quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Onça atropelada: deu sorte e não morreu

Por pouco uma onça parda não passou a ser parte de uma das mais tristes estatísticas que envolvem a fauna brasileira: 475 milhões de animais silvestres morrem por atropelamento todos os anos nas estradas e rodovias nacionais (estimativa do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas).

“Uma onça parda foi atropelada, nesta terça-feira (3), no quilômetro 336 da rodovia Marechal Rondon (SP-300), próximo ao chamado “trevo da Eny", em Bauru.

A onça sofreu ferimentos graves
Foto: Douglas Reis

Segundo o Policiamento Rodoviário, por volta das 7h, os militares foram informados de que o animal estava ferido no canteiro central da rodovia. Equipes do Zoológico Municipal de Bauru e do Corpo de Bombeiros foram acionadas para ajudar no resgate.\

(...) O animal foi conduzido para Botucatu com o auxilio da PM Rodoviária e encaminhado ao Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens (Cempas) da Unesp.

De acordo com o responsável pelo Cempas, professor Carlos Roberto Teixeira, a onça sofreu fratura no úmero da pata dianteira e apresentou um quadro de hemorragia devido ao impacto da colisão. "Nós estabilizamos a hemorragia e o quadro de saúde dela está estável. Nesta quarta-feira, às 14h, o animal passará por processo cirúrgico e o risco de morte é mínimo", afirmou.”
– texto da matéria “Bauru: onça parda é atropelada na Marechal Rondon”, publicada em 3 de dezembro de 2013 pelo site do Jornal da Cidade (Bauru – SP)

Ainda não há informações sobre sequelas. Se a sorte continuar do lado da onça, ele poderá voltar a desfrutar da vida livre. Mas existe a possibilidade de, se algum problema físico impedi-la de sobreviver na natureza, ela passar o resto da vida em cativeiro – o que para seu ecossistema é o mesmo que a morte.

O caso desse felino lembro o da onça-parda Anhanguera.

A história da onça-parda Anhanguera é uma das mais emblemáticas quando se aborda o conflito entre estradas e animais silvestres. Às 5h de 14 de setembro de 2009, o felino, um jovem macho com idade variando entre 10 meses e um ano, sai da mata e chega às margens da via Anhanguera, na altura do município paulista de Louveira. Decidido a chegar ao outro lado, ele arrisca, avança para o meio da pista e acaba atingido por um veículo.

A rodovia foi parcialmente fechada até a chegada de bombeiros e profissionais da Associação Mata Ciliar, ONG de Jundiaí (SP) que mantém uma parceria com a concessionária CCR AutoBan para atender animais resgatados na estrada e que possui o Centro Brasileiro para Conservação de Felinos Neotropicais. A onça foi então sedada, levada para a sede da ONG e ganhou o nome da rodovia.

Resgate de Anhanguera em 2009
Foto: Divulgação CCR AutoBan

Foram diagnosticadas fraturas em costelas e um dente canino quebrado. Apesar das lesões, foi constatado que Anhanguera tinha potencial para voltar à natureza. O processo de recuperação do felino durou um ano e seis meses, até sua soltura em 10 de março de 2011 em uma mata da Serra do Japi.

A história de Anhanguera foi tratada como um caso de sucesso.  O felino, com um rádio-colar, foi monitorado por meses, até a bateria do equipamento acabar. Por pouco mais de um ano, ele viveu novamente a plenitude de sua condição selvagem.

Repetindo o ocorrido em 2009, Anhanguera novamente voltou a estar na margem de uma estrada. Era 18 de abril de 2012. Dessa vez a faixa de asfalto tinha outro nome: rodovia dos Bandeirantes. Na altura do km 55, o felino aventurou-se para chegar à mata do outro lado e foi atropelado. A sorte não se repetiu: o impacto causou fraturas na coluna e nas costelas, além de ruptura do fígado e do diafragma. A morte foi instantânea.

“A onça Anhanguera foi um marco da nossa luta pela conservação. Houve uma comoção muito grande quando soubemos da sua morte porque todos acompanhavam sua história e torciam por um final feliz. No entanto, ele mostrou que o fato de estar livre não garante a sobrevivência, isto é, o ambiente natural está sendo cada vez mais modificado e com tal rapidez que os animais não conseguem se adaptar”, salienta a veterinária e Coordenadora de Fauna da Associação Mata Ciliar, Cristina Harumi Adania.

A Associação Mata Ciliar atualmente conta com um centro cirúrgico especializado em atendimentos a animais silvestres, uma ambulância para resgates e mantém uma equipe com cinco veterinários que atende 24 horas. A ONG recebe, em média, 150 animais por mês (número que inclui os atropelados).

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Educação começa em casa. Inclusive a ambiental

“Dois irmãos menores de idade foram flagrados pela polícia caçando animais silvestres na Avenida Comendador José da Silva Marta, em Bauru (SP), nesta terça-feira (3).

De acordo com informações da Polícia Ambiental, os irmãos de 11 e 17 anos, moradores da Vila Serrão, foram encontrados com m pássaro apreendido dentro de um alçapão. A dupla tentou fugir, mas foi contida.

Aves apreendidas na casa dos adolescentes
Foto: Divulgação PM Ambiental SP

Na casa dos suspeitos, a polícia encontrou 12 aves silvestres em situação de maus-tratos e sem autorização para manutenção em cativeiro. A Polícia Ambiental aplicou ainda três autos de infração ambiental em nome da mãe dos irmãos que totalizaram R$ 13,5 mil em multas por caça e maus-tratos.”
– texto da matéria “Menores são flagrados com aves e mãe é multada em R$ 13 mil”, publicada em 4 de dezembro de 2013 pelo portal G1

Respeito pelo próximo, consciência de sua cidadania e apreço pela natureza. Tudo isso tem de partir da educação dada pela família. Esperar que a escola ou qualquer outra entidade o faça é um erro.

E quando isso não é realidade, fatos como o registrado em Bauru acontecem. Os dois jovens são vítimas do exemplo que têm em casa. Felizmente, nessa idade á mais fácil corrigir. Mas que o fará?

Será que a mãe ou outro responsável dessa família terá condição de deixar o hábito de manter animais silvestres em cativeiro ilegal e sem os cuidados necessários para que os dois adolescentes não perpetuem tal comportamento?

Em situações como essa, a pressão tem de ser externa. Aqui tem de haver uma inversão do “jogo”, com o ensinamento vindo de fora do lar. A escola ganha então papel fundamental. O poder público, com campanhas, também tem sua responsabilidade.

Mas será que isso vai acontecer?

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Feira de Santana: central de tráfico na Bahia

“A Bahia é o estado brasileiro que mais abriga integrantes de quadrilhas especializadas no tráfico de animais silvestres, com algumas regiões e cidades tão bem articuladas com essa atividade criminosa que possuem locais com estrutura especialmente adaptada ao desenvolvimento da atividade”, relata a presidente da ONG ECO – Organização para Conservação do Meio Ambiente, Kilma Manso.

Ex-servidora do Ibama, em que trabalhou por dois anos no estado, e ex-policial federal com outros dois anos de atuação na Delegacia de Repressão aos Crimes Ambientais e contra o Patrimônio Histórico na Superintendência baiana da PF, Kilma afirma que essa forte presença do tráfico de fauna faz com que também existam todos os tipos de feiras de venda de animais, desde as mais recatadas até aquelas em que há centenas de animais silvestres expostos, bem como, seus produtos e subprodutos.

Feira de Santana (que ainda conta com a vantagem de ser cortada por duas grandes rodovias federais, a BR-101 e a BR-116) e Vitória da Conquista são grandes centros do tráfico de animais silvestres no Brasil. Pelas duas cidades, onde há depósitos que recebem animais de diversas regiões, passam rotas que abastecem a venda principalmente na região Sudeste. Ao mesmo tempo, nelas também há feiras para o comércio local.

“Mil pássaros da espécie canário da terra e 20 da espécie coleira foram apreendidos na BR-101, neste sábado (30), em uma fiscalização de rotina da Polícia Rodoviária Federal (PRF), na cidade de Itamaraju, no sul da Bahia. Os animais são da flora brasileira e têm a comercialização e criação proibidas.

Aves apreendidas iam para Feira de Santana (BA)
Foto: Divulgação Polícia Rodoviária Federal

Segundo informações da PRF, os animais estavam no porta-malas de um carro, em pequenos caixotes. Duas pessoas estão custodiadas na PRF e podem responder por crime ambiental e maus-tratos. Elas estão à disposição do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama).

Ainda de acordo com a PRF, o carro seguia do Espírito Santo para Feira de Santana, na Bahia. O Ibama foi acionado para recolher os animais.”
– texto da matéria “PRF apreende mil pássaros durante fiscalização na BR-101, na Bahia”, publicada em 30 de novembro de 2013 pelo portal G1

Já passou da hora de os órgãos de repressão e fiscalização se articularem para, de uma vez por todas, desarticular as quadrilhas e inibir a venda no varejo para as comunidades.

- Leia a matéria no portal G1

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Solturas: pouco investimento para dar uma segunda chance

“Policiais militares do Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA) participaram da soltura de 175 animais silvestres, realizada na manhã dessa quinta-feira (28), na zona rural da região Serrana do Estado.

Aves reconquistando a liberdade
Foto: Divulgação P5 BPMA/ES
A ação foi acompanhada pelo biólogo e coordenador do Centro de Reintrodução de Animais Selvagens (Cereias), José da Penha Rodrigues, após estudos para escolha do local e parecer favorável do Ibama.

 Os animais silvestres soltos foram cinco jabutis, dois veados-catingueiro, uma preguiça e 167 pássaros, sendo 55 canários-da-terra, 82 coleiros e 30 trinca-ferros.”
– texto do Portal do Governo do Estado do Espírito Santo, publicado em 29 de novembro de 2013

Todo e qualquer ação de soltura de animais silvestres apreendidos tem de ser consequência de um sério trabalho de avaliação e recuperação dos bichos. E isso requer técnicos habilitados, dinheiro e tempo.

Para cada espécie envolvida há um protocolo a ser seguido, afinal os hábitos são diversos. E, pra complicar ainda mais, dentro de cada espécie há as peculiaridades da história de cada indivíduo. Assim, a soltura de cada animal é, praticamente, resultado de um trabalho artesanal.

Veados-catingueiros no momento da soltura
Foto: Divulgação P5 BPMA/ES

Infelizmente, o poder público quase não investe em projetos de recuperação e soltura de animais. Além do custo, a burocracia também é uma barreira – afinal de contas, cada bicho deve ser devolvido para sua região de origem, que muitas vezes fica distante do local da apreensão (podendo ser outro Estado ou país).

O Cereias é resultado de uma parceria entre o Ibama e várias empresas que financiam os trabalhos. Infelizmente, o poder público pouco investe nessa área, cabendo então à iniciativa privada e às ONGs essa tarefa.

- Leia a matéria completa do Portal do Governo do Estado do Espírito Santo

Só apreender não resolve

“A cada dia, ao menos um animal é resgatado pela Polícia Ambiental em Bauru. São casos de apreensões de animais silvestres comercializados ou criados irregularmente ou mesmo de espécies que invadiram casas, foram atropeladas ou se feriram em queimadas.

Policial ambiental paulista com animais apreendidos
Foto: Luiz Barai/PM

Somente entre 1º de janeiro e 25 de novembro deste ano, 431 animais foram recolhidos pelos policiais. Mas a esmagadora maioria – 323 exemplares – é de espécies silvestres apreendidas com pessoas que não possuíam licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).” – texto da matéria “Ambiental recolhe um animal por dia”, publicada em 29 de novembro de 2013 pelo site do Jornal da Cidade (JCNet de Bauru)

Todo esse trabalho da Polícia Militar Ambiental paulista deve ser aplaudido e é um indicativo de que, se os policiais saíssem para procurar animais em situação irregular (no lugar de atender denúncias), os números seriam ainda maiores.

‘“A grande maioria das apreensões são de aves e ocorre por meio de denúncia. Nestes casos, o responsável fica sujeito à multa administrativa, além de reparação cível e criminal pelo dano ambiental causado”, detalha o comandante da 2ª Companhia de Polícia Ambiental de Bauru, capitão Nilson César Pereira.’ – texto do JCNet

Mas, infelizmente, esse empenho da PM Ambiental ajuda muito pouco no combate ao tráfico de animais. As causas desse mercado negro amparado pelo hábito de criar animais silvestres como bichos de estimação não são atingidas com as apreensões. Falta um trabalho do poder público em educação ambiental para conscientizar a população dos problemas sanitários, de saúde pública e ambientais envolvidos.

Enquanto não se investir na mudança de comportamento, os policiais vão ficar apreendendo um sem número de animais de um bando de infratores que nãos era punido lealmente (já que a legislação é extremamente fraca).

- Leia a matéria completa do Jornal da Cidade

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Será que alguém recolheu o cadáver?

“Acidente na Rodovia TO-080 na tarde desta quinta-feira, 28, por volta das 13h30, assustou motorista e três servidores da Secretaria Estadual da Juventude. O condutor do veículo Alaô Soares, motorista do Estado há 12 anos falou do susto que levou, pela travessia de um animal silvestre (Veado), quando retornava de um evento com a equipe da Secretaria.

Cadáver pode atrair outros animais para morte
Foto: Redação Surgiu

(...) No acidente apesar do susto nenhuma pessoa ficou ferida, os três servidores foram levados para Palmas em outro veículo o condutor aguardou o Auto Socorro para retirada do carro, já o animal morreu instantaneamente ficando às margens da Rodovia.”
– texto da matéria “Motorista é surpreendido por animal silvestre perde o controle da direção e sai da pista na TO-080”, publicada em 28 de novembro de 2013 pelo site Surgiu (TO)

O acidente com o veado pode aumentar as estatísticas de animais mortos por atropelamentos nas estradas brasileiras em mais de um número. Isso quer dizer que a morte do animal pode não ser somente mais uma nos estimados 475 milhões de bichos mortos por atropelamentos nas rodovias brasileiras todos os anos (estimativa do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas).

Está estranhando?

Pense bem: se o cadáver do veado ficar na beira da estrada (o que não é difícil de acontecer), ele poderá atrair animais carniceiros e oportunistas por uma refeição fácil. Dessa forma, outros atropelamentos poderão acontecer e mais bichos poderão morrer. Assim, a morte de um animal pode acarretar na perda de outras vidas.

É extremamente necessário que, quando detectado um animal morto no asfalto, acostamento ou margem de estrada, o cadáver seja retirado. Pela segurança dos motoristas e passageiros e pela preservação da biodiversidade.

Será que os gestores de estradas pensam nisso? Com certeza, poucos.

- Leia a matéria completa do Surgiu

Começar a semana pensando...

Imagem: TV Anhanguera
...que vale a pena investir na reabilitação de silvestres para soltura.

“Esses animais foram apreendidos em operações do Ibama, pois os responsáveis não possuíam autorização do órgão. No caso dos papagaios, a situação era mais complicada, pois alguns chegaram a ficar até 15 anos em cativeiro. Por isso, todos precisaram passar por um processo de reabilitação durante um ano e meio e agora eles serão readaptados à natureza”.


Luiz Alfredo Lopes Baptista, coordenador do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) de Goiânia (GO), na matéria “Trinta e quatro animais silvestres são devolvidos à natureza em Goiás”, publicada em 29 de novembro de 2013