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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Macaco na corrente e a cultura do cativeiro

“O dono de uma chácara foi preso por manter animal silvestre em cativeiro em Sertanópolis. O homem de 52 anos tinha na propriedade um macaco prego preso a uma corrente.

Primata que vive livre em árvores era criado em uma corrente
Foto: Divulgação Polícia Ambiental Paraná

O flagrante foi feito por Policiais da Segunda Companhia de Polícia Militar Ambiental. Durante patrulhamento nesta segunda-feira (3) na chácara, os policiais ainda localizaram uma espingarda calibre 28 municiada com dois cartuchos

O homem foi preso e encaminhado junto com a arma apreendida para a delegacia de Sertanópolis. O animal foi recolhido para ser reinserido posteriormente na natureza.”
– texto da matéria “Dono de chácara é preso por manter macaco em cativeiro”, publicado em 4 de fevereiro de 2014 pelo site paranaense Bonde

O hábito de manter animais silvestres em cativeiro doméstico, como um bicho de estimação, é antigo em todo mundo. Desde a Idade Média, na Europa Ocidental, encontram-se registros desse costume. Com as Grande Navegações, o comércio de bichos aumentou bastante, o que popularizou esse hábito.
No Brasil, os índios também criavam silvestres em suas aldeias. Os falantes da língua tupi tinham, inclusive, uma palavra para designar esses animais. Eram os xerimbabos, que significa “coisa muito querida”.

Após 1500, esses dois universos (europeu e índio) se encontram em território brasileiro e passam a fazer parte do caldo cultural que se formou. Somente após 1967, com a Lei de Proteção à Fauna é que o comércio de fauna e a criação (incluindo a doméstica) sem autorização torna-se crime. Temos portanto 467 anos de total falta de controle contra algumas poucas décadas com um novo ponto de vista.

A mudança não vai ocorrer apenas com fiscalização e leis. Ela passa, sobretudo, com educação ambiental e conscientização da população. Enquanto tiver gente interessada em criar silvestres com bichos de estimação, vai ter gente caçando e vendendo ilegalmente.

- Leia a matéria do Bonde

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Aumento de denúncias: será que a mentalidade está mudando?

“A maior ocorrência de denúncias anônimas da população de Ponta Grossa e região durante o ano de 2013 possibilitou a libertação de aproximadamente 450 aves silvestres mantidas em cativeiros ilegais. O crime é considerado rentável no mercado negro. As aves são valoradas pela espécie e canto. Alguns pássaros podem chegar a valer até R$ 10 mil.

Apreensão de aves em Ponta Grossa
Foto: Arquivo Diário dos Campos

"São as denúncias que nos levam a muitos cativeiros ilegais. Também realizamos patrulhamento em estradas rurais, abordagens e bloqueio em vias, encontrando outros casos. Mas a colaboração da população é fundamental", finaliza. (sub-tenente da Polícia Militar Ambiental do Paraná, Jamil Dainelli)”
– texto da matéria “Denúncias intensificam apreensões de aves silvestres”, publicada em 5 de janeiro de 2014 pelo site do jornal Diário dos Campos

Desde a Idade Média, a civilização ocidental cultiva o hábito de manter animais silvestres em cativeiro doméstico. Seja por motivos de alimentação, por companhia ou ornamento. E essa cultura chegou ao Brasil com os portugueses e demais europeus.

Os indígenas que habitavam o Brasil também mantinham animais em cativeiros nas aldeias. Ao chamados xerimbabos (em tupi, “coisa muita querida”) eram os silvestres criados como bichos de estimação.

Esses universos europeu e indígena se encontraram após 1500 e se fundiram na cultura brasileira. Até 1967, isto é, 467 anos depois do encontro das culturas, o comércio de animais silvestres foi permitido no Brasil. Somente com a Lei Federal nº 5.197, a chamada de Lei de Proteção à Fauna, é que a criação e venda sem autorização passaram a ser crimes. Nasce o tráfico de fauna.

Esse processo histórico não será revertido rapidamente. O hábito de manter silvestres em cativeiro, que alimenta boa parte do tráfico de fauna no Brasil, precisa de um sério e contínuo trabalho de educação ambiental, conscientizando a população dos problemas ambientais e de saúde pública envolvidos. A repressão, a legislação e a infraestrutura para solturas e destinação adequada dos bichos são necessários, mas sem a redução da demanda não funcionam.

As denúncias são um bom indicativo que educação ambiental tem um bom potencial para a mudança desse cenário.

- Leia a matéria completa do Diário dos Campos

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Reflexão para o fim de semana: o hobby que movimenta o tráfico

Manter aves em gaiolas, isto é, roubar a liberdade de um ser vivo e causar desequilíbrio em ecossistemas, ainda é justificado como hobby.

“Quarenta animais silvestres foram apreendidos no município de Limoeiro, agreste do estado. De acordo com a polícia, as aves estavam numa casa localizada na Rua Antônio Nicolau Teixeira, nº84, Bairro José Fernandes Salsa.

A ação ocorreu por volta das 11h desta terça-feira (10) em cumprimento a um mandado de busca e apreensão. No local os policiais encontraram 37 canários-da-terra, dois galos-de- campina e ainda um periquito jandaia. Os canários estavam em um viveiro, já o periquito e os dois galos-de-campina estavam em gaiolas. A residência pertence a um homem identificado como Luis Lucas da Silva, 58 anos, que em depoimento oficial disse que criava os animais como "hobby".”
– texto da matéria “Polícia apreende 40 animais silvestres em Limoeiro”, publicada em 11 de janeiro de 2012 pelo site do jornal Diário de Pernambuco


Imagem ilustrativa.

Essa prática é uma herança que está difícil de ser eliminada...

Xerimbabo. Na língua tupi a palavra quer dizer “coisa muito querida” e é utilizada pelos indígenas para designar animais silvestres tratados como bichos de estimação. O hábito faz parte da cultura desses povos que mantêm soltos nas aldeias araras, papagaios, periquitos, primatas e vários outros tipos de animais. Nunca se tentava domesticar as espécies, mas sim os espécimes. Lógico que, com o contato com a cultura do “homem branco”, muito tem mudado.

Mas esse costume se misturou com o também antigo hábito da civilização européia que, desde a Idade Média, cria animais silvestres, seja como pet seja como mercadoria ou fonte de alimento. A mistura dessas tradições forjou um forte traço na vida dos brasileiros, que gostam de criar silvestres como aves e macacos em suas residências.

E justamente esse hábito sustenta o tráfico de animais e mostra o quanto se pode maltratar um bicho pelo prazer egoísta de mantê-lo próximo. E não há exagero nenhum nessa afirmação.”
– texto do post “Macaco-prego albino é vítima de um hábito cruel” publicado pelo Fauna News em 20 de junho de 2011

Quanto ao sujeito flagrado com tantos animais...

“Luis Lucas assinou um Termo de Compromisso e Responsabilidade e foi liberado para responder o processo em liberdade.” – texto do Diário de Pernambuco

- Leia a matéria completa do Diário de Pernambuco
- Releia o post “Macaco-prego albino é vítima de um hábito cruel”, de 20 de junho de 2011

quarta-feira, 27 de julho de 2011

No Vale do Paraíba (SP), a luta pela sobrevivéncia de uma espécie

Outro dia, conversando com amigos, me disseram que o Fauna News é “um pouco pesado”. Parei, pensei e concordei. Até achei que suavizaram o comentário quando usaram a expressão “um pouco”. Tento me policiar para não dar destaque apenas às notícias ruins, apesar de ser bastante difícil quando o assunto é, por exemplo, tráfico de fauna ou o trato que muitas pessoas dão para animais silvestres que são capturados para “virarem” pets.

Acho impossível ignorar isto:

“- Outro dia soube que um vizinho pegou um macaco e colocou numa gaiola. Eu fui lá tirar satisfações, mostrar quem é que manda aqui. Mas cheguei tarde, o saguizinho já estava sem dentes.”

Essa fala é de Jairo Santos, de 62 anos, morador de São José dos Campos, no Vale do Paraíba paulista e está na matéria “Uma ilha verde em São José dos Campos”, publicada em 27 de julho de 2011 pelo site O Eco. O homem ajuda a cuidar de um trecho de Mata Atlântica de 5,5 hectares, onde vive uma população de sagüi-da-serra-escuro (Callithrix aurita) também chamado de sagüi do Vale do Paraíba - espécie nativa ameaçada de extinção por perda de hábitat.


Pela perda de hábitat, o sagui está ameaçado de extinção
Foto: Victor Moriyama

“- Dou banana para eles duas vezes ao dia há mais de 10 anos, conheço todos os macaquinhos que vivem aqui, e eles me conhecem, se comunicam comigo quando chega a hora da refeição.

Apesar das boas intenções, essa aproximação não é boa para os animais, pois tende a fragilizar sua capacidade de obter alimentos por si próprios. Mesmo imperfeita, a atuação de Jairo é importante para a preservação da área. Ele trabalha dia e noite como guardião da sua integridade.”
– texto da matéria de O Eco

A parte boa é que a Petrobrás, que tem dutos enterrados no local, irá reflorestar a área e reconectá-la com o corredor de mata que segue até Paraibuna (já na Serra do Mar).

Xerimbabos
O ato do vizinho de Jairo, que aprisionou o sagui, é uma herança que tem de ser mudada.

O costume de manter animais silvestres como bichos de estimação não é um fenômeno recente. Já na Idade Média, entre os europeus era possível encontrar macacos, papagaios, esquilos e doninhas no interior das residências, praticamente dividindo o mesmo espaço com seus proprietários. Para os camponeses, dependendo da espécie, o costume garantia uma fonte de alimento, enquanto para as classes mais altas, manter animal em casa era considerado artigo de luxo, símbolo de riqueza, poder e nobreza.

Mas esse hábito não era exclusividade dos europeus. Indígenas brasileiros também criavam animais silvestres como bichos de estimação, tanto que os falantes da língua tupi tinham um termo específico para seus “pets”: xerimbabos (“coisa muito querida”). A mistura desses elementos formou parte da cultura nacional.

Dos pequenos municípios das regiões mais isoladas do país até grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro é fácil encontrar animais nas residências. Dos domesticados cães e gatos, passando pelos tradicionais pássaros, até os silvestres, os brasileiros cultivam fortemente esse costume. Calcula-se que até 70% do comércio ilegal de silvestres no Brasil seja voltado para o mercado interno.

Estima-se que entre dois e quatro milhões de animais silvestres vivam em cativeiros particulares. De acordo com a fonte consultada, esse número pode ser ainda maior. Para dimensionar o quanto os ecossistemas brasileiros sofrem por causa dessa demanda, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) afirma que 12 milhões de animais são retirados da natureza por ano no Brasil. Para a ONG Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), esse número é de 38 milhões.

O tráfico da fauna é apontado como a segunda causa da perda da biodiversidade no mundo e a terceira atividade ilegal mais lucrativa (atrás dos tráficos de drogas e de armas).

- Leia a matéria “Uma ilha verde em São José dos Campos” de O Eco.
- Conheça a Renctas.