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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Finalmente uma paulada nas quadrilhas de tráfico internacional de canários

Já faz tempo que o Fauna News acompanha as apreensões dos chamados canários peruanos em território brasileiro. Os pássaros são trazidos do Peru, Venezuela e Equador para as rinhas do Brasil. Na segunda-feira (2 de abril de 2012), a Polícia Federal, depois de muita investigação, entrou em ação com a chamada Operação Estalo para o cumprimento de 62 mandados judiciais em nove estados: 33 de busca e apreensão, 20 de prisão preventiva, 2 de prisão temporária e 7 conduções coercitivas em Pernambuco, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Ceará, Amazonas, Santa Catarina, Roraima e Distrito Federal.

Veja o resultado:

“A Operaçao Estalo, deflagrada pela Polícia Federal (PF) nesta segunda-feira (2), cumpriu 20 mandados de prisão preventiva, dois temporários, sete conduções coercitivas e 30 de busca e apreensão em oito estados da federação, além do Distrito Federal. Cinco mandados ainda estão em aberto. Duas pessoas foram presas em flagrante em Minas Gerais e Santa Catarina. As investigações, que começaram em Pernambuco em fevereiro de 2011, desarticularam parte de uma quadrilha que atuava traficando aves silvestres e exóticas.” – texto da matéria “Operação da PF desarticula quadrilha internacional de tráfico de aves”, publicada em 2 de abril de 2012 pelo portal G1

Foto: Divulgação Polícia Federal

Lendo algumas matérias publicadas sobre a operação da PF, dois números chamaram a atenção:

“No decorrer das investigações, mais de doze mil aves contrabandeadas pelas quadrilhas foram apreendidas em rodovias e aeroportos de diversos estados.” – texto de divulgação da própria Polícia Federal

‘"A operação visa reprimir o contrabando desses animais, mais precisamente canários, da Venezuela e Peru, que eram distribuídos no país para fomentar a prática de rinha. Conseguimos atuar para reprimir esse tipo de crime no país. A gente estima que, só no ano passado, a quadrilha poderia ter traficado até 60 mil animais por ano", falou Marlon Jefferson de Almeida, superintendente da PF em Pernambuco.’ – texto do portal G1

Resumindo: 12 mil canários apreendidos desde o final de 2010, quando começaram as investigações, e 60 mil canários podem ter sido traficados por ano. Quer saber se isso dá lucro?

Veja:

“De acordo com a Polícia Federal, as aves são adquiridas por valores entre R$12 e R$ 15. No mercado clandestino dos atacadistas, os valores vão de R$130 a R$ 220. Por fim, alcançam o mercado interno, onde são negociados por revendedores locais a preços que de R$ 200 a R$ 300.” - texto da matéria “Operação da PF contra tráfico de aves prende policial aposentado em MS”, publicada em 2 de abril de 2012 pelo site Campo Grande News

Para os responsáveis por colocar os canários em rinhas, caso a ave se destacasse e fosse vitoriosa, o sujeito chegava a ganhar até R$ 50 mil de apostas. Um pássaro com esse potencial de lucro poderia ser negociado (vendido) por até R$ 100 mil.

“Segundo a PF, nas rinhas os canários são avaliados de acordo com a habilidade apresentada, podendo ser negociados a R$ 100 mil . As apostas também alcançavam vultosas quantias, com valores que chegavam a R$ 50 mil.” – texto da matéria “Polícia Federal prende suspeitos de tráfico de pássaros em Minas e outros nove estados”, publicada em 2 de abril de 2012 pelo site do jornal Estado de Minas

Canários peruanos
Foto: Simão Nogueira

Rotas
“Os canários vinham, principalmente do Peru e da Venezuela, por duas rotas internacionais distintas. Na primeira, os pássaros seguiam pela Bolívia e entravam no Brasil pela cidade de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, onde um policial civil facilitava a entrada. De lá, eram transportadas até São Paulo, onde eram encaminhadas para os principais centro distribuidores, como Minas Gerais e Distrito Federal. Na segunda rota, as aves entravam pela fronteira do Amazonas e Roraima e seguiam até o Ceará, onde eram distribuídas.” – texto da matéria do portal G1

Na rota que passava por Corumbá, um policial civil aposentado foi preso acusado de estar envolvido no tráfico.

“A Operação Estalo, deflagrada hoje pela PF (Polícia Federal), prendeu um policial civil aposentado em Corumbá. Ele, que não teve o nome divulgado, usava a condição de policial para fazer a travessia das aves na fronteira com a Bolívia. O acusado chegava a receber R$ 3 mil por carregamento.

De acordo com o delegado da PF, Alexandre Nascimento, o preso prestou depoimento e foi transferido para Campo Grande. Ele negou as acusações. Também foi cumprido mandado de busca e apreensão em sua casa, mas nada foi encontrado.”
– texto do site Campo Grande News

Esquema
“Para legalizar as aves que entram de forma ilegal no Brasil, os suspeitos fraudavam sistemas federais de controle, com falsificações e adulterações de marcações, conhecidas como anilhas.

Dentre os envolvidos, ao menos oito possuem cadastro como criadores amadoristas, alguns com licença cancelada pelo Ibama. Também foi identificada a utilização de documentos judiciais e administrativos, como autos de depósito e termos de nomeação de fiel depositário, para camuflar as aves mantidas nos planteis clandestinos.

Boletins de ocorrência policial também foram utilizados para justificar a comercialização irregular das aves pelos criadores amadoristas cadastrados.”
– texto do site Campo Grande News

A PF ainda informou que de cada 700 aves transportadas pela quadrilha, cerca de 150 morriam.

Polícia Federal, eu quero mais!

- Leia a matéria completa do portal G1
- Leia a matéria completa do Campo Grande News
- Leia a matéria completa do Estado de Minas
Releia, do Fauna News:
- “No tráfico de animais, o Brasil também atua como receptador”, de 5 de maio de 2011
- “Canários peruanos: o absurdo continua”, de 19 de maio de 2011
- “Depois dos 517 papagaios, agora é a vez dos 1.870 canários: descaso do poder público”, de 17 de janeiro de 2012

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Anilhas: taí algo que se mexer fede

Em operações de combate ao tráfico de fauna do Ibama ou das polícias, às vezes, há o encontro anilhas (aqueles anéis de identificação que ficam nas pernas das aves) falsificadas. A intenção dos criminosos é “esquentar” o animal, isto é, fazer com que o bicho capturado na natureza seja considerado nascido em cativeiro. Mas esse artifício dos criminosos não é tão incomum como parece.

“Um criador de pássaros foi preso em Taboão da Serra pela Polícia Federal na última sexta-feira, dia 20, acusado de falsificar anilhas de identificação de pássaros com a sigla do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e por maus tratos aos animais.
Trinca-ferro com anilha apreendido em Taboão da Serra (SP)
Foto: Divulgação / Polícia Federal

A ação da Polícia Federal em parceria com o Ibama aconteceu devido a suspeitas da falsificação durante a última fiscalização feita pelo órgão ambientalista. A tática do criador era identificar com anilhas falsas animais ameaçados de extinção como nascidos em cativeiro e não em ambiente silvestre, como era a real origem dos pássaros.” - texto da matéria “Homem é preso por falsificar identificação de pássaros silvestres”, publicada em 24 de janeiro de 2012 pelo Portal O Taboanense

A prisão ocorrida nesse município da Região Metropolitana de São Paulo não deveria ser um fato tão incomum. Pelo contrário, deveria ser rotineiro. Afinal, não é de hoje que os fiscais do Ibama e as polícias sabem que anilhas são falsificadas e comercializadas no mercado negro de animais silvestres, principalmente em criadouros legalizados pelo Ibama e que são pouco fiscalizados.

No caso de Taboão da Serra, além do crime de “falsificação de selo público”, o criador também responderá por maus tratos.

“Foram apreendidas nove aves, um pintassilgo, três galos-da-campina, quatro trinca-ferros e um azulão que está ameaçado de extinção, todos os pássaros foram encaminhados ao Centro de Recuperação de Animais Silvestres (Cras). Durante a atuação também foram identificados sinais de maus tratos aos animais e más condições de higiene.” - texto de O Taboanense

Em 31 de agosto de 2011, publiquei “359 vítimas do tráfico de animais”. Nesse post abordei um caso parecido, resultante de uma operação nos estados de São Paulo e Minas Grais que prendeu duas pessoas e apreendeu 358 aves e um filhote de jiboia.

Pássaro apreendido com anilha falsa em agosto de 2011
Foto: Divulgação / Polícia Federal

“As investigações tiveram início há alguns meses quando a PF teve conhecimento de que o grupo investigado estava capturando irregularmente grande quantidade de animais silvestres nas matas localizadas na região de Jales e outros municípios do estado de São Paulo. O objetivo do grupo era comercializar ilicitamente tais animais. Além disso, para conferir um aspecto de legalidade ao transporte, posse e comércio de pássaros, as quadrilhas falsificavam ou adulteravam as anilhas fornecidas pelo Ibama, o que configura o crime de falsificação de selo ou sinal público. (...)” – texto publicado no post “359 vítimas do tráfico de animais”

- Leia a matéria do Portal O Taboanense
- Leia a matéria de divulgação da Polícia Federal
- Releia “359 vítimas do tráfico de animais”, post publicado em 31 de agosto de 2011

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

359 vítimas do tráfico de animais

Arataca é sinônimo de "arapuca", armadilha utilizada para captura de animais silvestres. Com esse nome, policiais federais, militares ambientais de São Paulo e fiscais do Ibama batizaram uma operação que apreendeu, em 30 de agosto de 2011, 358 aves e um filhote de jiboia nos estados de São Paulo e Minas Gerias.

Duas pessoas foram presas e serão por crime ambiental, falsificação de selo público (por causa de anilhas falsas e adulteradas) e formação de quadrilha. Como sempre acontece nesses casos, os suspeitos permanecem livres, afinal, manter animais silvestres em cativeiro, ou comercializá-los, sem autorização legal é crime de menor potencial ofensivo.


Pássaro apreendido com anilha irregular
Foto: Divulgação / Polícia Federal

A operação contou com a participação de cerca de 130 policiais federais e ambientais, além de servidores do IBAMA. Os 38 mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça federal foram cumpridos em 19 cidades nas circunscrições das Delegacias de Polícia Federal em Jales (SP), Sorocaba (SP) e Uberlândia (MG).

“As investigações tiveram início há alguns meses quando a PF teve conhecimento de que o grupo investigado estava capturando irregularmente grande quantidade de animais silvestres nas matas localizadas na região de Jales e outros municípios do estado de São Paulo. O objetivo do grupo era comercializar ilicitamente tais animais. Além disso, para conferir um aspecto de legalidade ao transporte, posse e comércio de pássaros, as quadrilhas falsificavam ou adulteravam as anilhas fornecidas pelo Ibama, o que configura o crime de falsificação de selo ou sinal público.

Após alguns meses de investigação foi possível constatar a existência de um grupo que atua na região de Jales (SP) e Santa Fé do Sul (SP) e outro grupo que age na região de Sorocaba/SP. As quadrilhas contam com intermediadores que realizam o comércio e a transferência irregular de anilhas e pássaros; outros indivíduos fabricam e adulteram as anilhas; e finalmente, criadores autorizados pelo IBAMA, que também possuem em seu criadouro pássaros com anilhas falsificadas às quais são colocadas em aves capturadas ilicitamente na natureza, também fazem parte do grupo investigado.”
– texto do site da Polícia Federal

Durante as buscas, os policiais encontraram 15 armadilhas e cerca de 100 anilhas avulsas com sinais de adulteração.

De acordo com pesquisa da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), 82% doas animais traficados no Brasil são aves, principalmente da ordem passeriforme. Vale destacar também que, entre 60% e 70% dessa atividade criminosa é para abastecer a demanda nacional.
Vamos então simplificar: os próprios brasileiros incentivam o tráfico de animais; crime que só perde para a perda de hábitat como causa da extinção de espécies.

Agora, se você pensa que a apreensão desses animais significa que os mesmos estão salvos do cativeiro. Engano. Esses bichos serão encaminhados para Centros de Triagem de Animais Silvestres do Ibama ou criadouros cadastrados pelo órgão federal, onde, em tese, deveriam ser reabilitados para vida livre.
Quantos animais você acha que superam essa jornada toda e voltam para seus hábitats? Isso mesmo: uma minoria.

- Leia o texto de divulgação da Polícia Federal.
- Leia a matéria do site tn.temmais.com.
- Conheça a Renctas.

Assista à matéria da TV TEM sobre a Operação Arataca: