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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Paraíba: a caça é motivada pelo tráfico de fauna e não pela busca de alimento

A notícia abaixo anuncia uma palestra, mas vale ser destacada pelo que anunciou o pesquisador da Universidade Federal da Paraíba.

“O programa Semiárido em Foco desta sexta-feira (13) terá como tema “Atividades de caça e usos da fauna por povos do Semiárido paraibano: implicações e desafios para a conservação”.  A palestra será feita pelo pesquisador Wedson de Medeiros Souto no Instituto Nacional do Semiárido (Insa/MCTI), em Campina Grande (PB). Interessados podem acompanhar a transmissão on-line, a partir das 14h, neste link. (não ativo pelo fato de o evento já ter ocorrido - comentário do Fauna News)

 Comércio ilegal de animais em Campina Grande (PB)
Foto: Anda

Os participantes conhecerão o resultado de um estudo realizado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que traz uma radiografia das atividades de caça no Semiárido paraibano. A pesquisa é parte de um doutoramento realizado na universidade que compreende informações abrangentes sobre a caça no bioma Caatinga, região com a maior biodiversidade existente entre as áreas semiáridas tropicais.

Embora seja muito comum associar que as atividades de caça no Semiárido são motivadas apenas por subsistência, a pesquisa demonstrou modificação no cenário da caça local, pautada atualmente por motivações comerciais e esportivas, com lucros pouco empregados para despesas básicas e essenciais.

Foram ouvidos cerca de 250 caçadores que forneceram informações sobre espécies exploradas para consumo da carne, utilizadas medicinalmente ou criadas como animais de estimação.

Segundo Wedson Souto, a maioria dos caçadores indicou envolvimento com comércio de animais silvestres e sub-produtos destes. “As estratégias de caça têm sido influenciadas pelo contexto comercial das práticas de cinegéticas, com incorporação e popularização de modernos recursos tecnológicos, especialmente motocicletas”, explicou o pesquisador.  

O estudo foi realizado nos municípios de Maturéia, Santa Luzia, São José do Sabugi, São Mamede, Várzea e na comunidade tradicional do Quilombo do Talhado, todos na Paraíba.”
– texto da matéria “Palestra irá abordar a conservação da fauna na Caatinga”, publicada em 12 de junho de 2014 pelo Portal Brasil

É fato que ainda ocorre caça para alimentação, principalmente em rincões do Brasil isolados de centros urbanos. Mas, na maioria das vezes, quem a pratica procura uma iguaria e não saciar a fome em situação de miséria e ausência total de recursos.

A conclusão serve para reforçar a necessidade do poder público investir em educação ambiental, visando mudança de hábito, em políticas de geração de renda para regiões carentes a e em repressão. Não dá para fazer “vista grossa” a uma atividade ilegal que, de acordo com a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres, retira da natureza brasileira 38 milhões de animais silvestres para abastecer o mercado negro de fauna (dado de 2001).

- Leia a matéria completa do Portal Brasil

terça-feira, 24 de junho de 2014

Copa do Mundo é legal, mas a imprensa poderia noticiar o nascimento da Assembleia Ambiental das Nações Unidas

O jogo de ontem, segunda-feira (23 de junho de 2014), era decisivo para a seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo. Afinal, o Brasil carimbaria sua passagem para as oitavas-de-final e definiria sua posição na tabela.

É lógico que, no país do futebol e sede da atual Copa do Mundo, a grande imprensa quase que só fala no campeonato. Nada contra. Ruim é deixar de noticiar acontecimentos muito relevantes. Para quem acompanha a área ambiental, em especial, as políticas públicas pela conservação da fauna silvestre, vale a pena ler sobre o nascimento da Assembleia Ambiental das Nações Unidas (UNEA, na sigla em inglês).

“A primeira reunião da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA), o órgão convocado ao mais alto nível nesta matéria na história da ONU, foi inaugurada nesta segunda-feira em Nairóbi.

Achim Steiner, do PNUMA, discursa na abertura da UNEA
Foto: divulgação PNUMA

Cerca de 1,3 mil delegados -entre ministros, economistas e representantes da sociedade civil de 160 países- participarão do ato de fundação da UNEA durante toda a semana na capital do Quênia, para abordar, como principais assuntos, os objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e o contrabando de animais.

(...) A nova Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente estará integrada pelos 193 Estados-membros da ONU e aspira se transformar na autoridade mundial em matéria meio ambiental.

Foi a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável Rio+20, que aconteceu no Rio de Janeiro (Brasil) em 2012, quando foi acordada a transformação do PNUMA em um organismo com adesão universal, no qual tivessem representação todos os países-membros das Nações Unidas.

“Este corpo é uma plataforma inovadora para a liderança das políticas globais em matéria meio ambiental”, ressaltou hoje o dirigente sudanês.

A ministra do Meio Ambiente do Quênia, Judi Wakhungu, destacou hoje que um dos principais assuntos que serão abordados durante a assembleia será a adoção de medidas contra o contrabando ilegal de animais, uma praga neste e outros países africanos.

“Os desafios ambientais continuam crescendo em número e complexidade. A necessidade de encontrar soluções é cada vez mais evidente”, alertou a ministra queniana.”
– texto do site Amazônia Brasil Rádio Web, com informações da agência EFE, publicado em 23 de junho de 2014

O encontro no Quênia acontece até 27 de junho. Não adianta depositar grandes esperanças nesse tipo de ação, pois a política nem sempre vai na direção do que é melhor para o mundo e para a biodiversidade. Na verdade, quase nunca vai.

De qualquer forma, vale torcer para que algo interessante seja definido. É certo que as atenções, quando for abordado o tráfico de animais, estarão voltadas para a África e a Ásia, onde o mercado negro de marfim, de chifres de rinocerontes e partes de tigres estão dizimando esses animais. Para o Brasil, dificilmente algo será mudado, com nossas aves (principais vítimas do comércio ilegal) continuando sendo vítimas dos criminosos e da ausência de uma política pública séria para combater o tráfico de fauna.

- Leia a matéria completa do Amazônia Brasil Rádio Web
- Leia a matéria de divulgação do site do PNUMA (ONU)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Rebio Poço das Antas (RJ): "O dia seguinte e a contagem dos mortos"

O texto abaixo foi escrito pelo secretário executivo da Associação Mico Leão Dourado, Luis Paulo Ferraz, após o incêndio que consumiu em 7 e 8 de fevereiro de 2014 parte da Reserva Biológica Poço das Antas, no Rio de Janeiro. A infraestrutura (ou falta dela) dessa importante unidade de conservação escancara o quanto o poder público leva a sério a questão ambiental.

Para quem gosta de debater a política ambiental brasileira, se é que atualmente temos uma, o exposto por Ferraz tem de ser lido.

O Fauna News concorda com cada linha escrita.


O dia seguinte e a contagem dos mortos
por Luis Paulo Ferraz
O incêndio que queimou 1000 hectares da Reserva não pode ser apenas mais um na estatística. É um caso grave que expõe a enorme fragilidade de nossa ainda precária estrutura para a conservação da natureza no Brasil.

Hoje a equipe da Associação Mico-Leão-Dourado foi a campo documentar o “dia seguinte” do incêndio. E voltou arrasada com o que viu. Lamentamos ter que publicar estas fotos... Mas essas mortes precisam servir para algo.

Preguiça-de-coleira: espécie em extinção que deveria estar protegida na Reserva. Mas a "ausência" do poder público...
Foto: Divulgação AMLD

Poço das Antas é a primeira Reserva Biológica do Brasil. Habitat do Mico-Leão-Dourado, da preguiça de coleira e de outras espécies importantes da fauna e flora da Mata Atlântica. Tem valor histórico e simbólico na luta conservacionista. É sede de um dos mais importantes trabalhos integrados para salvar uma espécie da extinção, o Mico-Leão-Dourado, candidato a Mascote Olímpico.

O Brasil é uma potência mundial em biodiversidade. Um país atualmente com destacada visibilidade, seja pelos grandes eventos esportivos, seja pela vitalidade de sua economia e suas contradições sociais. O Rio de Janeiro é a grande vitrine do Brasil. Um incêndio na sua reserva mais simbólica não pode ser justificado pelos burocratas apenas como mais uma fatalidade causada pelo calor ou por um agricultor desavisado.

Sábado, 08 de fevereiro. No segundo e decisivo dia do incêndio, o chefe da Reserva mobilizou de forma competente para o combate um grupo de voluntários. Cerca de 25 homens, alguns funcionários de instituições parceiras, amigos, ex servidores... A Reserva Biológica de Poço das Antas não tem brigada de incêndio nesta época do ano por falta de recursos. É evidente que normalmente costuma chover mais no verão. Mas não é o primeiro verão que a reserva tem esse mesmo problema.

O Instituto Chico Mendes, ICMBio, que administra as unidades de conservação federais está com dificuldades orçamentárias profundas. Na hora “H” não havia brigada de incêndio nem esquema de emergência. O telefone da Rebio estava cortado há dois meses e foi usado o da AMLD. O órgão estadual alegou dificuldades em outros parques. O chefe da Reserva fez muito mais do que poderia, diante de tanta precariedade. Os bombeiros apareceram 48 horas depois. Não havia condições materiais nem treinamento para aqueles homens.

Fogo consumindo parte da Reserva Biológica
Foto: Divulgação AMLD

Alguns deles urinaram nos dormentes do trem para aproveitar a “água”. Isso não é piada. Vi gente usando o próprio cantil para apagar o fogo. A luta era enorme para proteger florestas e as áreas em processo de restauração florestal. 50 mil mudas foram plantadas ali no último ano.

Não é possível que as imagens de corpos de capivaras, preguiças, quatis e tantas árvores queimadas sejam rapidamente esquecidas por todos nós, na velocidade da internet. Não é possível ver tantas autoridades circulando em veículos oficiais, desfilando de helicóptero, nossos colegas técnicos realizando tantas reuniões importantíssimas mundo afora, mas que não sejamos capazes de apagar com o mínimo de profissionalismo um incêndio previsível.

Vimos outro dia o ex-Secretário de Meio Ambiente deixar seu cargo orgulhoso de um chamado desmatamento zero no Estado do Rio de Janeiro. Cansa escutar tantas frases espetaculares, números superdimensionados, diante da incapacidade de organização para o mínimo necessário.

Nós, que gostamos ou atuamos com os temas ambientais, temos que ter a consciência de que estamos perdendo muitas batalhas e refletir seriamente sobre isso. A sociedade brasileira, que demonstra tanta sensibilidade ao ver um animal maltratado, precisa entender também que o nosso modelo desenvolvimento a qualquer custo está fora de moda. E que proteger o que resta da nossa biodiversidade não é problema de ambientalista.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Sem educação ambiental e planejamento urbano, podem ampliar o Cetas que ainda haverá carência de vagas

“O Centro de Tratamento de Animais Silvestres do Ibama em Alagoas é um ponto de referência no país. Muitos dos animais chegam debilitados ao centro, alguns são trazidos por operações do Batalhão de Polícia Ambiental (BPA), outros, pela própria população. (...)

Imagem: Reprodução TV Alagoas

Nos primeiros meses deste ano, já foram recuperados 893 aves, destas, 60% foram devolvidas à natureza. Em 2012, o número chegou a 3.800 aves, 600 répteis e 360 mamíferos resgatados pelo centro.

A superintendente do Ibama, Sandra Menezes, diz que o centro já tem um projeto para a ampliação pronto, justamente pela grande quantidade de animais que vem sendo entregues. "Nós ficamos felizes quando conseguimos recuperar um animal e devolvê-lo a natureza", completou.”
– texto da matéria “Centro de tratamento do Ibama recupera animais feridos em Alagoas”, publicada em 14 de março de 2013 pelo portal G1

Cetas de Alagoas
Imagem: Reprodução TV Gazeta

O número de Cetas e de vagas nesses centros sempre será insuficiente. E essa afirmação não é mero palpite.

Enquanto não houver uma política pública séria de combate ao tráfico de animais, com ênfase na educação ambiental para redução da demanda de compra, e enquanto não houve planejamento para ocupação e expansão urbana, bombeiros, fiscais do Ibama e policiais ambientais e rodoviários continuarão enxugando gelo. Esses homens continuarão apreendendo cada vez mais animais em situação de cativeiro, de tráfico ou perdidos e feridos nas cidades.

O projeto de ampliação do Cetas é a prova disso. Mas, infelizmente, o investimento vai tirar do sufoco o centro por curto período (apensar de que não foi informado se haverá aumento dos recursos humanos). O foco do poder público está errado. Não pode ser reativo, com o problema já instalado. Tem de ser preventivo. Em todo o Brasil.

- Leia a matéria completa do portal G1