Mostrando postagens com marcador macaco-prego. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador macaco-prego. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de junho de 2014

Raiva em macaco-prego: o perigo das zoonoses nos silvestres

Um dos maiores perigos para quem se envolve com o mercado negro de fauna, seja traficando, comprando ou capturando para criar como bicho de estimação, são as zoonoses – doenças transmitidas para os humanos. Mais de 180 delas já foram identificadas.

Primatas são algumas das vítimas desse comércio e desse hábito dos humanos e os casos de contaminação com raiva são bastante conhecidos quando o animal envolvido é o sagui. Mas uma novidade deve servir como alerta:

“Um primata bem conhecido, adotado inclusive como animal de estimação em muitas regiões do Brasil, o macaco-prego pode estar entre os responsáveis pela transmissão do vírus da raiva. É o que sugere um estudo publicado na revista Virus Research. Nele, um grupo de pesquisadores brasileiros e japoneses relata ter identificado uma possível nova variante do vírus em um macaco-prego no município de Marcelândia, no estado de Mato Grosso. Esta é a primeira vez que o vírus da raiva é detectado nesse primata. Até então, os pesquisadores haviam identificado uma variante do vírus circulando em saguis (Callitrix jacchus), que passaram, a partir daí, a ser considerados um reservatório natural da doença. Entre os anos de 1991 e 1998, os saguis-de-tufo-branco (Callitrix jacchus jacchus) causaram oito mortes de seres humanos no Ceará.

Macaco-prego sendo traficado no Pará
Foto: SOS Fauna

(...) Apesar de até hoje não haver registros de transmissão de raiva para humanos por macacos-prego, a médica veterinária (Adolorata Aparecida Bianco Carvalho, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Jaboticabal, e uma das autoras do artigo – observação do Fauna News) alerta para os riscos do contato com esse animal e destaca a importância da vacinação em caso de mordidas de macacos e outros animais silvestres. “Nosso estudo mostrou que o macaco-prego pode ser um potencial transmissor de raiva para o ser humano”, diz. “Existem casos de contato acidental entre as duas espécies, sem registros de transmissão do vírus. De qualquer forma, é importante identificar o ciclo infecioso da raiva em macacos para o controle da doença.” Como apenas uma amostra foi analisada no estudo, ainda não é possível saber se a descoberta se aplica a todos os macacos-prego. Pela localização geográfica, o animal encontrado em Marcelândia provavelmente era da espécie Sapajus libidinosus, conforme alterações recentes na classificação.” – texto da matéria “Vírus da raiva é encontrado em macaco-prego”, publicada em 21 de fevereiro de 2014 pelo site da revista Pesquisa Fapesp

Tráfico de animais e criação de silvestres retirados da natureza como bichos de estimação são um risco para a saúde pública. O poder público ainda não se mobilizou para atacar o problema de forma eficiente, gastando seus recursos com o sistema de saúde em vez de investir em educação ambiental para a mudança de hábito dos cidadãos.

- Leia a matéria completa da Pesquisa Fapesp

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Chico morreu: a história do primata que merece reflexão

Chico, macaco-prego que por 38 anos foi criado por uma família em São Carlos (SP) e ganhou fama por causa da polêmica envolvendo sua apreensão pela Polícia Militar Ambiental, morreu dia 7, sexta-feira. A causa da morte ainda não está definida.

“'Perdi um filho'. Essa é a frase que resume o sentimento de tristeza da aposentada Elizete Farias Carmona, de 71 anos, depois da morte do macaco-prego Chico na tarde desta sexta-feira (7), a caminho do veterinário, em São Carlos (SP). A relação de 38 anos, considerada de mãe e filho, ficou conhecida em todo país e gerou repercussão internacional quando ele foi retirado da dona pela Polícia Militar Ambiental, após uma denúncia. Eles ficaram separados durante 16 dias e uma liminar da Justiça obrigou o retorno do animal para Elizete, que adequou a casa para continuar com ele.

Chico, no colo de Elizete: carinho, coleira e corrente
Foto: Fabio Rodrigues

Ainda inconsolável, a aposentada recebeu a reportagem do G1 na calçada em frente à sua casa. De acordo Elizete, Chico ficou doente há dois dias e foi levado ao veterinário na quinta-feira (6). "Estava bem e ficou meio desanimado e amuado", disse. Na manhã desta sexta, ela levou ao retorno e ele foi medicado. "Ele pediu para voltar 17h30. No caminho, ele olhou para mim e deu um suspiro. Ele morreu no meu peito", disse emocionada.” – texto da matéria “Macaco-prego Chico morre aos 38 anos: 'perdi um filho', lamenta a dona, publicada em 7 de fevereiro de 2014 pelo portal G1

Vida no cativeiro

A polêmica causada pela apreensão de Chico chamou a atenção para o costume de criar silvestres como bichos de estimação. O animal vivia sob os cuidados da aposentada Elizete Farias Carmona, de 71 anos. “Um caminhoneiro que era meu vizinho trouxe o Chico do Mato Grosso. Ele sempre trazia macacos”, conta a aposentada, que frequentava a casa desse motorista por ser amiga da esposa dele.

De acordo com Elizete, Chico não tinha nome e ficava horas dentro de uma pequena caixa. “Ele era judiado. Minha vizinha tinha medo por causa das crianças”, lembra. “Quando eu ia lá jogar baralho, ele ficava no meu colo todo feliz. Um dia, ela me perguntou seu eu queria ficar com ele. Eu não sabia que precisava de autorização e trouxe o Chico”, disse a aposentada.

Mas manter animais silvestres em cativeiro sem autorização do órgão ambiental é crime. Está no artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais, com pena prevista de multa e, em caso de condenação, entre seis meses e um ano de prisão. Chico estava em situação irregular e, após uma denúncia, uma equipe da Polícia Militar Ambiental esteve na casa de Elizete em 15 de fevereiro de 2008. A macaca só não foi apreendida pelo fato de não ser de espécie ameaçada de extinção, não apresentar sinais de maus tratos e, segundo a PM, porque não fora localizada uma instituição autorizada para abrigar o animal perto de São Carlos.

Chico, antes da apreendão
Foto: Fabio Rodrigues

Elizete tornou-se fiel depositária de Chico, o que é permitido de acordo com critérios da Resolução 384 de 2006, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que estava vigeu até dezembro, quando entrou em vigor a Resolução 457. Equipes da PM Ambiental estiveram na casa da aposentada para verificar o estado da macaca em 24 de novembro de 2011 e em 7 de março de 2013. Com a qualificação e, 2013 da Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), de Assis, como centro de reabilitação de animais silvestres pelos governos federal e estadual, ficou resolvido o problema da falta de local apropriado e policiais efetuaram a apreensão na manhã de 3 de agosto.

A retirada de Chico de Elizete causou enorme polêmica. O amor de um ser humano por animais silvestres e a dor da separação passaram a ser discutidos. Dois abaixo-assinados virtuais e uma página no Facebook foram criados em favor da devolução da macaca para a aposentada e inúmeras matérias jornalísticas sobre o caso foram produzidas, inclusive pela BBC, pela agência Associated Press e pelo Fantástico, da TV Globo.

O sofrimento de Chico causado pela separação da humana que o criou e por sua retirada do ambiente onde viveu por décadas foi um dos principais argumentos daqueles favoráveis à sua devolução a Elizete, que passou mal no dia da apreensão.

O então advogado de Elizete, Flávio Lazzarotto, solicitou à Justiça, por meio de pedido de liminar, a guarda provisória de Chico para a aposentada. Em 13 de agosto, a juíza Gabriela Müller Carioba Attanasio, da Vara da Fazenda Pública da Comarca de São Carlos, decidiu em favor da solicitação.

“A principal alegação utilizada foi o fato de o animal estar totalmente domesticado e não sobreviveria ou sofreria muito fora do ambiente em que foi criado”, explicou. Ele ainda usou como argumentos “a idade de Chico, que tem por volta de 37 anos e possui uma expectativa de vida de 40, as boas condições de manutenção do animal, e ainda a circunstância temporal dos fatos, ou seja, na época em que Elizete recebeu o macaco não faziam parte da cultura nacional as preocupações, que hoje existem, em relação à proteção ao meio ambiente e aos animais.”

Na APASS foi constatado que o macaco estava com três quilos abaixo do peso ideal, tinha as pernas e o quadril atrofiados por causa da pouca movimentação permitida pela corrente de um metro a que ficava presa e estava com marcas no pescoço por causa de uma coleira. Em Assis, ela ocupou um grande viveiro, ao lado de outros de sua espécie, e se alimentando adequadamente. Por falta de informação, Elizete dava para o animal, além dos corretos legumes e frutas, arroz, leite com açúcar e até iogurte.

Às 23h30 de 19 de agosto, cumprindo a decisão judicial, o macaco voltou para os braços de Elizete. “Parece um sonho que eu estou com ele aqui”, desabafou a aposentada logo que pegou o animal no colo. Chico passou a ter acompanhamento veterinário e de uma bióloga, que elaboraram uma dieta adequada e deram instruções para a construção de um viveiro.

Chico voltando para Elizete
Foto: Fabio Rodrigues

Polêmica: apreender ou não
A possibilidade de ocorrer danos à saúde das pessoas e dos animais envolvidos em casos como o de Chico é real. De acordo com a veterinária Maria de Fátima Martins, “no caso de um longo convívio com um animal silvestre, como entre a senhora de São Carlos e o macaco-prego, dado a capacidade do animal ter senciência, o mais indicado seria ele permanecer junto ao ambiente que lhe é familiar, pois a alteração da situação pode acarretar solidão, estereotipias diversas, culminando com a morte. Porém, cada caso é um caso”. Professora no campus de Pirassununga da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), ela desenvolve pesquisas sobre a interação homem-animal e bem estar animal.

Veterinária e doutora em psicologia (de humanos), Hannelore Fuchs é uma especialista em cognição animal e na relação dos bichos com os seres humanos. Ela concorda com Maria de Fátima sobre a consequência da separação para o bicho que viveu muito tempo em cativeiro doméstico. “O ser humano torna-se seu companheiro, uma figura de referência, afinal o animal pouco socializou com os de sua espécie. A primeira passagem para o novo ambiente, quando há a apreensão, quebra uma rotina e muda as expectativas, gerando estresse intenso e alterando sua homeostase (equilíbrio)”, explica Hannelore.

Por outro lado, muitos ambientalistas são contra a permissão (guarda provisória) de o bicho ficar com quem foi flagrado criando o animal silvestre sem autorização. “Na maioria das vezes as pessoas não conseguem ter uma dimensão real do problema. Acham que só existe aquele caso, o que na realidade não é. São muitos os animais mantidos nessa situação. Se você for conivente com uma pessoa, terá que ser com todas, o que seria absurdo”, afirma o coordenador-geral da ONG Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), Dener Giovanini.

Para Giovanini, o correto é punir o infrator, retirar o animal e, assim, desestimular que casos parecidos continuem acontecendo. “Não se combate um crime, seja ele qual for, com base em sentimentos. O correto é sempre a lei.” O ambientalista considera que manter o animal traficado junto de quem cometeu a infração transforma a fiscalização numa espécie de gincana, com aquele que consegue vencer as barreiras fiscalizatórias ganhando como prêmio o direito de ficar com o produto do crime.

Opinião Fauna News

A história desse primata e dessa família tem de servir de exemplo sobre os danos do hábito de manter silvestres em cativeiro e do tráfico de fauna. Para seu ecossistema, o animal morreu há 38 anos quando o transformaram em Chico. Ele não cumpriu suas funções ecológicas, na predou ou foi predado, não reproduziu, etc. A morte dele deixa dor na família, essa sim dependente do macaco. Chico ainda teve a oportunidade, ao ser apreendido, de deixar de ser Chico e voltar a ser macaco, vivendo entre os seus e se alimentando como um animal.

Mas a Justiça resolveu pensar no bem estar de uma família e concedeu a ela a guarda do macaco, reforçando para a sociedade a possibilidade de ter legalmente um silvestre como pet. A vida desse animal merece reflexão.

Se o poder público tivesse uma rede de Centros de Triagem de Animais Silvestres e de áreas de soltura bem estruturada, com programas de recuperação dos bichos apreendidos e a burocracia funcionando para dar agilidade às solturas, a Justiça cada vez menos aceitaria argumentos favoráveis à manutenção dos animais com humanos. Os juízes, conhecendo uma infraestrutura adequada de recuperação, soltura e destinação aos que permanecerão em cativeiro, teriam a chance de aplicar melhor a legislação.

A ineficiência da União, dos Estados e dos Municípios, aliada à falta de informação dos juízes sobre a possibilidade de recuperação dos silvestres, dá espaço para a Justiça tomar decisões com as que envolveu Chico.

As apreensões têm de continuar a ser feitas. E os órgãos de fiscalização têm de continuar a lutar na Justiça quando os pretensos "donos" tentarem a guarda do animal.

- Leia a matéria completa do portal G1

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Macaco na corrente e a cultura do cativeiro

“O dono de uma chácara foi preso por manter animal silvestre em cativeiro em Sertanópolis. O homem de 52 anos tinha na propriedade um macaco prego preso a uma corrente.

Primata que vive livre em árvores era criado em uma corrente
Foto: Divulgação Polícia Ambiental Paraná

O flagrante foi feito por Policiais da Segunda Companhia de Polícia Militar Ambiental. Durante patrulhamento nesta segunda-feira (3) na chácara, os policiais ainda localizaram uma espingarda calibre 28 municiada com dois cartuchos

O homem foi preso e encaminhado junto com a arma apreendida para a delegacia de Sertanópolis. O animal foi recolhido para ser reinserido posteriormente na natureza.”
– texto da matéria “Dono de chácara é preso por manter macaco em cativeiro”, publicado em 4 de fevereiro de 2014 pelo site paranaense Bonde

O hábito de manter animais silvestres em cativeiro doméstico, como um bicho de estimação, é antigo em todo mundo. Desde a Idade Média, na Europa Ocidental, encontram-se registros desse costume. Com as Grande Navegações, o comércio de bichos aumentou bastante, o que popularizou esse hábito.
No Brasil, os índios também criavam silvestres em suas aldeias. Os falantes da língua tupi tinham, inclusive, uma palavra para designar esses animais. Eram os xerimbabos, que significa “coisa muito querida”.

Após 1500, esses dois universos (europeu e índio) se encontram em território brasileiro e passam a fazer parte do caldo cultural que se formou. Somente após 1967, com a Lei de Proteção à Fauna é que o comércio de fauna e a criação (incluindo a doméstica) sem autorização torna-se crime. Temos portanto 467 anos de total falta de controle contra algumas poucas décadas com um novo ponto de vista.

A mudança não vai ocorrer apenas com fiscalização e leis. Ela passa, sobretudo, com educação ambiental e conscientização da população. Enquanto tiver gente interessada em criar silvestres com bichos de estimação, vai ter gente caçando e vendendo ilegalmente.

- Leia a matéria do Bonde

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Macaco Chico: dilema entre o bem estar animal e o combate ao tráfico de fauna

Dezesseis dias depois de ter sido apreendido pela Polícia Militar Ambiental, o macaco-prego fêmea Chico retornou para a família que o criou ilegalmente durante 37 anos em São Carlos (SP). Ela foi devolvida em cumprimento de uma decisão liminar da Justiça em favor do pedido de Elizete Farias Carmona, de 71 anos.

‘“Não tenho palavras, parece mentira. Eu sonhava com esse momento”. Foi assim que a aposentada Elizete Farias Carmona relatou na noite desta segunda-feira (19) a emoção que sentiu em São Carlos (SP) ao pegar no colo novamente a macaca-prego ‘Chico’, de quem ficou separada por 16 dias.

Chico no reencontro com dona Elizete
Foto: Fabio Rodrigues/G1

(...)“Foi uma judiação tirar o bicho daqui. Para mim, ele vai ser sempre o meu filho Chico. Estou muito feliz porque agora a família está completa”, declarou dona Elizete, que precisou tomar remédios e se acalmar devido à ansiedade de receber o animal na noite desta segunda-feira.’
– texto da matéria “Emoção marca reencontro da dona com a macaca 'Chico' em São Carlos”, publicada em 20 de agosto de 2013 pelo portal G1

Chico foi capturado na mata e provavelmente acabou traficado. Passou medo e sabe-se lá o que enfrentou até chegar à casa de dona Elizete. Ele perdeu a liberdade e a natureza perdeu com a sua ausência, já que o animal deixou de cumprir suas funções ecológicas no ecossistema onde nasceu.

O poder público, por meio da Polícia Militar Ambiental, foi condenado por muita gente pelo fato de ter apreendido a macaca. O ato foi considerado cruel, não levando em consideração o bem estar do animal. Afinal, disseram, seria melhor exigir de dona Elizete algumas melhorias para Chico e, assim, deixá-lo com a família humana. Evitar-se-ia estressar o primata e a senhora de 71 anos.

Mas a devolução de Chico é um péssimo exemplo para quem cria ou quer criar animais silvestres como bichos de estimação sem autorização do órgão ambiental.  Esses arriscarão comprando um bicho no mercado negro e, em caso de apreensão, ainda terão na Justiça a possibilidade da devolução do animal. E pior: terão a guarda com autorização!

O poder público é o grande vilão por esse tipo de situação.

Não fiscalizou direito e o macaco acabou traficado.

Não investiu em educação ambiental e pessoas o adquiriram e o criaram como Chico, o bichinho de estimação.

Não investe em Cetas bem estruturados, equipados e em quantidade suficiente para atender a demanda e assim evitar que animais apreendidos tenham de ficar com os infratores.

O combate ao tráfico de animais silvestres vive de ações e projetos isolados. Não tem norte, ou melhor, sequer existe como política pública.

- Leia a matéria completa do portal G1
Releia os posts do Fauna News sobre o macaco-prego de São Carlos:
- Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais, publicado em 5 de agosto de 2013
- Macaco Chico: na verdade uma fêmea criada no amor torto, publicado em 6 de agosto de 2013
- Macaco Chico: caso do animal mantido 37 anos em cativeiro pode parar na Justiça com argumentos afetivos, publicado em 7 de agosto de 2013
- Macaco Chico: animal virou iô-iô. Justiça determina retorno do primata à família, publicado em 15 de agosto de 2013

sábado, 17 de agosto de 2013

Resumo da semana

Saiba o que foi destaque esta semana no Fauna News...

Segunda-feira (12 de agosto)
- Começar a semana pensando...
A entrega voluntária do jabuti Tuta pelo comerciante Vander Espinoza Bravo, que o criou sem autorização por 23 anos, à Polícia Militar Ambiental. Alegre (ES).

Vander entregando Tuta
Foto: Divulgação P/5 Polícia Ambiental ES

- O lado sofisticado do tráfico de animais no Brasil
Operação da Polícia Federal contra o tráfico internacional de pássaros do Brasil para a Guiana Francesa. Amapá.

Terça-feira (13 de agosto)
- Ex-candidato a prefeito, médico e filiado ao Partido Verde. O que vai alegar por manter 43 animais silvestres em cativeiro?
Operação de vários órgãos de fiscalização encontra 43 animais silvestres em cativeiro na fazenda do nefrologista Ildefonso Rodrigues dos Santos. São Caitano (PE).

Tucano apreendido na fazenda do médico
Foto: Divulgação CPRH

- O pouco falado tráfico de peixes ornamentais
Cinco pessoas integrantes de uma quadrilha envolvida com o tráfico de peixes ornamentais da Amazônia foram presas pela Polícia Civil. São Paulo de Olivença (AM).

Quarta-feira (14 de agosto)

- Agonizando na pista. Uma sucuri de sete metros
Uma sucuri de aproximadamente sete metros foi encontrada agonizando na BR-364. O animal provavelmente foi atropelado. Cruzeiro do Sul e Tarauacá (AC).

Sucuri de sete metros atropelada
Foto: Luiz Calixto

- Não bastasse perder a liberdade, ainda sofreu maus tratos
25 aves silvestres foram apreendidas durante a Operação Resgate realizada pelo Batalhão de Policiamento Ambiental da Paraíba. Cinco delas apresentavam indícios de maus tratos. João Pessoa (PB).

Quinta-feira (15 de agosto)
- Macaco Chico: animal virou iô-iô. Justiça determina retorno do primata à família
Liminar da Justiça concedida determinou que a macaca-prego ‘Carla’ seja devolvida para a mulher que a criou no prazo de cinco dias.. Em 3 de agosto, o animal foi retirado da família que o batizou de Chico e o criou durante 37 anos para ser levado à Associação Protetora dos Animais Silvestres (APASS). São Carlos (SP).

- Marfim disfarçado de chocolate. A ousadia do tráfico
Apreensão de 583 presas de elefantes que estavam sendo traficadas disfarçadas de barras de chocolate. Macau (China).

Presas de elefantes apreendidas na China
Foto: Huang MJIB, TW

Sexta-feira (16 de agosto)
- Macaé (RJ) investe para reduzir atropelamentos de animais. Se mais prefeituras fizessem o mesmo...
Com o objetivo de ampliar a preservação dos animais silvestres, a secretaria de Ambiente de Macaé formalizou convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para a criação de banco de dados de atropelamentos da fauna da região. Macaé (RJ).

- Reflexão para o fim de semana: três labradores e o tráfico de animais
Três labradores foram treinados para farejar e identificar animais escondidos em bagagens. China.

Labrador procurando animais traficados
Imagem: Reprodução vídeo Traffic

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Macaco Chico: animal virou iô-iô. Justiça determina retorno do primata à família

A decisão é liminar, isto é, ainda não é definitiva.

“Uma liminar da Justiça concedida no fim da tarde terça-feira (13) determina que a macaca-prego ‘Carla’ seja devolvida para a dona em São Carlos (SP) no prazo de cinco dias. O valor da multa em caso de descumprimento é de R$ 1 mil por dia. No dia 3 de agosto, o animal foi retirado da família que o criou durante 37 anos e o chamava de 'Chico' e levado para a Associação Protetora dos Animais Silvestres (APASS) de Assis (SP), distante a 330 quilômetros. A Secretaria Estadual do Meio Ambiente informou que ainda não foi notificada.

 Carla deverá deixar a APASS, em Assis (SP),...
Foto: Alan Schneider/G1

...para voltar a ser o Chico de dona Elizete, em São Carlos (SP).
Foto: Fabio Rodrigues/G1

Na decisão, divulgada nesta quarta-feira (14), a juíza Gabriela Muller Carioba Attanasio determina que, após a devolução da macaca, a dona terá um prazo de dez dias para realizar ajustes na estrutura e na alimentação do bicho, o que deverá ser comprovado por um laudo profissional.

A magistrada afirmou em sua decisão que documentos do processo evidenciam que há sinais de domesticação do animal durante os 37 anos que viveu em São Carlos, o que estabeleceu um vínculo familiar forte e uma interação entre o bicho e a dona. “Alguns estudos apontam que os animais mantidos em cativeiro por longos anos não conseguem se alimentar, nem se defender sozinhos”, diz um trecho do texto.”
– texto da matéria “Liminar da Justiça obriga retorno de macaca para dona em São Carlos, SP”, publicada em 14 de agosto de 2013 pelo portal G1

Chico, que foi rebatizado como Carla por ser uma fêmea, foi apreendido em 3 de agosto de 2013 após permanecer sem autorização do órgão ambiental por 37 anos com Elizete Farias Carmona, de 71 anos, em São Carlos (SP). O animal foi levado para a ONG Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), em Assis (SP). O caso causou grande polêmica com gente defendendo a ação do Estado e gente considerando uma crueldade a retirada do macaco do local onde, alegam, estaria ambientado.

Enquanto dona Elizete e o poder público disputam quem tem razão, a macaca novamente passará pelo estresse de uma viagem e de novas mudanças. Se a decisão definitiva da Justiça se alterar no futuro, mais uma troca. E assim vai...

E tudo isso por causa da falta de fiscalização na origem do problema, isto é, nas áreas de captura e apanha dos animais.

E tudo isso por causa da falta de investimento em educação ambiental, que faria com que as pessoas não optassem por manter animais silvestres em cativeiro como bichos de estimação.

E tudo isso por causa de uma legislação fraca, que não pune o traficante de animais como deveria.

Enfim, tudo isso está acontecendo porque o poder público não tem uma política definida para lidar com a fauna silvestre brasileira.

Estado omisso.

- Leia a matéria completa do portal G1
Releia os posts do Fauna News sobre o macaco-prego de São Carlos:
- Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais, publicado em 5 de agosto de 2013
- Macaco Chico: na verdade uma fêmea criada no amor torto, publicado em 6 de agosto de 2013
- Macaco Chico: caso do animal mantido 37 anos em cativeiro pode parar na Justiça com argumentos afetivos, publicado em 7 de agosto de 2013

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Ex-candidato a prefeito, médico e filiado ao Partido Verde. O que vai alegar por manter 43 animais silvestres em cativeiro?

Muitas das apreensões de animais silvestres mantidos em cativeiro domiciliar ilegal ocorrem por falta de informação das pessoas. Há que não saiba estar cometendo um crime e há uma grande maioria que não tem a menor noção do problema ambiental que está ajudando a promover.

Essa é a realidade da maior parte dos casos. Mas há uma parcela de infratores que não dá para alegar nada. É o caso do nefrologista Ildefonso Rodrigues dos Santos (foto abaixo), que foi candidato a prefeito de São Caitano (PE) pelo Partido Verde (PV). Isso mesmo, pelo PV.
Foto: Jornal de Caruaru
“Uma operação conjunta realizada pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH), Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (Depoma), Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) e Companhia Independente de Policiamento do Meio Ambiente (Cipoma) apreendeu , no município de São Caetano, Agreste central de Pernambuco, 43 animais da fauna silvestre que estavam vivendo em cativeiro. Os animais estavam em uma fazenda na zona rural do município, de propriedade do nefrologista Ildefonso Rodrigues dos Santos.

Entre os animais resgatados, estão cinco araras da espécie Canindé, uma arara azul e uma vermelha, cinco tucanos, dois papagaios, um macaco prego, quatro jabutis e um veado caatingueiro. Para a surpresa dos fiscais, três dessas araras eram criadas ao ar livre em uma árvore. Apesar de soltas, elas não podiam voar porque tinham as asas cortadas e, para comer, subiam e desciam pelos galhos.”
– texto da matéria “Operação apreende mais de 40 animais silvestres vivendo em cativeiro no Agreste”, publicada em 12 de agosto de 2013 pelo site do Diario de Pernambuco

As araras tiveram as asas cortadas para não fugir
Foto: Divulgação CPRH

Esse é o tipo do caso que não tem muito o que comentar, mas é preciso lamentar como a legislação o trata:

“De acordo com a delegada titular do Depoma, Eliane Caldas, o médico vai responder ao TCO em liberdade. "Não identificamos maus tratos, os viveiros eram grandes. Não cabia prisão em flagrante por se tratar de crime de menor potencial ofensivo", explicou.

O juiz Ailton Alfredo, coordenador dos juizados especiais do Recife, afirmou que a pena de seis meses de reclusão pode ser convertida em penas alternativas. "O réu que tem bons antecedentes criminais e não esteja cumprindo outra pena alternativa pode ser beneficiado", esclareceu.”
– texto do Diario de Pernambuco

Só quem fica preso é o animal, como o tucano apreendido
Foto: Divulgação CPRH

Pelo menos o doutor não foi eleito. Parece que a população, de alguma forma, sentiu algo de estranho no ar. Nas eleições de 2012, Ildefonso recebeu apenas 870 votos (3,92% do total).

- Leia a matéria completa do Diario de Pernambuco
- Leia a página de Ildefonso no site UOL Eleições 2012

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Mais amor torto: depois do macaco Chico, agora é a capivara Jorge

Um dos principais incentivadores do tráfico de fauna é a cultura do criar animais silvestres como bichos de estimação. O hábito não é novo e acompanha a humanidade há tempos. Um dos últimos capítulos desse capricho de algumas pessoas envolveu a apreensão do macaco-prego Chico, na verdade uma fêmea, que viveu por décadas com uma família do interior paulista.

Chico, que foi rebatizado como Carla, foi apreendido em 3 de agosto de 2013 após permanecer sem autorização do órgão ambiental por 37 anos com Elizete Farias Carmona, de 71 anos, em São Carlos (SP). O animal foi levado para a ONG Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), em Assis (SP). O caso causou grande polêmica com gente defendendo a ação do Estado e gente considerando uma crueldade a retirada do macaco do local onde, alegam, estaria ambientado.

Mudando um pouco o foco da discussão, deslocando-o dos animais para os humanos, uma máxima do doutor em Conservação da Vida Silvestre, fundador da Escola da Amazônia e membro do Instituto Pró-Carnívoros, Silvio Marchini, tem de ser lembrada: manejo de fauna é manejo de gente.

O comportamento de dona Elizete, que alegou tratar a macaca como um filho, não é uma exceção:

“Uma capivara de aproximadamente quatro meses foi entregue nesta sexta-feira (5) à Polícia Militar do município de Mucajaí, a 51 quilômetros de Boa Vista. O animal, chamado de Jorge pela família, estava vivendo em uma residência e era tratado como membro da família, segundo os policiais.

Jorge, a capivara, ganhou até uma festinha com direito a roupinha
Foto: Arquivo pessoal

O mamífero foi encaminhado à Companhia de Policiamento Ambiental na capital. De acordo com o major Charles Matos, a dona de casa Maria das Graças Silva, de 55 anos, entregou o animal devido a informações de que ele poderia ficar agressivo quando chegasse à vida adulta.

"Ela procurou a polícia de forma voluntária. Na hora da despedida, houve muita comoção. Os filhos da mulher choraram bastante, por terem se apegado à capivara", disse o major.

Aos policiais, Maria das Graças informou que resolveu cuidar do bicho quando, ainda filhote, foi encontrado machucado no quintal da casa. Ela disse que tinha o maior amor pelo animal, mas que muitas pessoas diziam que ela poderia ser multada caso a polícia descobrisse.

"A casa está vazia. Meus cinco filhos e dez netos estão tristes demais. Uma das minhas filhas ainda não comeu nada o dia todo. O Jorge dormia na minha cama e tomava mamadeira três vezes por dia", disse.”
– texto da matéria “Em Roraima, mulher entrega à polícia capivara que era tratada como 'filho'”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1

O caso envolvendo a capivara Jorge não chegou ao extremo do macaco-prego, mas também mostra o quanto esse tipo de amor torto pode gerar consequências. A família de Roraima tomou a decisão certa, ainda que não estivesse pensando no bem estar do animal e sim considerando uma futura agressividade do animal e a possibilidade de uma multa.

Deve-se reparar que o pensamento continua antropocêntrico, em que o ser humano está no centro das decisões e o restante do universo existe para servi-lo. Mas para as famílias que criavam o macaco-prego e a capivara, existia a convicção de que se estava fazendo o melhor pelos animais – afinal, o que pode ser melhor que o nosso amor incondicional?

Chico: como um filho para dona Elizete
Foto: Fabio Rodrigues/G1

Em última análise, o que Marchini afirma é que os problemas enfrentados pela fauna silvestre têm sua origem em ações humanas e não no comportamento do animal. Bichos sofrem e o meio ambiente é pressionado, no caso do tráfico de fauna e de cativeiros ilegais, para suprir carências afetivas e uma necessidade de manter-se ligado à natureza que se manifesta por meio de gaiolas e jaulas.

Está na hora de tratar o comportamento do homem com mais seriedade. O tráfico de fauna não vai ser resolvido apenas com ação policial e com biólogos e veterinários trabalhando com animais apreendidos e tentando, na medida do possível, realizar solturas. O combate ao mercado negro precisa de advogados, juízes, legisladores, educadores, jornalistas, publicitários, antropólogos e uma infinidade de profissionais.

O poder público ainda não se deu conta disso. O que ainda não ficou claro é se por falta de conhecimento ou por não priorizar o problema.

- Leia a matéria completa “Em Roraima, mulher entrega à polícia capivara que era tratada como 'filho'”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1
- Leia o artigo de Silvio Marchini “Manejo de fauna, manejo de gente”, publicado em 14 de março de 2012 no site O Eco
Releia os posts do Fauna News sobre o macaco-prego de São Carlos:
- Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais, publicado em 5 de agosto de 2013
- Macaco Chico: na verdade uma fêmea criada no amor torto, publicado em 6 de agosto de 2013
- Macaco Chico: caso do animal mantido 37 anos em cativeiro pode parar na Justiça com argumentos afetivos, publicado em 7 de agosto de 2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Macaco Chico: caso do animal mantido 37 anos em cativeiro pode parar na Justiça com argumentos afetivos

“A família que durante 37 anos cuidou de um macaco-prego em São Carlos (SP), retirado pela Justiça no último sábado (3), conseguiu um advogado nesta segunda-feira (5) para tentar trazer o animal de volta para casa. Após uma denúncia, o bicho foi levado para a Associação Protetora dos Animais (APA) de Assis (SP), que fica a 330 quilômetros de São Carlos. Exames veterinários feitos nesta tarde atestam que o macaco, até então conhecido como Chico, é, na verdade, fêmea. A dona do animal, Elizete Farias Carmona, de 71 anos, discorda. Dois abaixo-assinados na web que pedem a volta do macaco já tiveram adesão de 14.544 pessoas. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) da cidade vai apoiar a família.
Elizete e a macaca que foi batizada de Chico
Foto: Fabio Rodrigues/G1

(...) A presidente do Conselho de Meio Ambiente da OAB de São Carlos, Elizabeth Pepato, também procurou a família nesta segunda-feira para oferecer apoio. A entidade recebeu um e-mail do Cadastro Nacional dos Advogados solicitando à OAB de São Carlos que fizesse uma intervenção no caso e apurasse os fatos.”
– texto da matéria “Família consegue advogado para tentar recuperar macaco-prego”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1

Chico, que foi rebatizado como Carla, foi apreendido em 3 de agosto de 2013 após permanecer sem autorização do órgão ambiental por 37 anos com Elizete Farias Carmona, de 71 anos, em São Carlos (SP). O animal foi levado para a ONG Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), em Assis (SP). O caso causou grande polêmica com gente defendendo a ação do Estado e gente considerando uma crueldade a retirada do macaco do local onde, alegam, estaria ambientado.

A história desse macaco-prego-amarelo ganha agora um novo capítulo, que deve se desenrolar nos tribunais com a alegação da família de estar defendendo o bem estar afetivo do animal.

‘“Estamos à disposição. A família pode ingressar com ação própria para que o macaco volte. Além do direito de ela estar com o animal, vem o caso afetivo. Então se ficar longe, o animal vai sofrer mais do que no convívio da família”, disse a presidente da Comissão.’ – texto do portal G1

Deve-se salientar que também há argumentos que contradizem o alegado bem estar do macaco. O presidente da ONG Aguinaldo Marinho de Godoy declarou para o portal G1 na matéria “Veterinários de Assis, SP, atestam que macaco ‘Chico’ é fêmea”, publicada em 5 de agosto de 2013:

“Ela foi mantida presa com uma corrente de cerca de um metro, que não é o espaço recomendado, ela disso criou sequelas como machucados no pescoço e atrofiamento dos pés”, completa Marinho.

Ainda de acordo com os integrantes da ONG, o animal destruiu a ‘coleira’ quando ela foi retirada. “O que demonstra que ela não gostava de ficar presa.”

A macaca no quintal de Elizete

Outra matéria do G1 ("Macaca 'Carla' terá acompanhamento nutricional para recuperar peso ideal"), publicada em 6 de agosto de 2013, ainda destaca:

'Carla’ foi recolhida da casa de Elizete Farias Carmona, de 71 anos, em São Carlos. A antiga dona enviou uma folha de papel para a ONG detalhando a alimentação que dava ao animal: cenoura, banana, pão, leite, farinha, arroz. Segundo o presidente da ONG, Aguinaldo Marinho de Godoy, ‘Carla’ terá duas semanas de supervisão nutricional.  “Agora que o veterinário e o biólogo passaram o cardápio correto, inclusive com uma quantidade maior do que para os demais macacos. Nos próximos 15 dias, a cada três dias vamos fazer o acompanhamento nutricional fazendo a pesagem, já que hoje ela pesa 3,3 quilos e está três abaixo do peso ideal e também tem as pernas e o quadril atrofiados por causa da pouca movimentação”.'

Além do bem estar do animal, o caso deve ser analisado dentro do contexto do combate ao tráfico de animais silvestres. O mercado negro de fauna só existe porque tem gente que cria silvestre como pets e porque tem gente que compra os bichos. Será que a devolução do animal para a família não soará como um incentivo a tal hábito.

O poder público não investe em educação ambiental para conscientizar a população sobre os problemas causados pelo tráfico de fauna. Doenças são transmitidas para a população (mais de 180 zoonoses, como a raiva, já foram identificadas), animais sofrem, florestas perdem seus disseminadores de sementes, teias alimentares são alteradas e, se formos seguir com o raciocínio, é fato que a retirada dos bichos pode levar a extinções de espécies, com prejuízos ao equilíbrio dos ecossistemas e impactos climáticos e na produção de água. Tudo está integrado.

O poder público tem errado ao não encarar de frente o comércio ilegal de silvestres. Só fiscalização (que é deficiente e pouco chega às quadrilhas organizadas) não adianta. O Estado não possui uma política competente para gerir a fauna brasileira. Estimativa da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), de 2001, indica que cerca de 38 milhões de animais (sem contar peixes e invertebrados) são retirados da natureza todos os anos para abastecer o mercado negro.

O caso da macaca Carla, que por 37 anos foi Chico, está servindo para escancarar o problema.

Será que devemos tratar o caso com sentimentalismo?

- Leia a matéria completa “Família consegue advogado para tentar recuperar macaco-prego”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1
- Leia a matéria completa  "Macaca 'Carla' terá acompanhamento nutricional para recuperar peso ideal"), publicada em 6 de agosto de 2013 pelo portal G1
Releia os posts do Fauna News sobre o caso:
- Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais, publicado em 5 de agosto de 2013
- Macaco Chico: na verdade uma fêmea criada no amor torto, publicado em 6 de agosto de 2013

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Atropelamentos iminentes enquanto discutem solução

“Um telespectador do Jornal da EPTV flagrou em vídeo vários macacos-prego em busca de pedaços de cana-de-açúcar, que caíram de caminhões na Rodovia SP-215. O registrou foi na tarde de sábado (25), quando o bando saiu do Parque Estadual de Porto Ferreira.

Macaco no acostamento da estrada para pegar pedaços de cana
Foto: Osni Martins

Nas imagens, é possível ver o bando de macacos se revezando para ir até a pista e buscar os pedaços de cana. Alguns animais chegam a se equilibrar no muro de proteção junto à pista. Depois de pegar a cana, eles voltam à mata.” – texto da matéria “Vídeo flagra vários macacos-prego buscando cana na rodovia SP-215”, publicada pelo portal G1 em 27 de maio de 2013

Além dos riscos de atropelamentos que correm os animais, há o perigo para as vidas humanas – no caso os motoristas. Com certeza o problema não é novo, afinal os macacos ocupam a região há tempos e o trânsito de caminhões com cana, na época da colheita, também não começou agora.

Quantos macacos já não devem ter morrido nessa circunstância?

A solução deveria vir com rapidez. As discussões entre a concessionária da estrada e a gestora da unidade de conservação, o parque, estão em andamento.

“A administradora do Parque Estadual de Porto Ferreira, Sonia Aparecida de Souza, disse que nesta época do ano é comum os macacos serem atraídos pela cana. A concessionária que administra a rodovia sugeriu a colocação de alambrados, mas um estudo feito pelo parque descartou essa possibilidade, já que isso confinaria os animais.

O parque e a concessionária estão negociando a colocação de redutores de velocidade na pista para evitar atropelamentos e acidentes.”
– texto do G1

Estimativa do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas, da Universidade Federal de Lavras, indica que cerca de 475 milhões de animais silvestres são mortos por atropelamentos nas estradas e rodovias brasileiras anualmente.

Que tal pensar em, além de estruturas físicas para reduzir o risco de atropelamentos, como redutores de velocidade, pensarem em campanhas de conscientização com os motoristas para aumentarem a atenção no trecho onde os animais buscam o alimento?

Que tal entrarem em contato com os agricultores para orientarem os caminhoneiros a utilizarem algum tipo de lona para evitar a queda de cana na estrada?

São apenas sugestões. Ações devem ser tomadas rapidamente.

- Leia a matéria completa (com o vídeo) do portal G1
- Leia "Massacre nas estradas", publicada na edição de maio de 2013 da revista Terra da Gente

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Tráfico de animais no Brasil: primatas também são vítimas

Quando se fala em tráfico de fauna no Brasil, imediatamente se pensa em aves. Afinal, elas representam mais de 80% dos animais vítimas dessa atividade criminosa. Outro grupo bastante explorado é o dos pequenos primatas, que incluem macacos-prego, micos e saguis.

“Neste sábado, dia 06 de outubro de 2012, por volta das 14h, policiais militares ambientais localizaram um macaco-prego que estava em cativeiro na cidade de Sertanópolis, no norte do Paraná.

Macaco-prego apreendido no Paraná
Foto: Divulgação Polícia MilitarAmbiental

Uma denúncia anônima levou os policiais militares ambientais à casa localizada na rua Amazonas, área urbana da cidade, onde o animal silvestre estava sendo criado em um viveiro no quintal.

Viveiro onde estava o macaco
Foto: Divulgação Polícia Militar Ambiental

Foi localizada uma adolescente de 17 anos de idade que relatou que o animal era mantido por seu Amasio, de 22 anos de idade, que não estava na residência. A jovem desconhecia a origem do animal.” – texto da matéria “Polícia ambiental resgata macaco-prego que era mantido em cativeiro”, publicada em 8 de outubro de 2012 pela Agência de Notícias de Direitos Animais (Anda)

“Apesar da redução do comércio legal de primatas, o ilegal continua e estes ainda são retirados em número significativo em relação ao tamanho de suas populações naturais. Mesmo um pequeno comércio vai afetar populações raras, vulneráveis ou ameaçadas, que sofrem também com a perda e a alteração do habitat.” – texto do 1º Relatório Nacional sobre o Tráfico da Vida Silvestre publicado pela ONG Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas)

Esse tipo de cena ainda é bastante comum
Foto: Divulgação SOS Fauna

- Leia a matéria completa da Anda
- Conheça a Renctas

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Começar a semana pensando...

...sobre a entrega voluntária de animais silvestres em cativeiro: medo da lei ou ato ético?

‘Um macaco-prego que há oito anos vivia com uma família de Cascavel, no oeste do Paraná, foi entregue a polícia nesta terça-feira (7). De acordo com o tenente da Polícia Militar Ambiental Diego Astori, o animal morava com a família em um sítio da região e foi levado para a área urbana ainda filhote.

Macaco-prego viveu oito anos com família
Foto: Divulgação Polícia Militar / Diego Astori

A família resolveu abrir mão do macaco para evitar alguma responsabilidade criminal ou multa. O comandante garante que a família não será responsabilizada por manter o macaco-prego na residência deles. “A gente vai dar encaminhamento para conhecimento do Ibama, mas como houve uma entrega voluntariamente, não acontecerá nada”.’
– texto da matéria “Família entrega macaco-prego de estimação a Polícia Ambiental do PR”, publicada em 7 de agosto de 2012 pelo portal G1

Diz o Decreto nº 6.154, de 2008, no parágrafo 5º do artigo 25:

“No caso de guarda de espécime silvestre, deve a autoridade competente deixar de aplicar as sanções previstas neste Decreto, quando o agente espontaneamente entregar os animais ao órgão ambiental competente.”

E foi com base nesse trecho da legislação que o policial agiu. A ação da família foi correta, tanto no ato de entregar voluntariamente o animal como por não tê-lo solto em alguma área verde. Afinal, depois de tanto tempo em cativeiro, o macaco provavelmente não sabe se defender de predadores, não está apto a procurar alimento e pode estar com algum problema de saúde, o que o faria levar doenças para outros bichos.

Além do abandono, o animal pode ser solto em um ecossistema em que não há indivíduos de sua espécie, criando chances de ocorrer algum desequilíbrio ao meio ambiente local.

A ação dessa família merece uma reflexão sobre o motivo da entrega do macaco: o medo de punições legais. Felizmente a lei (ainda que fraca) existe. Mas, infelizmente, a atitude não foi consequência de uma conscientização sobre o local correto de se manter animais silvestres. Esses bichos têm de ficar livres em seus hábitats, cumprindo suas funções ecológicas, e não em ambiente humano como pets.

O ato dessa família foi correto, mas a motivação poderia ser mais nobre.

- Leia a matéria completa do G1

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Macaco-prego albino é vítima de um hábito cruel

Xerimbabo. Na língua tupi a palavra quer dizer “coisa muito querida” e é utilizada pelos indígenas para designar animais silvestres tratados como bichos de estimação. O hábito faz parte da cultura desses povos que mantêm soltos nas aldeias araras, papagaios, periquitos, primatas e vários outros tipos de animais. Nunca se tentava domesticar as espécies, mas sim os espécimes. Lógico que, com o contato com a cultura do “homem branco”, muito tem mudado.

Mas esse costume se misturou com o também antigo hábito da civilização européia que, desde a Idade Média, cria animais silvestres, seja como pet seja como mercadoria ou fonte de alimento. A mistura dessas tradições forjou um forte traço na vida dos brasileiros, que gostam de criar silvestres como aves e macacos em suas residências.

E justamente esse hábito sustenta o tráfico de animais e mostra o quanto se pode maltratar um bicho pelo prazer egoísta de mantê-lo próximo. E não há exagero nenhum nessa afirmação.

Na sexta-feira, dia 17 de junho, o portal G1 e o blog Planeta Bicho, do site Globo Rural, publicaram a apreensão pelo Ibama do Pará de um macaco-prego albino resgatado de uma casa abandonada no município de Breves. O animal é “um macho adulto que foi vítima de maus-tratos ao longo da vida. Além da magreza resultante de anos de alimentação inadequada, o macaco teve a cauda cortada e as presas serradas”, informa o Planeta Bicho.

O macaco teve a cauda cortada e as presas serradas
Foto: Nelson Feitosa - Ibama/Divulgação

Na mesma matéria consta que o macaco teria sido abandonado por quem o mantinha em cativeiro. “É comum espécimes silvestres serem criados ilegalmente enquanto são filhotes e não dão problema. Depois, quando se tornam adultos e inconvenientes, são descartados em qualquer lugar, como se não tivessem valor”, explica o superintendente-substituto do Ibama no Pará, Alex Lacerda, que agora analisa o melhor destino para a rara espécie albina.”

“O albinismo é um distúrbio genético em que o indivíduo fica sem pigmentação na pele. Animais albinos não costumam sobreviver por muito na natureza porque não têm proteção natural contra o sol e porque a cor clara os torna presa mais fácil.”
– texto da matéria do G1.

Por conta dessa raridade, muitos zoológicos já teriam se prontificado a receber o animal. O Ibama está analisando os pedidos para decidir o melhor destino ao macaco.

Saiba que o tráfico de animais...

... é a terceira atividade ilegal mais rentável do mundo (atrás do tráfico de drogas e do comércio ilegal de armas): entre 10 e 20 bilhões de dólares por ano, sendo o Brasil responsável por uma fatia que varia de 5% a 15% do total;
... é a segunda causa da perda de biodiversidade (atrás da perda de hábitat).

- Dependendo da fonte consultada, o número de animais silvestres retirados da natureza no Brasil, por ano, é 12 milhões ou 38 milhões;
- Entre 60% e 70% do comércio ilegal de animais silvestres no Brasil é voltado para abastecer o mercado interno: estima-se que de dois a quatro milhões de animais silvestres vivam em cativeiros particulares;
- Estima-se que 95% do comércio de animais silvestres no Brasil seja ilegal;
- Há pesquisas que apontam haver 60 milhões de brasileiros criando espécimes da fauna nativa em suas residências.

- Leia a matéria do portal G1 sobre o caso.
- Leia a matéria do blog Planeta Bicho.