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quinta-feira, 1 de maio de 2014

BR-359 (MS – GO): exemplo de descaso e irresponsabilidade com a fauna e os usuários

“O Ministério Público Federal (MPF) em Coxim ajuizou ação civil pública para a implantação de medidas de contenção da fauna e de combate a atropelamentos de animais silvestres na BR-359, divisa entre Mato Grosso do Sul e Goiás. A rodovia não possui licença de operação e as condicionantes ambientais para instalação da obra são insuficientes e, reiteradamente, têm sido descumpridas.

Tamanduá atropelado na BR-359
Foto: Divulgação MPF

A falta de monitoramento da fauna, além do prejuízo ao meio ambiente, tem deixado motoristas vulneráveis a acidentes de trânsito. Em ofício, órgãos de policiamento ambiental e rodoviário destacaram os riscos aos condutores; e inspeção, realizada pelo MPF na rodovia, identificou várias espécimes atropeladas - inclusive animais de grande porte, como o tamanduá-bandeira e a anta, que poderiam causar graves acidentes.

Para aumentar a segurança dos usuários e garantir a preservação da fauna, o MPF pede, na ação, a instalação de placas de sinalização; limpeza e manutenção das margens da rodovia; monitoramento de atropelamentos; e outras medidas de contenção, manejo e recomposição da fauna.

Rodovia para por zona de amortecimento de um parque nacional
Foto: Divulgação MPF

“Trata-se apenas de forçar o cumprimento de obrigações claras, muito bem definidas, e que há anos são ignoradas de forma temerária pelo empreendedor e pelo órgão ambiental que licenciou a obra”.

BR do cerrado
A BR-359, com 228 km de extensão, corta a zona de amortecimento do Parque Nacional das Emas – unidade de conservação de proteção integral e maior área de preservação do bioma cerrado no mundo. Por afetar área protegida, o licenciamento da rodovia só poderia ser realizado com autorização do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) após o cumprimento de condicionantes ambientais.

Contudo, há pelo menos 5 anos, a administração da rodovia descumpre exigências legais e recomendações técnicas do ICMBio e opera normalmente, mesmo sem ter licença ambiental de operação. O empreendimento, em fase de renovação de licença de instalação, ainda é fiscalizado por órgão incompetente.

A rodovia, por ligar dois Estados (MS-GO), é considerada “federal” e deveria ser administrada pelo DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte). Porém, nos trechos presentes em Mato Grosso do Sul, as atribuições foram delegadas à AGESUL (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos de Mato Grosso do Sul).

E as irregularidades também atingem o licenciamento ambiental. Por impactar mais de um estado, o empreendimento deveria ter as licenças concedidas pelo IBAMA, mas os processos têm sido conduzidos pelo IMASUL (Instituto do Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul).”
– texto da matéria “MPF exige medidas para barrar atropelamento de animais silvestres na BR-359”, publicada em 29 de abril de 2014 pelo site da Procuradoria da República em Mato Grosso do Sul

Não deu para selecionar só um trecho importante da matéria para comentá-lo. Esse texto vale ser reproduzido na íntegra, justificado pela quantidade de informações relevantes.

O descaso da União e do governo do Mato Grosso do Sul parece claro, de acordo com parecer do Ministério Público Federal. O que acontece com essa rodovia é o típico do caso de desenvolvimento a qualquer custo, seguindo ainda um modelo de “crescimento” econômico atrasado, caduco e que atropela tudo: animais, leis e pareceres de órgãos ambientais.

Veja como a pavimentação da BR-359 foi noticiada em 2012 pelo governo do Mato Grosso do Sul:

“Em parceria com o Ministério dos Transportes, o governo do Estado entrega no próximo dia 17 a obra de pavimentação asfáltica da rodovia BR–359. O trecho que será inaugurado liga os municípios de Coxim, Pedro Gomes e Alcinópolis até a divisa de Mato Grosso do Sul com os estado de Goiás. No total foram pavimentados 223,13 quilômetros de extensão, consolidando o projeto MS Forte – Caminhos para o Desenvolvimento.

Traçado da BR-359
Imagem: Google Maps

As obras da rodovia fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC e irão alavancar o escoamento da produção agroindustrial, uma vez que a obra possibilita a ligação de Silvolândia, próximo ao trevo com a BR-163, em Coxim, com a divisa do Estado de Goiás, representando assim, uma redução no valor do frete do transporte de mercadorias para os demais estados das regiões Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste. A expectativa é que também vá atrair mais investimentos e indústrias, que devem gerar emprego e renda para a população, possibilitando a realização de um sonho de 20 anos dos moradores da região.

A pavimentação da BR-359, única rodovia federal que não era asfaltado no Estado, é uma parceria entre a União, que destina o montante principal de recursos, e o governo de Mato Grosso do Sul, que garante a contrapartida de quase R$ 27 milhões e é responsável pela execução da obra. Nas cinco fases da obra foram investidos pouco mais R$ 265,6 milhões para construção de uma plataforma de pista de 12 metros.”
– texto da matéria “Pavimentação da BR-359 abre novo caminho para integração econômica no norte de MS”, publicada no site do governo do Estado do Mato Grosso do Sul (Notícias.MS), em 13 de dezembro de 2014

Esse modelo de investimento míope prevaleceu durante o período de ditadura militar no Brasil.  É lamentável que ainda seja bastante comum no Brasil.

- Leia a matéria no site da Procuradoria da República em Mato Grosso do Sul
- Leia a matéria do Notícias.MS

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

No Distrito Federal, o Muro da Liberdade

É um marco indicando o início de um território onde não se admite o cativeiro. Mais que isso, é um limite de uma área de reencontro com a liberdade. Um muro, parte pedras e parte gaiolas, indicando o início da Chapada Imperial, uma reserva particular de 4.800 hectares com vegetação diversificada do bioma Cerrado.

O Muro da Liberdade
Foto: Anderson Valle

Dentro os projetos desenvolvidos nessa reserva situada a 50 km do centro de Brasília, destaca-se o Bicho Livre. Nessa área protegida, o Ibama é responsável por solturas de animais silvestres apreendidos do tráfico e de cativeiro ilegal. Segundo o analista ambiental do órgão ambiental, o veterinário Anderson Valle, 2.500 pássaros já foram devolvidos à vida livre.

“O processo de reabilitação envolve ensinar os animais a voar, se alimentarem e socializarem. Óbvio que apenas aves de ocorrência no cerrado foram soltas”, explica Valle. O veterinário afirma que para preservar os animais soltos foi preciso criar uma área tampão, que ajudasse a isolá-los e a evitar a captura para o mercado negro.

“Assim capacitamos vários meninos e meninas com mais de 16 anos da região para serem guias de turismo. Em dois anos de projetos, passamos de seis mil para doze mil visitantes por ano. Temos toda a comunidade, em um raio de 10 quilômetros das cercas, em que as casas não mantêm animais em gaiola. Desenvolvemos palestras em escolas e conscientizarmos as pessoas de que bom é o bicho livre”, relata Valle. O projeto existe há dois anos.

- Saiba mais sobre o projeto Bicho Livre na Chapada Imperial

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Tráfico de papagaios – parte 2: agora na Caatinga

Ontem, 19 de setembro de 2012, o Fauna News publicou “Aberta a temporada de tráfico de papagaios-verdadeiros”. Mas a exploração da espécie Amazona aestiva não está restrita aos estados do Cerrado brasileiro. Ele também ocorre na Caatinga, mas com algumas diferenças. A começar pela época de apanha dos filhotes, que ocorre entre dezembro e março (período reprodutivo da espécie no bioma) – e não em setembro e outubro.

Apreensão de papagaios da Caatinga
Foto: Arquivo de Kima Manso

Outra característica é o tráfico de ovos da espécie. “Já abreviaram tanto a "época de coleta" que atualmente o forte já está sendo o tráfico de ovos”, afirma a presidente da ONG pernambucana ECO – Organização para a Conservação do Meio Ambiente, Kilma Manso.

Por causa da redução das populações da espécie, os papagaios-verdadeiros não são vistos mais com facilidade em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande Norte, Alagoas e Sergipe. As aves ainda são encontradas em regiões da Bahia, Piauí e Maranhão, que, por esse motivo, se tornaram os atuais alvos dos traficantes. O principal mercado consumidor dos papagaios da Caatinga é o eixo Rio-São Paulo, mas também há grande demanda dos grandes centros urbanos nordestinos.

Os papagaios são normalmente transportados em caminhões pelas BRs 101, 116 e 407, onde permanecem pelo menos dois ou três dias até chegarem ao Sudeste. Apesar de as rotas serem conhecidas, Kilma afirma que “a capacidade e a eficiência das ações repressivas é absurdamente insignificante face o montante de animais que deve ser capturado e transportado diariamente em todo o país.” E a ambientalista sabe do que fala: trabalhou por oito anos na Polícia Federal, incluindo a Divisão de Repressão aos Crimes Ambientais na sede em Brasília, e por dois anos na superintendência do Ibama da Bahia.

- Releia o post “Aberta a temporada de tráfico de papagaios-verdadeiros”, publicado pelo Fauna News em 19 de setembro de 2012
- Releia o post  ’“De volta para casa”: seriedade de gente comprometida e 80 papagaios-verdadeiros novamente livres’, publicado em 18 de setembro de 2012 pelo Fauna News
- Leia a matéria “Aberta a temporada do tráfico”, da revista Terra da Gente
- Conheça a ECO – Organização para a Conservação do Meio Ambiente

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Reflexão para o fim de semana: as cinco espécies do Brasil no ranking da vergonha

“Cinco espécies brasileiras de animais estão entre as cem mais ameaçadas de extinção no planeta, de acordo com uma lista publicada nesta terça-feira pela Sociedade Zoológica de Londres.

As espécies brasileiras citadas no livro "Valiosos ou Sem Valor" (numa tradução livre), lançado no Congresso Mundial da Natureza, na Coreia do Sul, incluem um macaco da Floresta Atlântica, um pássaro da Chapada do Araripe, no Ceará, um roedor e duas borboletas.”
– texto da matéria “Cinco espécies do país estão entre 100 mais ameaçadas do planeta, diz estudo”, publicada em 11 de setembro de 2012 pelo jornal o Estado de S. Paulo

As espécies citadas no livro Priceless or Worthless? (título orginal) são as seguintes:

- o muriqui-do-norte, maior macaco das Américas, só encontrado na Mata Atlântica, no Sudeste. A população é calculada em menos de mil macacos;

Muriqui-do-norte
Foto: Reprodução revista Veja

- o soldadinho-do-araripe, uma ave de cerca de 14 centímetros que vive apenas na Chapada do Araripe, no Ceará. A população é calculada em 779 indivíduos;

Soldadinho-do-araripe
Foto: Alberto Campos

- a Cavia intermedia, uma espécie de preá que existe apenas nas Ilhas Moleques do Sul, em Santa Catarina, com população de apenas 40 a 60 indivíduos;

Preá Cavia intermedia
Foto: Luciano Candisani

- a borboleta Actinote zikani, que vive na Serra do Mar, perto de São Paulo;

Borboleta Actinote zikani
Foto: Reprodução Butterflies of America

- e a borboleta Parides burchellanus, com uma população de menos de 100 indivíduos no Cerrado.

Borboleta Parides burchellanus
Foto: Reprodução revista Veja

Em todos os casos, o desmatamento (perda de hábitat), seja pela expansão agrícola, exploração de madeira ou urbanização, está entre as causas da redução populacional que levou ao risco de extinção.

Dá para imaginar a quantidade de outras espécies que, mesmo sem conhecer ou sequer saber sua importância para os ecossistemas, já perdemos?

- Leia a matéria completa de O Estado de S. Paulo

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Começar a semana pensando....

...sobre o tráfico de papagaios-verdadeiros.

A temporada de coleta de papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva) no Mato Grosso do Sul está para começar. Durante setembro e outubro, traficantes de animais recolhem milhares dessas aves no Cerrado. Já na Caatinga, esse período vai de dezembro e março. Recém-nascidas, sem penas e com olhos fechados, elas são levadas para as regiões metropolitanas do Sudeste e do Sul.

571 papagaios apreendidos com traficantes em PE em 2011
Foto: Divulgação Ibama

Além do pressão sobre a população da espécie, que está em decréscimo, os papagaios-verdadeiros podem se adaptar e se reproduzir em locais onde não são nativos quando soltos ou escapam das pessoas que os compraram dos traficantes.

É o que está acontecendo, provavelmente, em Porto Alegre (RS).

‘“Dez anos atrás, não existia esses bichos. Um ou outro tinha por aqui. Aumentou muito rapidamente. O que demonstra o quê? Tráfico maior. As pessoas abandonando mais. O que está acontecendo?”, acredita Paulo Wagner, do Ibama/RS.’ – texto da matéria “Veterinários e biólogos do Ibama estudam migração incomum de aves”, veiculada na edição de 25 de julho de 2012 do Jornal Hoje (Globo)

Papagaio-verdadeiro na rua João Telles, em Porto Alegre
Foto: Cesar Cardia

Agora, técnicos do Ibama e da Secretaria Municipal do Meio Ambiente tentam encontrar alguma forma de retirar esses papagaios da cidade.

“Os técnicos já sabem que o grande número de árvores frutíferas de Porto Alegre facilitou a permanência dos papagaios na cidade. Agora é preciso descobrir quantos eles são. Depois vem a parte mais difícil, que é recapturar a maior quantidade possível de aves para devolvê-las ao local de origem.

Isso vai ser feito para manter o equilíbrio da fauna, já que os papagaios-verdadeiros podem se tornar uma ameaça para as espécies nativas.

“Esse animal se comporta como invasor aqui. Imagina 30, 40 papagaios chegando em uma árvore frutífera. Qual passarinho vai chegar ali e tentar se alimentar? Não vai conseguir”, diz. (Paulo Wagner)”
– texto do Jornal Hoje

Esse problema é resultado da falta de atenção do poder público com o tráfico de animais (tanto repressivo quanto educativo). Só espero que, em algum momento, ninguém tenha a ideia de matar os animais por considerá-los uma praga.

- Leia a matéria completa do Jornal Hoje (com o vídeo)

O papagaio-verdadeiro não é nativo do Rio Grande do Sul
Foto: SOS Fauna

sexta-feira, 29 de julho de 2011