continuam desconhecidas pela ciência. Segundo o estudo, 86% das espécies que vivem na terra ou águas continentais e 89% das espécies marinhas ainda não foram descobertas." – texto da matéria “Planeta Terra é o lar de 8,7 milhões de espécies”, publicada em 24 de agosto de 2011 pelo site O Eco

Números de espécies eucariontes
Reino
Espécies estimadas
Espécies descritas e catalogadas
Animais
7,77 milhões
953.434
Plantas
298,000
215.644
Fungos
611.000
43.271
Protistas
36.400
8.118
Chromistas
27.500
13.033
Total
8,74 milhões
1.233.500
Arte: site O Eco

”Camilo Mora destaca que o conhecimento das espécies é vital para entender os processos ecológicos e evolutivos e tentar garantir a sobrevivência da diversidade das espécies. Ele destaca que muitos seres vivos nascem, vivem, geram descendentes, morrem e são extintos sem que os humanos sequer os conheçam.” – texto da matéria “Planeta tem 8,7 milhões de espécies conhecidas, aponta levantamento”, publicada em 23 de agosto de 2011 pelo portal G1

- Leia a matéria completa do site O Eco.
- Leia a matéria completa do portal G1.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Uma tentativa de monitorar o tráfico de animais

Ter a dimensão e dados precisos do tráfico de animais silvestres é muito difícil. Afinal, como qualquer outra atividade ilícita (como o tráfico de drogas e o contrabando de armas), esse tipo de controle acaba sempre sendo parcial e feito baseado em estimativas.

Normalmente, os números de apreensões de animais e seus subprodutos (garras, peles, penas, e tantos outros) são os indicativos mais comuns que ajudam a conhecer a abrangência do tráfico de fauna. Mesmo assim, a falta de organização e centralização com os dados impede um dimensionamento adequado.

Para tentar melhorar esse contexto, a Universidade de Twente, na Holanda, lançou em julho o banco de dados Wildlife Enforcement Monitoring System (WEMS – sistema de reforço no monitoramento da vida selvagem). “O problema era que, em termos de comércio ilegal de animais, não havia nenhum sistema no qual os países pudessem reunir, analisar e trocar informações. Com o Wildlife Enforcement Monitoring System isso agora é possível”, disse indiano Remi Chandran, pesquisador vinculado à Universidade de Twente – texto da matéria “Tecnologia holandesa no combate ao tráfico de animais”, publicada em 19 de agosto de 2011 pelo site da Radio Nederland Wereldomroep

Inicialmente o sistema foi implantado nos vizinhos africanos Uganda, Tanzânia e Quênia, mas a intenção de Chandran é conseguir a adesão do maior número de países possível. “Depois talvez seja a vez da Ásia. Isso não será fácil porque muito comércio ilegal vai justamente pra lá. Por isso países asiáticos talvez não estejam tão abertos a trabalhar com o WEMS”, acredita Chandran. – texto da matéria da rádio holandesa


O comércio ilegal da África para os países asiáticos cresceu muito nos últimos anos. E os rinocerontes são os que mais têm sofrido. Seus chifres são levados principalmente para a China. O mesmo acontece com os elefantes, por causa do marfim (suas presas).

“Frequentemente há grandes grupos com muito dinheiro e poder por trás. Os preços do marfim são tão altos para que se possa voar rapidamente com um helicóptero a um parque na África do Sul, pegar o marfim e depois ainda voltar com um jatinho particular para a China. E mesmo assim ainda há um grande lucro.” – texto da matéria da rádio holandesa

Presas de elefantes africanos apreendidas na Tailândia
Foto: Sakchai Lalit/ AP

Só na África o volume do comércio ilegal de marfim cresceu de 2005 a 2010 de 620 quilos para 5,6 toneladas, segundo dados do Kenya Wildlife Service. Outras espécies também são vítimas, veja:

“Na internet pode-se encontrar pele de animais ameaçados à venda por grandes somas, inclusive em sites de leilão.

Segundo o jornal indiano The Hindustan Times, a pele de tigre custa 124 mil dólares e um tigre empalhado 700 mil dólares. Pele de pantera pode chegar de 100 a 300 mil dólares.” – do site da rádio holandesa

“Trata-se, por exemplo, de que animais, e quantos, foram apreendidos e onde isso aconteceu. Os dados são postos no sistema e podem ser consultados imediatamente. Desta maneira será mais fácil mapear as rotas de contrabando entre vários países e prevenir o tráfico.” – texto da matéria da rádio holandesa

Aproveito a oportunidade para apresentar alguns números que podem ajudar a contextualizar um pouco o tráfico de animais silvestres (incluindo seus subprodutos, como peles e garras):

- Terceira atividade ilegal mais rentável do mundo (atrás do tráfico de drogas e do comércio ilegal de armas): entre 10 e 20 bilhões de dólares por ano, sendo o Brasil responsável por uma fatia que varia de 5% a 15% do total;
- Segunda causa da perda de biodiversidade (atrás da perda de habitat);
- Dependendo da fonte consultada, o número de animais silvestres retirados da natureza no Brasil, por ano, é 12 milhões ou 38 milhões;
- Estima-se que 95% do comércio de animais silvestres no Brasil seja ilegal;
- Há pesquisas que apontam haver 60 milhões de brasileiros criando espécimes da fauna nativa em suas residências.

- Leia a matéria completa da Radio Nederland Wereldomroep
Releia as matérias do Fauna News:
 - “Tigres: muito perto da extinção”, de 26 de janeiro de 2011
- “Lembre-se: atrás das peças de marfim havia animais”, de 5 de abril de 2011
- “Depois dos rinocerontes, agora é a vez dos elefantes desaparecerem”, de 4 de maio de 2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Reflexão para o fim de semana: imagens da liberdade

“Gorilas, elefantes e outros animais foram fotografados durante mais de dois anos em um estudo pioneiro que conseguiu produzir com 420 câmeras ocultas em diferentes hábitats do mundo 52 mil fotos que revelam a "vida secreta" dos mamíferos.

As imagens captam os momentos mais íntimos e espontâneos dos animais, desde um pequenino rato até um elefante africano, gorilas, pumas, tamanduás e inclusive caçadores armados.


Tamanduá-bandeira fotografado no Amazonas
Foto: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia/Associated Press

A análise dos dados fotográficos ajudou os cientistas a confirmarem que a destruição do hábitat tem um impacto direto e negativo sobre a diversidade e a sobrevivência dos mamíferos.

O estudo, dirigido pelo cientista colombiano Jorge Ahumada, ecologista da Tropical Ecology, Assessment and Monitoring (Team, na sigla em inglês) Network, do grupo Conservation International, foi publicado nesta segunda-feira na revista especializada Philosophical Transactions, da Royal Society.

Para realizar a pesquisa, foram colocadas 420 câmeras em áreas protegidas do Brasil, Costa Rica, Indonésia, Laos, Suriname, Tanzânia e Uganda, sendo 60 em cada local estudado, que permitiram documentar 105 espécies.”
– texto da matéria “Câmeras escondidas revelam 'vida secreta' dos mamíferos em pesquisa”, publicada pelo site Estadão.com.br em 16 de agosto de 2011.

Na mesma matéria, a ONG Conservation International destacou que 25% das espécies de mamíferos está em perigo.

"Os resultados do estudo são importantes, já que confirmam o que já suspeitávamos: a destruição dos hábitats está matando - de forma lenta, mas sem dúvida - a diversidade de mamíferos de nosso planeta", afirmou Ahumada em comunicado divulgado pela organização.” – texto da matéria do site Estadão.com.br


Gorilas-da-montanha em Uganda
Foto: Wildlife Conservation Society/Associated Press

- Leia a matéria completa do Estadão.com.br (com quatro fotos).
- Veja mais fotos (sete imagens) – site Folha.com.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O óleo que mata. Agora no Mar do Norte

Ave com óleo no Alaska / Foto: AP
Sempre que ocorre o vazamento de petróleo em algum oceano, a primeira imagem que me vem à cabeça é de uma ave coberta de óleo após o acidente com o navio Exxon Valdez, no Alaska, em 1989. Apesar de animais e inúmeros outros seres serem dizimados por esses derrames, na grande imprensa essas questões são tratadas com dois tipos de informações: as numéricas (tantas toneladas de óleo e a área atingida) e a poluição na água.

No primeiro momento, pouco ou nada se divulga sobre os impactos à biodiversidade. Parece que o problema acaba quando o vazamento é estancado.

Mais uma vez, o mundo se depara com um acidente. Agora, no Mar do Norte (costa da Escócia), onde desde a semana passada mais de 200 mil litros de petróleo já vazaram da plataforma Gannet Alpha (propriedade da Shell e da Esso). É o maior em 10 anos na região e já cobriu uma área de 41 quilômetros quadrados.

“A Shell admitiu nesta quarta-feira (17 de agosto de 2011) que o vazamento de petróleo em uma plataforma do Mar do Norte na semana passada pode aumentar pelas dificuldades que as equipes estão tendo para contê-lo.

Plataforma Gannet Alpha / Foto: AFP
(...) A Shell tiambém havia  afirmado na terça-feira que o vazamento não chegaria à costa, mas, o diretor técnico da companhia, Glen Cayley, reconheceu nesta quarta-feira que há toneladas de petróleo no interior do duto.” - texto da matéria “Shell admite dificuldade para conter vazamento no Mar do Norte” do site Último Segundo baseada em informações das agências EFE e AP

Em matéria preparada pela Agência de Notícias de Direitos Animais - ANDA, publicada em 17 de agosto de 2011 (Vazamento de petróleo da Shell ameaça vida marinha no Mar do Norte), foi destacado: “O Mar do Norte deveria ser ultrasseguro por causa de sua localização. A Shell está lançando na Região Ártica um vazamento que será impossível de limpar”, disse Ben Ayliffe, membro do Greenpeace responsável pelas causas ligadas ao petróleo.”

Vamos esperar e ver a dimensão do impacto à biodiversidade causado por mais esse vazamento.

No Golfo do México, o maior da história
“Os quase 5 milhões de barris de petróleo que se espalharam pelo Golfo do México no ano passado em decorrência da explosão em uma plataforma da gigante petrolífera britânica BP (observação do Fauna News: fato ocorrido em 22 de março de 2010) podem ter saído das pautas dos jornais, mas não das vidas das pessoas afetadas. Na quinta-feira última, menos de uma semana antes do primeiro aniversário do início do vazamento na plataforma Deepwater Horizon, ativistas aproveitaram a primeira reunião de acionistas da BP em Londres desde o acidente para verbalizar suas angústias e cobrar ações mais rápidas e profundas da companhia.

“Alguns dos nossos pescadores não tiveram mais nenhuma receita desde derramamento de petróleo”, justificou Byron Encalade, da associação dos produtores de ostras de Louisiana, que viajou para a Inglaterra especialmente para o evento. “Nossas regiões de pesca estão esvaziadas, nossas ostras estão mortas e nós não estamos recebendo os fundos necessários para nosso sustento”, afirmou o pescador norte-americano. “Pela primeira vez na vida eu vejo pescadores terem que tomar pílula para dormir”.
– texto da matéria “Pescadores sofrem com tragédia ambiental no Golfo do México”, de 16 de abril de 2011 da revista Carta Maior

Parece a cena do Alaska, mas aconteceu no Golfo do México / Foto: AFP
- Leia a matéria da ANDA “Vazamento de petróleo da Shell ameaça vida marinha no Mar do Norte”.
- Leia a matéria “Pescadores sofrem com tragédia ambiental no Golfo do México”, da revista Carta Maior.
- Saiba mais sobre derrames de petróleo ao longo da história – matéria do portal UOL
Releia as matérias do Fauna News sobre vazamentos de petróleo:
- “Vinte mil pinguins estão ameaçados por derrame de petróleo no arquipélago de Tristão da Cunha”, de 24 de março de 2011.
- ”Derrame de petróleo no mar – parte 2”, de 25 de março de 2011.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Fauna News entrevista: Vincent Kurt Lo, analista ambiental do Núcleo de Fauna do Ibama - São Paulo

O biólogo Vincent Kurt Lo trabalha como analista ambiental do Núcleo de Fauna e Recursos Pesqueiros da Superintendência do Ibama de São Paulo. Sempre presente em discussões que envolvem o manejo de fauna silvestre, ele destacou, em entrevista para o Fauna News, duas vias de ação para combater o tráfico de animais: a educação ambiental e a severa penalização desse crime (artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais – 9.605/98).

Fauna News - Qual a dimensão do tráfico de animais silvestres no mundo e no Brasil? Há pesquisas dimensionando o problema?
Vincent Kurt Lo - É difícil quantificar qualquer atividade ilícita, ainda mais quando se trata de animais silvestres, os quais vêm a óbito e o prejuízo ambiental alcança proporções imensuráveis. Cerca de 100 mil animais silvestres são apreendidos anualmente no Brasil, e isso é apenas uma pequena parcela do que é traficado.

Só para dar uma ideia, as apreensões equivalem a mais de 30 zoológicos de São Paulo por ano. Lembramos que inúmeros animais morrem na captura e transporte, ampliando ainda mais o prejuízo. Algumas ONGs estimam que o tráfico de fauna movimente cerca de 10 bilhões de dólares por ano no mundo, sendo 1 bilhão de dólares no Brasil.

Certamente o prejuízo à biodiversidade brasileira é incalculável, gerando diversas ameaças de extinção e florestas vazias.

Fauna News - Como o Estado de São Paulo se enquadra no tráfico de animais silvestres no Brasil? Qual a característica do estado?
Vincent Kurt Lo  - O Estado de São Paulo é um dos que mais apreende animais silvestres, com cerca de 30 mil por ano. O Sudeste é um local de grande destino para animais traficados de outras regiões, e São Paulo, por ser o Estado mais populoso, concentrando população urbana, tende a aglutinar o maior mercado consumidor desses animais, visando serem animais de estimação (pet).

Fauna News - O tráfico de animais está aumentando?
Vincent Kurt Lo - É difícil obter dados desta atividade ilícita. Os dados de apreensão no Estado de São Paulo, ainda que gradativamente, apontam para um crescente aumento.

Fauna News  - No território paulista também há áreas de captura?
Vincent Kurt Lo - Sim, algumas áreas são conhecidas, como a do Vale do Ribeira, mesmo porque é um grande remanescente de mata atlântica. Infelizmente não existe uma compilação específica das principais áreas de captura, pois isso requereria compilação de todos os órgãos de fiscalização. A polícia ambiental, por exemplo, é quem faz ostensivamente as apreensões de fauna, e não tem isso compilado, ou se tem, não divulga.

Fauna News  - Como o Ibama está estruturado para combater o tráfico - tanto em fiscalização/repressão quanto em campanhas educativas?
Vincent Kurt Lo - O Ibama possui efetivo aquém do necessário para realizar a efetiva fiscalização. No Estado de São Paulo são cerca de 40 fiscais. Já a Polícia Militar Ambiental, no mesmo Estado, possui 2.500 policiais. E a fiscalização de fauna, infelizmente, não costuma ser uma atividade prioritária nas ações de fiscalização do Ibama.

As ações de educação ambiental são pontuais, geralmente por iniciativa dos técnicos, faltando uma política institucional, apoiando e estruturando campanhas de combate ao tráfico.

Fauna News - Além do tráfico de animais "padrão" (captura na mata, transporte e venda), há inúmeras outras formas de ação dos criminosos. O controle dos animais apreendidos, que acabam ficando com os próprios infratores (como fiel depositário) ou são levados para criadouros credenciados pelo próprio Ibama (mas que mantêm atividade ilegal, fornecendo espécimes para o tráfico - como muitos que foram alvo da Operação Arapongas, realizada pelo Ibama e a Polícia Federal), é um problema grande. Como combater?
Vincent Kurt Lo - Pois é, o desafio é fiscalizar além do tráfico, os criadouros, zoológicos, etc. Pois esses também podem estar fazendo "rolo" com os animais. As formas de combate, como anteriormente citadas, devem ser intensificação da fiscalização, aumento de pena e educação ambiental.

O Ibama não deixa pessoas físicas, muito menos o próprio autuado, como fiel depositárias. Temos conhecimento que eventualmente a polícia ambiental o faz.


Fiscal do Ibama durante a Operação Arapongas
Foto: Divulgação Ibama

Fauna News - Qual é o seu ponto de vista sobre o futuro do tráfico de animais?
Vincent Kurt Lo - Se não houver mudanças significativas na penalização, com real detenção de traficantes, e uma constante ação de fiscalização e campanhas educativas, infelizmente não sobrarão muitos animais silvestres em vida livre para serem traficados... Estarão todos em cativeiro ou mortos.

Fauna News - Você tem alguma mensagem para o leitor do Fauna News?
Vincent Kurt Lo - Não adquira animal silvestre. Adote um animal doméstico ou aprenda a apreciar os animais na natureza. Troque a gaiola por um binóculo!

- Saiba mais sobre a Operação Arapongas de combate ao tráfico de animais.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Reflexão para o fim de semana: você compraria?

A Polícia Federal e o Ibama realizaram, em 10 de agosto de 2011, uma operação para desarticular uma quadrilha que traficava animais silvestres pela internet. Veja as imagens do site-bandido e pense sobre o valor da liberdade, da vida e de um meio ambiente equilibrado.



 

No Brasil, o tráfico de animais enche gaiolas

“Criar passarinhos cantadores em gaiolas é comum de Norte a Sul do país. Pesquisa realizada pelo biólogo Rodrigo Regueira chegou a dados impressionantes. Depois de identificar e quantificar as espécies comercializadas em oito diferentes feiras livres da região metropolitana do Recife, calculou que por ano as nossas matas perdem só de papa-capim (Sporophila nigricollis) 72 mil aves, para citarmos apenas a espécie mais vendida nos locais pesquisados.”


O papa-capim é a espécie mais comercializada
Foto: Carlos Dias Timm

Esse é o primeiro parágrafo de a “Cantoria da covardia nas feiras de passarinhos” do jornalista Celso Calheiros e publicada pelo site O Eco, em 2 de agosto de 2011. A matéria, que está baseada no trabalho “Caracterização do comércio ilegal de animais silvestres em dez feiras livres da Região Metropolitana do Recife”, ainda destaca:

“Rodrigo avistou 2.130 animais em 22 visitas. Para documentá-las usou uma caneta-espião, artefato que imita uma caneta, mas embute uma câmera de vídeo digital. Com ela, gravou cenas do comércio ilegal de passarinhos em oito das dez feiras que visitou. Só em duas delas, nos bairros da Madalena e Casa Amarela, não foram verificadas a venda de animais silvestres, embora praticassem o comércio de animais exóticos e de produtos para criadores de passarinhos. Em cada uma dessas feiras foram feitas três visitas, a exceção de Cavaleiro, investigada em um único domingo. “Ali a falta de segurança é grande”, explicou Rodrigo.”

Mais à frente:

“Segundo Enrico, o desaparecimento de espécies é notado por vendedores e compradores. “Entre 2000 e 2005, o passarinho mais procurado era o galo-de-campina e hoje ele é apenas o terceiro mais vendido por falta de oferta”, nota. Entretanto, quem compra e quem vende não chega à constatação óbvia: que a atividade é responsável pela diminuição (ou extinção) das populações.

No trabalho, dos 2.130 pássaros identificados, 67% pertencem a uma das cinco espécies mais comercializadas nas feiras. Em primeiro lugar está o papa-capim (Sporophila nigricollis); o canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola) vem em seguida; o galo-de-campina (Paroaria dominicana) é o terceiro; enquanto o quarto é o patativa ou golado (Sporophila albogulares); e o quinto mais encontrado é o sanhaçu-azul (Tangara cayana
).”


O galo-de-campina é a terceira ave mais vendida no Recife
Foto: Dario Sanches

Sabe qual a conclusão sobre a perda da biodiversidade:

“O cruzamento com estatísticas de outros trabalhos acadêmicos levou à conclusão mais alarmante. Para cada animal colocado à venda, outros três morrem ao longo do processo. Logo, cada papa-capim exibido na feira representa quatro indivíduos extraídos da natureza. Para fazer uma projeção da perda de aves, utilizou-se a amostragem por feira, o número de semanas por ano em que são realizadas e a premissa de que todos os animais exibidos são vendidos. No caso do papa-capim, calculou-se que, por ano, 72 mil são furtados do seu habitat. Apenas no comércio ilegal dessas oito feiras no Grande Recife.”

Regueria estima que, nas oito feiras, os traficantes movimentem cerca de R$ 1 milhão por ano. De acordo com o Ibama de Pernambuco, 82% das apreensões de animais ilegais retirados da natureza são de aves e a maioria de passarinhos – mesmo índice de uma pesquisa realizada junto ao Ibama pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) com dados de todo o país.

Estima-se que, no Brasil, entre dois milhões e quatro milhões de animais silvestres vivam em cativeiros particulares. De acordo com a fonte consultada, esse número pode ser ainda maior, pois cerca de 60 milhões de brasileiros possuem espécimes silvestres em suas residências.

Saiba que entre 60% e 70% do tráfico de animais no Brasil é voltado para abastecer o mercado interno. E a maior parte das vítimas está nas gaiolas espalhadas por todo o Brasil...

- Leia a reportagem completa “Cantoria da covardia nas feiras de passarinhos” de O ECO.
- Conheça a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas).

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Mais uma vez, animais traficados pela internet

Operação da Polícia Federal (PF) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) prendeu, em 10 de agosto de 2011, sete pessoas no Paraná, em São Paulo, em Minas Gerais e na Paraíba por comercializar animais silvestres sem autorização. O tráfico acontecia por meio de um site, mantido por um casal residente em Arapongas (PR). Durante a ação foram apreendidos 1.928 animais, a maioria réptil.

“Em coletiva realizada na sede da PF em São Paulo, Maria Luiza Souza, chefe de fiscalização do Ibama no Paraná, informou que a investigação começou em novembro de 2010 a partir de denúncias de que um site comercializava animais sem autorização desde 2007. No entanto, para induzir o cliente ao erro, eles informavam que os bichos estavam legalizados no Ibama. Havia espécies exóticas e algumas em extinção, como a arara azul, que era oferecida no site por R$ 55 mil, representando a compra mais cara.” – texto da matéria “Ibama apreende quase 2 mil animais em operação de tráfico ilegal” do portal G1


Imagem do site

“Arara-azul, puma, jaguatirica e outras espécies brasileiras ameaçadas de extinção eram vendidas pela internet. O site oferecia promoções e parcelava a compra em até 18 vezes no cartão de crédito. Segundo a investigação, os animais eram criados em caiveiros clandestinos ou capturados na natureza. Os vendedores também importavam espécies, como a cobra corn snake e antílopes.

(...) Para conhecer os detalhes do esquema e até mesmo para comprovar as irregularidades, a Polícia Federal chegou a comprar animais. Os animais eram transportados por avião e o cliente recebia o animal em casa. Todas as compras, segundo a PF, passavam pelo aeroporto de Londrina, no Norte do Paraná.

As principais apreensões aconteceram em fazendas no interior de São Paulo, mas até mesmo na capital os agentes encontraram cativeiros. Os agentes localizaram vários animais machucados.” – texto da matéria “Site mantinha venda ilegal de fauna silvestre” da edição de 11 de agosto de 2011 do jornal paranaense Gazeta do Povo

Como não se espera escrúpulos de bandidos...

“Os vendedores estariam atuando irregularmente há pelo menos três anos. Nas escutas telefônicas, a Polícia Federal conseguiu confirmar que pessoas que diziam proteger os animais, associadas a organizações ambientais, na verdade estavam preocupadas com o dinheiro vindo da venda dos bichos. Em um caso, um comprador encomenda uma queimada para facilitar a captura de animais. Em outro, um criador que recebe uma espécie apreendida pelo Ibama providencia a venda do animal. Até mesmo a decisão de matar um bicho para o qual não foi encontrado comprador foi gravada.” – texto da cobertura feita pelo jornal paranaense Gazeta do Povo

A Polícia Federal e o Ibama já identificaram 42 compradores, que serão chamados para dar esclarecimentos.


Tucano apreendido na operação
Foto: Divulgação Polícia Federal

Saiba mais

No 1º Relatório Nacional sobre o Tráfico de Fauna Silvestre, da ONG Renctas (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres), publicado em 2001, consta:

“Em pesquisa realizada pela Renctas em 1999, foram encontrados 4.892 anúncios em sites nacionais e internacionais, contendo a compra, venda ou troca ilegal de animais silvestres fa fauna brasileira. Desse total, a grande maioria anunciava répteis e aves, mas também foram encontrados diversos outros animais como mamíferos (com destaque para os primatas, felinos e pequenos marsupiais), anfíbios (principalmente sapos amazônicos) e peixes ornamentais.” – texto da Renctas

- Leia a matéria do Ibama sobre o caso.
- Leia a matéria completa da Gazeta do Povo.
- Leia a matéria do portal G1.
- Releia a matéria do Fauna News “Bichos encomendados pela internet e despachados via correio: suspeito é preso no RN” de 8 de julho de 2011.
- Releia a matéria do Fauna News “O tráfico de animais também acontece pela internet” de 13 de maio de 2011.
- Conheça a Renctas.

Assita à matéria da edição de 11 de agosto de 2011 do Bom Dia São Paulo (TV Globo) sobre a operação da PF e do Ibama:

Tráfico de animais: lei fraca leva ao absurdo

Um homem foi surpreendido, às 22h30 do dia 8, com um carregamento de mais de 300 aves na altura do km 299 da rodovia Régis Bittencourt, em Itapecerica da Serra, na região metropolitana de São Paulo. A prisão foi realizada pela Polícia Rodoviária Federal.

“No interior do veículo, os policiais encontraram várias caixa de sapato contendo diversos pássaros. Havia cardeais, rei-dos-bosques, pintassilgos-portugueses e cardenilhas que são aves típicas de países de regiões do sul do continente, como Uruguai e Argentina.” – texto da matéria “Polícia apreende mais de 300 aves exóticas em Itapecerica da Serra” publicada pelo portal R7


Caixas de sapato onde estavam as aves
Fotos: Divulgação Polícia Rodoviária Federal

Não bastasse o crime em si, vamos ao absurdo:

“Em uma das bolsas do motorista, os policiais encontraram ainda um boletim de ocorrência sobre o mesmo crime de tráfico de animais ocorrido há três dias no Rio Grande do Sul. Na ocasião ele havia sido flagrado com três filhotes de arara-canindé.

O homem também possui passagens na polícia pelos crimes de homicídio, receptação e formação de quadrilha. Ele foi autuado por tráfico de animais e maus tratos. As aves foram encaminhadas a um criadouro conservacionista, localizado em Juquitiba.”
– texto da matéria do R7

Esse é o resultado da pena ridícula para quem é apanhado com animais silvestres (seja na posse ou traficando). O crime – artigo 29 da Lei 9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais) – prevê pena de detenção entre 6 meses e um ano,  o que é de “menor potencial ofensivo”. Portanto o acusado responde o inquérito e o processo em liberdade e, em caso de condenação, a pena será revertida em cesta-básica ou atividade comunitária.

Além do artigo 29, o acusado também deveria responder por “introduzir espécie animal no País, sem parecer técnico favorável e licença expedida por autoridade competente (artigo 31) e por maus-tratos (artigo 32) – todos crimes de “menor potencial ofensivo”. A matéria do R7 afirma que o homem foi autuado por tráfico de animais e maus-tratos, também não indicou se o sujeito foi liberado após o flagrante.

Aves apreendidas em Itapecerica da Serra
Para variar, as “aves foram encaminhadas a um criadouro conservacionista, localizado em Juquitiba.” (texto da matéria do R7) Você acha que o cativeiro delas acabou?

Engano. Agora só está começando uma longa e improvável jornada rumo à liberdade – afinal, as aves  têm de ser examinadas, recuperar a saúde, passar por longas etapas de readaptação à vida livre e ainda superar a burocracia e as dificuldades financeiras junto com àqueles que ficarem com a responsabilidade de soltá-las em seu ecossistema de origem (fora do Brasil).

- Leia a matéria “Polícia apreende mais de 300 aves exóticas em Itapecerica da Serra” do portal R7

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O bem-te-vi e o Bicho Solto em Ubatuba (SP)

Na edição de 2011 do Viva a Mata, evento organizado pela Fundação SOS Mata Atlântica para comemorar o Dia Nacional da Mata Atlântica (27 de maio), assisti à palestra de Tiago Leite, coordenador  do PROFAUNA – Programa de Proteção à Fauna e Monitoramento dos Ecossistemas, que atua na região de Ubatuba, litoral norte paulista. O tema: tráfico de animais.

Pois a história que ele contou sobre uma palestra do PROFAUNA em uma escola emocionou muita gente – inclusive a mim. Lógico que pedi para ele escrever... Saboreie!


O menino, o bem-te-vi e o educador
Por Tiago Leite

Estávamos, eu e mais um companheiro do projeto, fazendo uma palestra em uma escola localizada em um bairro muito pobre de Ubatuba, chamado Sertão Sesmarias. Passamos o dia inteiro na escola, onde fizemos palestras para cinco turmas diferentes pela manhã e para outras cinco pela tarde.


Equipe do PROFAUNA em palestra
Fotos: Arquivo PROFAUNA

Durante o período da tarde, estava no meio da apresentação quando a inspetora do colégio bateu à porta e pediu para eu interromper por uns instantes. Até ai tudo bem. Fui atender a moça e me deparei com uma situação que nunca imaginava poder ocorrer naquela circunstância.

Ela me disse que tinha um menino de uns 12 anos me chamando no portão do colégio. Quando fui ver, o garoto era um aluno que havia participado das atividades de educação ambiental no período da manhã. Fiquei impressionado ao vê-lo com um passarinho; um bem-te-vi adulto nas mãos.

Achei a situação um tanto estranha e perguntei o que ele fazia com aquele passarinho. Ele me disse que o bem-te-vi era de um tio e que havia pegado a ave escondido da gaiola para eu soltá-la.

Fiquei sem palavras e engoli a seco a saliva que nem tinha na boca. Foi uma sensação bem forte e que não tinha muita explicação.

Tiago com o bem-te-vi
Peguei a ave e fiquei com as mãos abertas, mas o animal era tão manso que nem voar voou. Então falei para o menino levar o bem-te-vi de volta para o tio, para não ter problemas, e que falasse para o tio não aprisionar mais nenhum passarinho.

Essa foi a experiências mais forte que tive à frente das atividades de educação ambiental do Programa Bicho Solto. Pude ver o quanto a informação e a educação podem mudar a consciência e despertar o interesse pela conservação em qualquer ser humano, seja ele uma criança ou um adulto.

Toda vez que conto essa história em minhas palestras, me emociono da mesma forma como ocorreu naquela escola. É como se estivesse vendo um filme passar em minha frente. Pode parecer irônico, mas quero continuar tendo este tipo de emoção para o resto de minha vida enquanto trabalhar com meio ambiente.


Crianças aprendem se divertindo
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PROFAUNA – Programa de Proteção à Fauna e
Monitoramento dos Ecossistemas

Conheça o “Programa Bicho Solto”
O Programa Bicho Solto é uma iniciativa do PROFAUNA contra o tráfico de animais silvestres.  A entidade acredita que a chave para o combate desse problema está nas campanhas de educação ambiental e conscientização das comunidades, promovendo a sustentabilidade. Dessa forma, mostra-se  para crianças, jovens e adultos, que um passarinho livre na natureza vale muito mais do que um preso em uma gaiola.
Em Ubatuba, região de atuação do PROFAUNA, segundo dados obtidos com o batalhão da Policia Militar Ambiental, os autos de infração envolvendo animais silvestres em condições irregulares de janeiro 2004 a julho de 2008 indicaram ter ocorrido a apreensão de 776 animais. Contudo acredita-se que o número de bichos traficados seja bem maior, pois os criminosos sempre encontram uma forma de burlar a fiscalização.

Há também casos que envolvem abate de animais por caçadores, que encontram nesse recurso uma fonte de subsistência complementar. Além desse fenômeno, ocorre atualmente a caça de animais específicos, para comércio sob encomenda. 

O maior número ocorrências está relacionado à captura e ao comercio ilegal de animais (não à caça), principalmente de aves.

Muitas dessas comunidades praticam esses crimes sem ter consciência do quanto estão prejudicando o meio ambiente., isso devido à falta de acesso à informação. Por conta disso, acreditam que estes recursos são infinitos e capazes de suportar qualquer tipo de pressão.

O tráfico de animais silvestres está, em muitos contextos, diretamente associado ao quadro de pobreza social, por vezes praticado por famílias que residem junto a áreas de florestas e que, estimuladas pela precariedade econômica, acabam por cometer esse crime.

O tráfico em números
A oportunidade é boa para apresentar alguns números que podem ajudar a contextualizar um pouco o tráfico de animais silvestres (incluindo seus subprodutos, como peles e garras):

- Terceira atividade ilegal mais rentável do mundo (atrás do tráfico de drogas e do comércio ilegal de armas): entre 10 e 20 bilhões de dólares por ano, sendo o Brasil responsável por uma fatia que varia de 5% a 15% do total;
- Segunda causa da perda de biodiversidade (atrás da perda de hábitat);
- Dependendo da fonte consultada, o número de animais silvestres retirados da natureza no Brasil, por ano, é 12 milhões ou 38 milhões;
- Estima-se que 95% do comércio de animais silvestres no Brasil seja ilegal;
- Há pesquisas que apontam haver 60 milhões de brasileiros criando espécimes da fauna nativa em suas residências.

Além da quantidade de animais que morrem durante as diversas etapas do tráfico e do sacrifício de viver em jaulas, gaiolas ou recintos inadequados impostos aos bichos, há de se considerar ainda os riscos á saúde humana (transmissão de doenças, conhecidas como zoonoses) e as conseqüências ao equilibro dos ecossistemas.
Contato com o PROFAUNA: profauna.picinguaba@gmail.com

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Começar a semana pensando...

...será que vai funcionar? Com pressão e participação popular, vai.

Congresso lança frente em defesa dos animais

O Congresso Nacional já tem uma Frente Parlamentar em Defesa dos Animais. Criada com a assinatura de 212 deputados da oposição e do governo, ela conta com representantes de todos os Estados da Federação. O lançamento oficial acontece neste mês e o objetivo é tornar mais ágil o trâmite de projetos que tenham os animais como objeto principal. "Entre os temas que queremos abordar estão o abate humanitário, a caça ilegal em regiões de fronteira, o tráfico de animais silvestres e a questão do transporte de animais para abate", diz o deputado Ricardo Izar (PV-SP), que preside a frente.

Ele também adianta que uma das propostas discutidas é a criação de uma "CLT" da questão animal.

"Há várias leis tratando do tema, mas é preciso unificá-las", afirma. A frente se reunirá mensalmente e terá grupos de trabalho espalhados pelos Estados para fazer as articulações necessárias com as legislações estaduais sobre a matéria.” – texto de O Estado de S. Paulo (edição de 4 de agosto de 2011)

Frente Parlamentar do Congresso Nacional em Defesa dos Animais
Presidente: Ricardo Izar Jr. (deputado federal PV-SP)
Contatos: (61) 3215-5634 - gabinete
ricardoizar@ricardoizar.com.br e dep.ricardoizar@camara.gov.br

- Nota de O Estado de S. Paulo sobre a criação da Frente.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Reflexão para o fim de semana: animais têm sensações de prazer. Descobriram o óbvio

A edição de 1º de agosto de 2011 da Folha de S. Paulo – no caderno destinado ao material produzido pelo New York Times – traz a seguinte matéria: “Como nós, outros animais têm sensações de prazer”. O texto de Katherine Bouton se baseia em informações do livro “The Exultant Ark” (A Arca Exultante), do especialista em comportamento animal Jonathan Balcombe.

“O texto de Balcombe é um estudo sério sobre o tema do prazer dos animais. Para começar, o prazer é adaptativo: assim como "a dor desencoraja os animais de fazer coisas que resultem no risco de ferimentos ou morte, que não são resultados bons no processo evolutivo", ele escreve, o prazer "é a maneira usada pela natureza para aumentar as chances de sobrevivência e a produção reprodutiva".

Foto: Steve Mandel
Em segundo lugar, sabemos que o prazer existe em pelo menos uma espécie animal: a humana. Balcombe argumenta que os animais podem experimentar "formas de prazer inacessíveis aos humanos". O terceiro argumento é simples: que os animais são equipados para sentir prazer. Como sabemos que os animais sentem dor, por que não sentiriam prazer?” – texto da matéria

“Em sua conclusão, Balcombe argumenta que a capacidade que um animal possui de sentir prazer é um fator importante a ser levado em conta na discussão dos direitos dos animais. "O fator decisivo real quando se analisa se um ser merece ou não respeito e compaixão é a capacidade de sentir", ele escreve.” – texto da matéria

Aqui, chegamos a um conceito: senciência.

“Conceito chave para a compreensão do debate sobre os direitos animais. A senciência é definida como a presença de estados mentais que acompanhem as sensações físicas. Ela é um atributo fundamental para todos os animais, por estes estarem separados de sua fonte de alimentos e, portanto, só existe neles. Por isso é considerada uma característica típica e definidora dos indivíduos do reino animal.

Não se deve confundir senciência com autoconsciência, que é o conceito que define a consciência que o eu tem de ser um indivíduo pensante, separado dos demais seres.”
– texto da Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA)

- Leia a matéria original do The News York Times (em inglês).
- Saiba mais sobre “senciência” – site da Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) 
- Mais sobre "senciência" - site do Laboratório de Bem-estar Animal da Universidade Federal do Paraná (Labea - UFPR) .

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Cabeça de onça: o troféu da crueldade

"O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) multou em R$ 5 mil, no último sábado, um fazendeiro de Jacareacanga, no sudoeste do Pará, por exibir uma cabeça de onça ameaçada de extinção como troféu.

O homem, que é dono de uma fazenda de gado no município, cortou a cabeça do animal e a manteve exposta como troféu na entrada de sua propriedade." - texto da matéria "Ibama multa fazendeiro por exibir cabeça de onça no PA" publicado em 29 de julho de 2011 pelo site Estadao.com.br


A cabeça da onça-preta
Foto: Rogério Melo/Ibama

Existem algumas instituições - como o Instituto Onça-Pintada e seu projeto Onça-Social - que percorrem propriedades rurais orientando fazendeiros a não abater os felinos que atacam o gado. Em muitos casos, quando uma onça mata um boi, por exemplo, o dono do animal é ressarcido.

Mas o conflito onça-pecuarista ainda persiste e é forte. Basta lembrar que, para surpresa de muita gente, a pecuarista Beatriz Rondon - acusada de promover safaris para caça de onças em sua propriedade no Pantanal - atuava desde 2001 em parceria com a ONG WWF-Brasil e o Projeto Onça-Social

É de Beatriz a declaração no vídeo promocional das caçadas em sua fazenda: "Era uma grande fêmea, muito bonita, que estava comendo minhas vacas aqui”.
Essa história ainda pode piorar. Quer saber como?

"Além da multa do Ibama, o responsável pelo crime ambiental poderá ser condenado de seis meses a um ano de prisão pela Justiça." - texto da matéria do site Estadao.com.br

Se houver condenação a ridícula pena para esse crime, classificado como de "menor potencial ofensivo", será revertida em cesta-básica ou atividade comunitária...

- Leia a matéria do Estadao.com.br "Ibama multa fazendeiro por exibir cabeça de onça no PA" publicada em 29 de julho de 2011.
- Releia a matéria do Fauna News "Safari para caçar onças no Pantanal: um crime que poderá ter punição branda", de 10 de maio de 2011.
- Conheça o Instituto Onça-Pintada.

Reveja o vídeo sobre os safaris para caçar onças no Pantanal:


terça-feira, 2 de agosto de 2011

A morte de uma onça-parda e a estrutura do poder público no manejo de animais

Em 28 de julho de 2011, escrevi “O encontro com animais silvestres e a falta de estrutura do poder público”, em que abordei a orientação dada pela Polícia Militar paulista a pessoas que haviam encontrado um bicho-preguiça no quintal de uma residência em Mogi das Cruzes. Sem ter equipe da PM Ambiental disponível para atender o caso, os moradores ouviram do atendente que deveriam soltar o animal no mato.

Fiz as seguintes considerações:

"- o avanço da ocupação humana nos hábitats da fauna silvestre fará com que casos como os acima noticiados sejam cada vez mais comuns;

- exatamente por causa dessas ocorrências se tornarem freqüentes, o poder público tem a obrigação de ter infraestrutura adequada para atendimento e orientação à população. Mandar pessoas leigas manejar o bicho-preguiça (que poderia estar doente e necessitando de cuidados, além do risco de causar ferimentos nas pessoas e transmitir alguma zoonose), soltá-lo na mata (será que o local de soltura a ser escolhido será o adequado?) foi o correto?

Com certeza não."

E essa falta de infraestrutura para atender esse tipo de situação pode ter causado a morte – por enforcamento - de uma onça-parda em Minas Gerais. Em 27 de julho de 2011, em Patos de Minas (MG), um grupo do Corpo de Bombeiros realizou o resgate do felino que estava no porão de uma casa.


Onça-parda sendo capturada pelos bombeiros
Foto: Toninho Cury
“Durante os trabalhos, o animal morreu. Bastante debilitada, talvez por falta de alimento e água, a onça foi laçada e não resistiu, morrendo antes de chegar a uma clínica veterinária para receber cuidados necessários. A causa pode ter sido por enforcamento.

O subtenente Fernandes, do Corpo de Bombeiros, afirma que a captura foi feita de acordo com a necessidade para o momento, evitando a fuga do animal. Segundo o subtenente a morte da onça não foi em virtude da captura, mas sim pelo estado de saúde da sussuarana.

Após a captura, o animal foi encaminhado para um especialista, o veterinário  Marcos Paulo, que avaliou o estado de saúde da sussuarana. O veterinário afirma que a onça estava realmente debilitada e doente e apresentava quadro de anemia. O estresse durante a captura pode também ter colaborado para a morte do animal antes de receber cuidados do veterinário.”
– texto da matéria “Onça morre ao ser capturada em Patos de Minas”, publicada no site Clube Notícia


Onça-parda morta no consultório veterinário
Foto: Toninho Cury

Será que os bombeiros envolvidos na ocorrência têm o treinamento necessário para avaliar o estado do animal e decidir a melhor maneira de captura? Será que esses profissionais tinham o equipamento correto para efetuar o trabalho nas circunstâncias daquele momento?

Alguém pode me responder?

- Leia a matéria “Onça morre ao ser capturada em Patos de Minas”, publicada no site Clube Notícia em 27 de julho de 2011.
- Leia a matéria do Fauna News “O encontro com animais silvestres e a falta de estrutura do poder público”, de 28 de julho de 2011.
- Saiba mais sobre a onça-parda (site do Zoológico de São Paulo).

Assita ao vídeo sobre a morte da onça-parda em Minas Gerais:


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O problema de alimentar animais silvestres em parques

“Alguns animais do parque Mãe Bonifácia, que fica na região central de Cuiabá, estão ficando doentes e em alguns casos chegam até a morrer por conta da mudança na alimentação. Isso porque, de acordo com a administração do local, os visitantes do parque acabam deixando alimentos aos animais e isso acaba prejudicando a saúde deles.

O gerente do parque, Celso Ferreira, diz que a alimentação dos animais mudou bastante. Os funcionários já encontraram iogurte, chiclete e doces nas trilhas. Até uma maçã-do-amor foi disputada por pequenos macacos. ”Nós já presenciamos aqui e levamos à Universidade Federal de Mato Grosso um sagui com problema intestinal por ter ingerido esses alimentos provenientes do pessoal que vem aqui no parque”, conta Ferreira.”
– texto da matéria “Após morte de animais, parque de Cuiabá instala placas de orientação”, publicada em 29 de julho de 2011 pelo portal G1


Primata do parque Mãe Bonifácia
Foto: Reprodução/TV Centro América

O problema não é exclusividade do parque do Mato Grosso. Em áreas protegidas, como unidades de conservação com visitação pública e parques municipais urbanos, conter o impulso das pessoas de oferecer alimentos para atrair a atenção da fauna é um desafio aos gestores desses locais.

Não custa ajudar e contemplar a vida selvagem com o mínimo de interferência...

- Leia a matéria do portal G1.