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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Dilema de quem quer ajudar: comprar ou deixar o bicho com o traficante

Quem é contra o tráfico de fauna ou a manutenção de silvestres em cativeiro doméstico, quando encontra algum bicho sendo ilegalmente vendido imediatamente sente-se perante um dilema: comprar o animal para livrá-lo daquela situação e, quem sabe, conseguir que ele volte à vida livre ou deixar o bicho com o infrator e não sustentar esse mercado negro. Essa situação pode ocorrer, por exemplo, em feiras e no acostamento de alguma estrada brasileira. Nada incomum.

O repórter Glauco Araújo, do portal G1, sentiu na pele esse dilema:

“Na mesma rodovia (PI-143, no Piauí - observação do Fauna News), demos de cara com um senhor e um animal pendurado pelo rabo em uma de suas mãos, era um tatu. Na hora me lembrei do Fuleco, o mascote da Copa do Mundo no Brasil. Fizemos a manobra e voltamos. O senhor veio correndo, acreditando que tinha conseguido um freguês. Ele queria R$ 30 pelo animal. Eu perguntei se estava vivo, pois havia alguns pequenos sinais de sangue na carcaça, e ele respondeu que estava. Até me ofereceu para carregar, pois estava com as patas amarradas. Recusei, não queria ter a memória tátil do mascote da copa naquela situação.

Seguimos viagem, mas fiquei pensando se deixar aquele senhor com o tatu para trás teria sido a melhor atitude da minha parte. Pensei até em retornar, comprar o animal e soltá-lo mais adiante, longe daquele caçador mercantil. Mas pensei também se aquele bichinho sobreviveria solto em um local desconhecido do habitat dele, machucado, se não viraria presa de outro animal. Ainda penso muito nisso, mas resolvemos seguir viagem.”
– texto da matéria “Atenção: (muitos) animais nas pistas”, publicada em 18 de novembro de 2013 pelo portal G1 como parte da série “Caminhos do Brasil: caravana G1”

Tatu por R$ 30 em rodovia do Piauí
Foto: Portal G1

Mas o que fazer?

A resposta você mesmo a terá quando responder a seguinte pergunta: o que o traficante de animai fará quando você comprar o bicho que ele está oferecendo?

Certamente, irá vender outro. Para isso, ele terá de capturar ou coletar mais um animal em seu hábitat ou pegar o bicho com algum intermediário.  Enfim, você estará contribuindo para que a engrenagem do tráfico continue a girar.

Nunca compre animais silvestres vítimas do tráfico. Sim, você vai morrer de pena do bichinho que está sendo vendido, mas dessa forma irá salvar vários outros. Lembre-se: só existe quem vendo porque existe quem compra.

Ao se deparar com alguém vendendo bichos ilegalmente, chame a polícia. Denuncie!

- Leia a matéria completa do portal G1

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Criação comercial para combater o tráfico de fauna: tem gente defendendo

“A criação de pássaros cativos é um importante mecanismo para assegurar a existência de algumas espécies, contribuindo para a preservação da biodiversidade e possibilitando a reintrodução de espécies ameaçadas de extinção ou mesmo extintas em seu habitat. Mas há muito tempo que está fechado para novos criadores”.

Criador legal anilha ave com sete dias de vida
Foto: Jonathan Lins/G1

Essa é a opinião do criador comercial de pássaros Ricardo Pimentel Ramalho, de Palmeira dos Índios (AL). Ela foi publicada na matéria “Burocracia para regularizar criatórios de aves facilita comércio ilegal em AL”, publicada em 16 de novembro de 2013 pelo portal G1

Algumas considerações devem ser feitas. A primeira é sobre a afirmação de que criar pássaros cativos assegura a existência de algumas espécies. Vale destacar que as mesmas espécies criadas são, muitas vezes, as que mais foram capturadas ilegalmente e, por isso mesmo, passaram a correr risco de desaparecer. É bastante estranho esse argumento, já que os criadores se apresentam como solução para um problema criado por eles mesmos.

A segunda observação vai para o G1. A matéria pende, desde o título, para a defesa da emissão de mais licenças para criadores comerciais de animais silvestres. Os entrevistados que alegam que a criação reduziria o tráfico são, pasmem, os próprios criadores. É lógico que eles vão defender seu negócio, criando uma cortina de fumaça com argumentos em favor do meio ambiente.

Em nenhum momento algum funcionário do Ibama ou da Polícia Ambiental teve voz na matéria para defender ou não a criação comercial de animais como forma de reduzir o tráfico de fauna. A escolha dos entrevistados (fonte) foi errada. Faltou o conhecido “outro lado da história”.

Os representantes do Ibama e da Polícia Ambiental ficaram, na matéria, explicando legislação e apresentando dados de repressão. Faltou gente de vários segmentos e diferentes interesses argumentando em favor ou contra a criação comercial de animais.

Faltou falar da “lista pet”, que o Ibama está elaborando e apresentará cerca de 100 espécies possíveis de serem criadas para abastecer o comércio de bichos de estimação. Lista essa que tem muitos ambientalistas totalmente contra.

Uma pena que a matéria ficou tendenciosa. Não se pode vender e pede imparcialidade, mas não se pode vender informação como uma verdade absoluta.

Para o Fauna News, a comercialização de animais silvestres não vai resolver o problema do tráfico de fauna. O mercado negro de silvestres como bichos de estimação é, basicamente, sustentado pelas camadas menos ricas da população. Essa gente não vai pagar um real a mais por aves criadas legalmente para esse comércio (e o preço do animal legal sempre é mais caro).

O tráfico está disseminado em todos os rincões do Brasil. Das periferias das grandes cidades às pequenas comunidades nordestinas (onde as feiras vendem de tudo). E, com certeza, nesses pequenos municípios não haverá bicho legal em quantidade suficiente para atender a demanda desse povo (isso se tiver algum).

Educação ambiental é o único meio para, em médio e longo prazos, reduzir efetivamente o hábito de manter animais silvestres em cativeiro doméstico. Cultura se muda, sobretudo, com conscientização.

- Leia a matéria completa do portal G1

quarta-feira, 14 de março de 2012

Fazendeiro dá exemplo de como incentivar o tráfico de animais

“Um fazendeiro da região de Porto Esperidião, a 208 quilômetros de Cuiabá, foi multado em R$ 510 mil pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado (Sema) por manter 102 animais silvestres em um cativeiro em sua propriedade rural há cerca de quatro anos. De acordo com a Polícia Militar Ambiental de Cáceres, que fez as apreensões na última quinta-feira (8), algumas aves e outros animais se encontravam debilitados.” – texto da matéria “Fazendeiro de MT é multado suspeito de manter 102 animais em cativeiro”, publicada em 11 de março de 2012 pelo portal G1

Tucanos enjaulados pelo egoísmo do fazenderio
Foto: Divulgação PM MT

O tal fazendeiro já vive em uma região privilegiada, com fauna abundante e exuberante. Garanto que é fácil observar aves e outros animais silvestres livres. Mas não satisfeito, o sujeito se acha no direito de prender os bichos e sentir-se dono deles.

“A maioria dos animais encontrados no local era aves, entre elas tucanos e araras, que, de acordo com a PM, eram capturados e comprados de terceiros. "Além de capturar, ele comprava dos vizinhos e outras pessoas", frisou o sargento (sargento da PM, Luiz Olívio Souza Neves). O proprietário não tinha nenhuma autorização do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para criar os animais.” – texto do porta G1

Além das aves, o fazendeiro mantinha irregularmente um veado, um casal de antas, um porco-do-mato e um casal de emas.

Veado encontrado na fazenda
Foto: Diviulgação PM MT

A matéria do G1, além de cair na falaciosa armadilha de dar destaque ao valor da multa (R$ 510 mil) - que raramente é paga -, concluiu o texto com a ingênua sentença: “Se for condenado, poderá pegar de seis meses a um ano de prisão.”

Alguém é condenado a prisão nesse país por tráfico de animais ou manter irregularmente fauna silvestre em cativeiro? Desculpe, G1, esse tipo de bobagem não dá mais para publicar...

- Leia a matéria completa do G1

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Reflexão para o fim de semana: matar por lazer. E com criança junto

Em 17 de janeiro de 2012, o jornal britânico The Sun (adjetivado por muitos como “sensacionalista”) publicou uma matéria sobre turistas que pagam para caçar girafas na África. A publicação, que não pode ser tratada como uma denúncia (como o portal G1 a classificou no texto "Famílias realizam safáris na África e caçam girafas por diversão, diz jornal") pelo fato de a atividade ser realizada há anos e legalmente, podendo ser contratada em vários pacotes de viagens, chamou bastante a atenção pelas fotos.

É o velho hábito da imprensa em promover “notícia-espetáculo”. Esse produto vende muito, tanto que chamou a atenção e aqui estamos nós discutindo a matéria. Mas vamos ao que interessa...


 Na matéria “Giraffes gunned down for family holiday 'fun'” (algo como “Girafas mortas a tiros por diversão em férias de família”), o especialista da Giraffe Conservation Foundation, Julian Fennessey, conta que a maioria dos que procuram esse tipo de atividade é da América do Norte, Alemanha, Rússia e Escandinávia, mas também há ingleses.

"Alguns caçadores apenas gostam de ter fotos tiradas ao lado da girafa morta. Mas outros pagam taxidermistas para montar a cabeça para que eles possam levá-las para casa como recordação. Ou eles podem querer tirar a pele." - fala do especialista para o The Sun

Esses safáris custam cerca de 10 mil libras (mais de 27 mil reais).

E, como escrevi no título, até criança testemunha essa prática e faz pose com a família. O que esperar desses pequenos quando se tornarem adultos?

Simples: a repetição grotesca desses erros e a manutenção da visão antropocêntrica da existência da natureza para servir os seres humanos. E assim vamos acabando com o planeta.

Sobre as girafas, a matéria do The Sun afirma que a população caiu quase pela metade desde 1988 (de mais de 140 mil para menos de 80 mil). Apesar de ameaçadas de extinção, na África do Sul, Namíbia e Zimbabwe, a caça ainda é legal em reservas particulares autorizadas a explorar comercialmente essa prática.

Girafas em área protegida: Kruger Park, África do Sul
Foto: Dimas Marques

A matéria do The Sun, que inicialmente parecia questionar essa modalidade de caça (basta ver as aspas no termo fun (diversão), perdeu esse tom e terminou com uma defesa da matança turística. Tanto que há apenas um entrevistado condenando a caça: Joe Duckworth, da The League Against Cruel Sports.

"É inacreditável que algumas pessoas achem ser aceitável matá-los para ter sua foto com o animal morto."

A defesa da caça ganha forçar a partir da declaração do dono de uma área de caça:

"Haverá sempre a emoção de pessoas que não são caçadores quando vêem animais mortos, mas estas são práticas muito regulamentadas. Rinocerontes e outros animais foram salvos mediante a conservação e o dinheiro para a conservação gerado a partir de caça."

Apesar de não esperar outra coisa do comerciante em questão, faço um grande parênteses para alertar sobre a declaração desse senhor. Primeiramente, nunca se matou tantos rinocerontes como em 2011. Somente na África do Sul, país que abriga 40% do total dos rinocerontes-negros e 93% dos brancos, em estado selvagem, o órgão estatal que gerencia os parques nacionais (South African National Parks) divulgou que 448 animais das duas espécies foram mortos apenas em 2011. Um aumento de 34,5% em relação ao ano anterior.

Devo também salientar que a exploração da caça para financiar a conservação é bastante controversa e aplicada em vários países.

Para encerrar a matéria reforçando a defesa da caça, o The Sun publicou a declaração do especialista da Giraffe Conservation Foundation, alegando que nos países onde é possível caçar legalmente, as populações de girafas estão aumentando.

"Isso mostra que se for bem gerida, a caça pode ser sustentável."

Essa visão prática da conservação desse profissional é bastante difundida mas, para mim, pouco ética. A vida em de ser preservada e não negociada...

- Leia a matéria completa do The Sun
- Leia a matéria do G1 "Famílias realizam safáris na África e caçam girafas por diversão, diz jornal"
- Conheça a Giraffe Conservation Foundation

Girafa em Kruger Park, África do Sul
Foto: Dimas Marques