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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Manter animal silvestre em casa não é uma forma de amar

“A apreensão de animais silvestres criados em cativeiro é uma das principais ocorrências atendidas em Boa Vista pela Companhia Independente de Policiamento Ambiental (Cipa) da Polícia Militar de Roraima (PMRR). Papagaios, jabutis e pássaros são os alvos mais comuns.

De janeiro a agosto deste ano, 40 animais foram capturados pela unidade policial. (...)

Aves apreendidas pela Cipa
Foto: Neidiana Oliveira/G1

"A pessoa pode até pensar que cuidar de um animal silvestre que apareceu em sua casa é um gesto de amor, mas não é. Lugar de bicho é em seu habitat natural. Além de ser proibida a criação sem a devida autorização, o animal corre risco de vida e não terá o desenvolvimento correto", destaca o comandante da Cipa, major Ademildo José Barreto Magalhães.”
– texto da matéria “Cipa apreendeu 40 animais silvestres apenas neste ano, em Roraima”, publicada em 5 de novembro de 2013 pelo portal G1

A afirmação do comandante da Cipa é perfeita, pois muita gente aprisiona um animal silvestre acreditando ser uma forma de amar. Essa atitude gera sofrimento para o animal e problemas para os ecossistemas, que precisam que os bichos cumpram suas funções ecológicas (predar, ser presa, dispersar sementes, etc).
Animal em cativeiro é o mesmo que animal morto.

O hábito de manter animais silvestres em gaiolas e correntes alimenta o tráfico de fauna, que, anualmente, retira da natureza brasileira cerca de 38 milhões de animais (estimativa da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres – Renctas, de 2001).

E, por favor, não ache que os 40 animais resgatados pela Cipa é um número expressivo. Pelo contrário. A quantidade é pequena! Se os policiais realmente se empenharem em apreender silvestres mantidos em cativeiro doméstico ilegal, não haveria lugar para receber tantos bichos.

- Leia a matéria completa do portal G1

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Quando o bicho vira problema e a entrega voluntária

“Dez jabutis adultos da espécie Geochelone carboraria foram entregues nesta quinta-feira (17) por uma moradora no Bosque dos Papagaios, em Boa Vista. Os animais são considerados silvestres e estão em risco de extinção. Sua criação em cativeiro é considerada crime ambiental.

Jabutis entregues em Boa Vista
Foto: Vanessa Lima/G1 RR

Segundo o assessor técnico ambiental da Secretaria Municipal de Gestão Ambiental e Assuntos Indígenas, Luis Felipe Gonçalves, apesar de proibida, a criação do animal em cativeiro é uma prática comum na região Norte do país. A espécie é bastante encontrada no lavrado do país. (...)

Em Boa Vista, além dos jabutis, espécies de papagaios e araras são os principais alvos para criação em cativeiro. (...)”
– texto da matéria “Em Boa Vista, moradora entrega 10 jabutis criados em cativeiro”, publicada em 17 de outubro de 2013 pelo portal G1

O hábito de criar animais silvestres em cativeiro é o principal incentivador do tráfico de fauna. A matéria não fornece informações sobre o motivo que levou a mulher a realizar a entrega voluntária dos animais. Poucos são os que tomam tal atitude por adquirir consciência do problema ambiental ou para o próprio animal.

A maioria entrega o animal pelo fato de que o mesmo se torna um incômodo. Normalmente, esses bichos vão para as casas das pessoas ainda filhotes e, quando crescem, o comportamento do silvestre (ainda que em cativeiro) não é o mesmo de um doméstico (como cães e gatos). A necessidade de espaço, de se movimentar bastante, o risco de mordidas ou de um contato físico mais violento acaba estimulando a pessoa a entregá-lo ou até a soltá-lo – o que é errado e extremamente perigoso para o próprio bicho e para o ecossistema.

Nunca solte o animal silvestre!

Sobre a entrega voluntária de animais silvestres em situação irregular, diz o Decreto nº 6.154, de 2008, no parágrafo 5º do artigo 24:

“No caso de guarda de espécime silvestre, deve a autoridade competente deixar de aplicar as sanções previstas neste Decreto, quando o agente espontaneamente entregar os animais ao órgão ambiental competente.”

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- Leia a matéria completa do portal G1

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Mais amor torto: depois do macaco Chico, agora é a capivara Jorge

Um dos principais incentivadores do tráfico de fauna é a cultura do criar animais silvestres como bichos de estimação. O hábito não é novo e acompanha a humanidade há tempos. Um dos últimos capítulos desse capricho de algumas pessoas envolveu a apreensão do macaco-prego Chico, na verdade uma fêmea, que viveu por décadas com uma família do interior paulista.

Chico, que foi rebatizado como Carla, foi apreendido em 3 de agosto de 2013 após permanecer sem autorização do órgão ambiental por 37 anos com Elizete Farias Carmona, de 71 anos, em São Carlos (SP). O animal foi levado para a ONG Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), em Assis (SP). O caso causou grande polêmica com gente defendendo a ação do Estado e gente considerando uma crueldade a retirada do macaco do local onde, alegam, estaria ambientado.

Mudando um pouco o foco da discussão, deslocando-o dos animais para os humanos, uma máxima do doutor em Conservação da Vida Silvestre, fundador da Escola da Amazônia e membro do Instituto Pró-Carnívoros, Silvio Marchini, tem de ser lembrada: manejo de fauna é manejo de gente.

O comportamento de dona Elizete, que alegou tratar a macaca como um filho, não é uma exceção:

“Uma capivara de aproximadamente quatro meses foi entregue nesta sexta-feira (5) à Polícia Militar do município de Mucajaí, a 51 quilômetros de Boa Vista. O animal, chamado de Jorge pela família, estava vivendo em uma residência e era tratado como membro da família, segundo os policiais.

Jorge, a capivara, ganhou até uma festinha com direito a roupinha
Foto: Arquivo pessoal

O mamífero foi encaminhado à Companhia de Policiamento Ambiental na capital. De acordo com o major Charles Matos, a dona de casa Maria das Graças Silva, de 55 anos, entregou o animal devido a informações de que ele poderia ficar agressivo quando chegasse à vida adulta.

"Ela procurou a polícia de forma voluntária. Na hora da despedida, houve muita comoção. Os filhos da mulher choraram bastante, por terem se apegado à capivara", disse o major.

Aos policiais, Maria das Graças informou que resolveu cuidar do bicho quando, ainda filhote, foi encontrado machucado no quintal da casa. Ela disse que tinha o maior amor pelo animal, mas que muitas pessoas diziam que ela poderia ser multada caso a polícia descobrisse.

"A casa está vazia. Meus cinco filhos e dez netos estão tristes demais. Uma das minhas filhas ainda não comeu nada o dia todo. O Jorge dormia na minha cama e tomava mamadeira três vezes por dia", disse.”
– texto da matéria “Em Roraima, mulher entrega à polícia capivara que era tratada como 'filho'”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1

O caso envolvendo a capivara Jorge não chegou ao extremo do macaco-prego, mas também mostra o quanto esse tipo de amor torto pode gerar consequências. A família de Roraima tomou a decisão certa, ainda que não estivesse pensando no bem estar do animal e sim considerando uma futura agressividade do animal e a possibilidade de uma multa.

Deve-se reparar que o pensamento continua antropocêntrico, em que o ser humano está no centro das decisões e o restante do universo existe para servi-lo. Mas para as famílias que criavam o macaco-prego e a capivara, existia a convicção de que se estava fazendo o melhor pelos animais – afinal, o que pode ser melhor que o nosso amor incondicional?

Chico: como um filho para dona Elizete
Foto: Fabio Rodrigues/G1

Em última análise, o que Marchini afirma é que os problemas enfrentados pela fauna silvestre têm sua origem em ações humanas e não no comportamento do animal. Bichos sofrem e o meio ambiente é pressionado, no caso do tráfico de fauna e de cativeiros ilegais, para suprir carências afetivas e uma necessidade de manter-se ligado à natureza que se manifesta por meio de gaiolas e jaulas.

Está na hora de tratar o comportamento do homem com mais seriedade. O tráfico de fauna não vai ser resolvido apenas com ação policial e com biólogos e veterinários trabalhando com animais apreendidos e tentando, na medida do possível, realizar solturas. O combate ao mercado negro precisa de advogados, juízes, legisladores, educadores, jornalistas, publicitários, antropólogos e uma infinidade de profissionais.

O poder público ainda não se deu conta disso. O que ainda não ficou claro é se por falta de conhecimento ou por não priorizar o problema.

- Leia a matéria completa “Em Roraima, mulher entrega à polícia capivara que era tratada como 'filho'”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1
- Leia o artigo de Silvio Marchini “Manejo de fauna, manejo de gente”, publicado em 14 de março de 2012 no site O Eco
Releia os posts do Fauna News sobre o macaco-prego de São Carlos:
- Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais, publicado em 5 de agosto de 2013
- Macaco Chico: na verdade uma fêmea criada no amor torto, publicado em 6 de agosto de 2013
- Macaco Chico: caso do animal mantido 37 anos em cativeiro pode parar na Justiça com argumentos afetivos, publicado em 7 de agosto de 2013