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sexta-feira, 2 de maio de 2014

Mais um lobo-guará morre atropelado na SP-318, em São Carlos (SP)

“Um Lobo-Guará morreu atropelado na noite desta segunda-feira (28), na rodovia Thales de Lorena Peixoto (SP-318).

Lobo-guará morto em São Carlos
Foto: Alexandre Milanetti

O jornalista Alexandre Milanetti que passou pelo trecho da estrada pouco depois do atropelamento se deparou com o animal caído no meio da pista e ainda intacto. “É o maior exemplar que já vi da espécie. Não reparei se era macho ou fêmea, mas a julgar pelo tamanho, arrisco dizer que era macho. Tinha pelo menos 80 cm de altura e cerca de 1,10 m de comprimento”, disse o jornalista.

Esse é o segundo caso registrado em 15 dias. No dia 14 outro exemplar foi atropelado na mesma rodovia, perto da entrada norte da UFSCar.”
– texto da matéria “Mais um Lobo-Guará morre atropelado na rodovia SP-318”, publicada em 29 de abril de 2014 pelo site São Carlos Agora

O lobo-gu8 de abril de 2014ará morto em 14 de abril
Foto: Pérsio Ronaldo dos Santos

Será que não está na hora de as autoridades que administram a SP-318, tanto do governo paulista quanto da concessionária Autovias, chamarem especialistas para investigar as mortes. Tentar identificar se há alguma atrativo para os lobos-guarás ou se o período é propício para o deslocamentos dos animais na região ajuda a pensar em medidas que evitem novos atropelamentos.

Deve-se destacar que a vereadora de São Carlos Laíde Simões protocolou em 25 de abril, na Câmara Municipal, uma moção de apelo à Autovias e à ARTESP (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) para que seja providenciada a colocação de sinalização informativa da presença de animais silvestres no trecho da rodovia que será duplicado.

O que não pode é ficar esperando que mais casos acontecem para, então, perceber que é necessário tomar alguma medida. Só para lembrar: lobos-guarás estão ameaçados de extinção.

- Leia a matéria completa do São Carlos Agora
- Releia o post "Começar a semana pensando...", de 28 de abril de 2014, sobre a moção da vereadora Laíde Simões

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Começar a semana pensando...

...sobre medidas de proteção à fauna nas estradas de São Carlos (SP).
Foto: site Câmara Municipal S. Carlos
“A sinalização adequada e a redução da velocidade farão muita diferença entre a vida e a morte destes animais e pouca diferença para os motoristas, nossa cidade será muito respeitada por esta atitude inédita e pioneira”.

Vereadora de São Carlos, Laíde Simões, na matéria “Laíde quer sinalização para evitar morte de animais silvestres na SP-318”, publicada em 25 de abril de 2014 pelo site da Câmara Municipal de São Carlos
- Leia a matéria completa

Lobo-guará atropelado na SP-318, próximo à 
Universidade Federal de São Carlos em 14 de abril de 2014
Foto: Pérsio Ronaldo dos Santos

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Chico morreu: a história do primata que merece reflexão

Chico, macaco-prego que por 38 anos foi criado por uma família em São Carlos (SP) e ganhou fama por causa da polêmica envolvendo sua apreensão pela Polícia Militar Ambiental, morreu dia 7, sexta-feira. A causa da morte ainda não está definida.

“'Perdi um filho'. Essa é a frase que resume o sentimento de tristeza da aposentada Elizete Farias Carmona, de 71 anos, depois da morte do macaco-prego Chico na tarde desta sexta-feira (7), a caminho do veterinário, em São Carlos (SP). A relação de 38 anos, considerada de mãe e filho, ficou conhecida em todo país e gerou repercussão internacional quando ele foi retirado da dona pela Polícia Militar Ambiental, após uma denúncia. Eles ficaram separados durante 16 dias e uma liminar da Justiça obrigou o retorno do animal para Elizete, que adequou a casa para continuar com ele.

Chico, no colo de Elizete: carinho, coleira e corrente
Foto: Fabio Rodrigues

Ainda inconsolável, a aposentada recebeu a reportagem do G1 na calçada em frente à sua casa. De acordo Elizete, Chico ficou doente há dois dias e foi levado ao veterinário na quinta-feira (6). "Estava bem e ficou meio desanimado e amuado", disse. Na manhã desta sexta, ela levou ao retorno e ele foi medicado. "Ele pediu para voltar 17h30. No caminho, ele olhou para mim e deu um suspiro. Ele morreu no meu peito", disse emocionada.” – texto da matéria “Macaco-prego Chico morre aos 38 anos: 'perdi um filho', lamenta a dona, publicada em 7 de fevereiro de 2014 pelo portal G1

Vida no cativeiro

A polêmica causada pela apreensão de Chico chamou a atenção para o costume de criar silvestres como bichos de estimação. O animal vivia sob os cuidados da aposentada Elizete Farias Carmona, de 71 anos. “Um caminhoneiro que era meu vizinho trouxe o Chico do Mato Grosso. Ele sempre trazia macacos”, conta a aposentada, que frequentava a casa desse motorista por ser amiga da esposa dele.

De acordo com Elizete, Chico não tinha nome e ficava horas dentro de uma pequena caixa. “Ele era judiado. Minha vizinha tinha medo por causa das crianças”, lembra. “Quando eu ia lá jogar baralho, ele ficava no meu colo todo feliz. Um dia, ela me perguntou seu eu queria ficar com ele. Eu não sabia que precisava de autorização e trouxe o Chico”, disse a aposentada.

Mas manter animais silvestres em cativeiro sem autorização do órgão ambiental é crime. Está no artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais, com pena prevista de multa e, em caso de condenação, entre seis meses e um ano de prisão. Chico estava em situação irregular e, após uma denúncia, uma equipe da Polícia Militar Ambiental esteve na casa de Elizete em 15 de fevereiro de 2008. A macaca só não foi apreendida pelo fato de não ser de espécie ameaçada de extinção, não apresentar sinais de maus tratos e, segundo a PM, porque não fora localizada uma instituição autorizada para abrigar o animal perto de São Carlos.

Chico, antes da apreendão
Foto: Fabio Rodrigues

Elizete tornou-se fiel depositária de Chico, o que é permitido de acordo com critérios da Resolução 384 de 2006, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que estava vigeu até dezembro, quando entrou em vigor a Resolução 457. Equipes da PM Ambiental estiveram na casa da aposentada para verificar o estado da macaca em 24 de novembro de 2011 e em 7 de março de 2013. Com a qualificação e, 2013 da Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), de Assis, como centro de reabilitação de animais silvestres pelos governos federal e estadual, ficou resolvido o problema da falta de local apropriado e policiais efetuaram a apreensão na manhã de 3 de agosto.

A retirada de Chico de Elizete causou enorme polêmica. O amor de um ser humano por animais silvestres e a dor da separação passaram a ser discutidos. Dois abaixo-assinados virtuais e uma página no Facebook foram criados em favor da devolução da macaca para a aposentada e inúmeras matérias jornalísticas sobre o caso foram produzidas, inclusive pela BBC, pela agência Associated Press e pelo Fantástico, da TV Globo.

O sofrimento de Chico causado pela separação da humana que o criou e por sua retirada do ambiente onde viveu por décadas foi um dos principais argumentos daqueles favoráveis à sua devolução a Elizete, que passou mal no dia da apreensão.

O então advogado de Elizete, Flávio Lazzarotto, solicitou à Justiça, por meio de pedido de liminar, a guarda provisória de Chico para a aposentada. Em 13 de agosto, a juíza Gabriela Müller Carioba Attanasio, da Vara da Fazenda Pública da Comarca de São Carlos, decidiu em favor da solicitação.

“A principal alegação utilizada foi o fato de o animal estar totalmente domesticado e não sobreviveria ou sofreria muito fora do ambiente em que foi criado”, explicou. Ele ainda usou como argumentos “a idade de Chico, que tem por volta de 37 anos e possui uma expectativa de vida de 40, as boas condições de manutenção do animal, e ainda a circunstância temporal dos fatos, ou seja, na época em que Elizete recebeu o macaco não faziam parte da cultura nacional as preocupações, que hoje existem, em relação à proteção ao meio ambiente e aos animais.”

Na APASS foi constatado que o macaco estava com três quilos abaixo do peso ideal, tinha as pernas e o quadril atrofiados por causa da pouca movimentação permitida pela corrente de um metro a que ficava presa e estava com marcas no pescoço por causa de uma coleira. Em Assis, ela ocupou um grande viveiro, ao lado de outros de sua espécie, e se alimentando adequadamente. Por falta de informação, Elizete dava para o animal, além dos corretos legumes e frutas, arroz, leite com açúcar e até iogurte.

Às 23h30 de 19 de agosto, cumprindo a decisão judicial, o macaco voltou para os braços de Elizete. “Parece um sonho que eu estou com ele aqui”, desabafou a aposentada logo que pegou o animal no colo. Chico passou a ter acompanhamento veterinário e de uma bióloga, que elaboraram uma dieta adequada e deram instruções para a construção de um viveiro.

Chico voltando para Elizete
Foto: Fabio Rodrigues

Polêmica: apreender ou não
A possibilidade de ocorrer danos à saúde das pessoas e dos animais envolvidos em casos como o de Chico é real. De acordo com a veterinária Maria de Fátima Martins, “no caso de um longo convívio com um animal silvestre, como entre a senhora de São Carlos e o macaco-prego, dado a capacidade do animal ter senciência, o mais indicado seria ele permanecer junto ao ambiente que lhe é familiar, pois a alteração da situação pode acarretar solidão, estereotipias diversas, culminando com a morte. Porém, cada caso é um caso”. Professora no campus de Pirassununga da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), ela desenvolve pesquisas sobre a interação homem-animal e bem estar animal.

Veterinária e doutora em psicologia (de humanos), Hannelore Fuchs é uma especialista em cognição animal e na relação dos bichos com os seres humanos. Ela concorda com Maria de Fátima sobre a consequência da separação para o bicho que viveu muito tempo em cativeiro doméstico. “O ser humano torna-se seu companheiro, uma figura de referência, afinal o animal pouco socializou com os de sua espécie. A primeira passagem para o novo ambiente, quando há a apreensão, quebra uma rotina e muda as expectativas, gerando estresse intenso e alterando sua homeostase (equilíbrio)”, explica Hannelore.

Por outro lado, muitos ambientalistas são contra a permissão (guarda provisória) de o bicho ficar com quem foi flagrado criando o animal silvestre sem autorização. “Na maioria das vezes as pessoas não conseguem ter uma dimensão real do problema. Acham que só existe aquele caso, o que na realidade não é. São muitos os animais mantidos nessa situação. Se você for conivente com uma pessoa, terá que ser com todas, o que seria absurdo”, afirma o coordenador-geral da ONG Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), Dener Giovanini.

Para Giovanini, o correto é punir o infrator, retirar o animal e, assim, desestimular que casos parecidos continuem acontecendo. “Não se combate um crime, seja ele qual for, com base em sentimentos. O correto é sempre a lei.” O ambientalista considera que manter o animal traficado junto de quem cometeu a infração transforma a fiscalização numa espécie de gincana, com aquele que consegue vencer as barreiras fiscalizatórias ganhando como prêmio o direito de ficar com o produto do crime.

Opinião Fauna News

A história desse primata e dessa família tem de servir de exemplo sobre os danos do hábito de manter silvestres em cativeiro e do tráfico de fauna. Para seu ecossistema, o animal morreu há 38 anos quando o transformaram em Chico. Ele não cumpriu suas funções ecológicas, na predou ou foi predado, não reproduziu, etc. A morte dele deixa dor na família, essa sim dependente do macaco. Chico ainda teve a oportunidade, ao ser apreendido, de deixar de ser Chico e voltar a ser macaco, vivendo entre os seus e se alimentando como um animal.

Mas a Justiça resolveu pensar no bem estar de uma família e concedeu a ela a guarda do macaco, reforçando para a sociedade a possibilidade de ter legalmente um silvestre como pet. A vida desse animal merece reflexão.

Se o poder público tivesse uma rede de Centros de Triagem de Animais Silvestres e de áreas de soltura bem estruturada, com programas de recuperação dos bichos apreendidos e a burocracia funcionando para dar agilidade às solturas, a Justiça cada vez menos aceitaria argumentos favoráveis à manutenção dos animais com humanos. Os juízes, conhecendo uma infraestrutura adequada de recuperação, soltura e destinação aos que permanecerão em cativeiro, teriam a chance de aplicar melhor a legislação.

A ineficiência da União, dos Estados e dos Municípios, aliada à falta de informação dos juízes sobre a possibilidade de recuperação dos silvestres, dá espaço para a Justiça tomar decisões com as que envolveu Chico.

As apreensões têm de continuar a ser feitas. E os órgãos de fiscalização têm de continuar a lutar na Justiça quando os pretensos "donos" tentarem a guarda do animal.

- Leia a matéria completa do portal G1

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Cativeiro em imagem: a foto diz tudo

O clichê vale neste caso: uma imagem vale mais que mil palavras.

Foto: Divulgação PM Ambiental São Paulo

O papagaio vivia com um senhor de 79 anos que, além dessa ave, criava ilegalmente outras 13. Todas nativas.

“No dia 06 de janeiro, no município de São Carlos, uma Patrulha Ambiental atendendo denúncia de pássaros em cativeiro conseguiu, além do êxito no flagrante de crime ambiental, constatar que na residência existia uma “fábrica” de mídias piratas, principalmente DVD’s.” – texto do post “Polícia Militar Ambiental localiza fábrica de mídias piratas e animais em cativeiro”, publicada em 7 de janeiro de 2014 na página da Polícia Militar Ambiental de São Paulo no Facebook

Esse homem de 79 anos não era o responsável pela pirataria – negócio esse tocado por seu filho. Mas ele também está envolvido com uma atividade criminosa: o tráfico de animais silvestres. E o papagaio foi uma das vítimas desse mercado negro, que provavelmente o capturou ainda filhote e o vendeu.

Esse homem de 79 anos cometeu um crime ainda pior que o de seu filho. Sustentou bandidos, que traficarão outros tantos animais, e ainda manteve as aves em espaços restritos.

A imagem do papagaio dá a dimensão do crime cometido.

- Leia o post completo no Facebook

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Jacaré salvo no asfalto de estrada. O risco poderia ser evitado

“Um jacaré com cerca de três metros foi encontrado em Descalvado (SP) no domingo (6) no km 114 da Rodovia Doutor Paulo Lauro (SP-215), que liga a cidade a São Carlos (SP).

Jacaré atravessando a rodovia
Imagem: Reprodução EPTV (Foto: Intervias)

O animal foi visto por motoristas quando atravessava a pista da rodovia no fim da tarde.

Uma equipe do Corpo de Bombeiros de Porto Ferreira foi ao local e resgatou o animal. Ele foi levado de volta ao seu habitat natural, em um riacho, próximo à rodovia.”
– texto da matéria “Jacaré de três metros é visto ao atravessar rodovia em Descalvado”, publicado em 7 de outubro de 2013 pelo portal G1

Será que não seria o caso de a empresa responsável pela gestão da estrada (Intervias) encontrar alguma forma de evitar que jacarés cheguem até a pista. Esses animais acabam atraídos pelo calor do asfalto, tornando-se vítimas de atropelamentos.

Na região do Pantanal, onde os encontros com jacarés são mais frequentes, há registros de atropelamentos intencionais, em que motoristas passam por cima dos répteis de propósito.

Será que uma cerca separando o riacho da rodovia ajudaria?

- Leia a matéria completa no portal G1

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Macaco Chico: dilema entre o bem estar animal e o combate ao tráfico de fauna

Dezesseis dias depois de ter sido apreendido pela Polícia Militar Ambiental, o macaco-prego fêmea Chico retornou para a família que o criou ilegalmente durante 37 anos em São Carlos (SP). Ela foi devolvida em cumprimento de uma decisão liminar da Justiça em favor do pedido de Elizete Farias Carmona, de 71 anos.

‘“Não tenho palavras, parece mentira. Eu sonhava com esse momento”. Foi assim que a aposentada Elizete Farias Carmona relatou na noite desta segunda-feira (19) a emoção que sentiu em São Carlos (SP) ao pegar no colo novamente a macaca-prego ‘Chico’, de quem ficou separada por 16 dias.

Chico no reencontro com dona Elizete
Foto: Fabio Rodrigues/G1

(...)“Foi uma judiação tirar o bicho daqui. Para mim, ele vai ser sempre o meu filho Chico. Estou muito feliz porque agora a família está completa”, declarou dona Elizete, que precisou tomar remédios e se acalmar devido à ansiedade de receber o animal na noite desta segunda-feira.’
– texto da matéria “Emoção marca reencontro da dona com a macaca 'Chico' em São Carlos”, publicada em 20 de agosto de 2013 pelo portal G1

Chico foi capturado na mata e provavelmente acabou traficado. Passou medo e sabe-se lá o que enfrentou até chegar à casa de dona Elizete. Ele perdeu a liberdade e a natureza perdeu com a sua ausência, já que o animal deixou de cumprir suas funções ecológicas no ecossistema onde nasceu.

O poder público, por meio da Polícia Militar Ambiental, foi condenado por muita gente pelo fato de ter apreendido a macaca. O ato foi considerado cruel, não levando em consideração o bem estar do animal. Afinal, disseram, seria melhor exigir de dona Elizete algumas melhorias para Chico e, assim, deixá-lo com a família humana. Evitar-se-ia estressar o primata e a senhora de 71 anos.

Mas a devolução de Chico é um péssimo exemplo para quem cria ou quer criar animais silvestres como bichos de estimação sem autorização do órgão ambiental.  Esses arriscarão comprando um bicho no mercado negro e, em caso de apreensão, ainda terão na Justiça a possibilidade da devolução do animal. E pior: terão a guarda com autorização!

O poder público é o grande vilão por esse tipo de situação.

Não fiscalizou direito e o macaco acabou traficado.

Não investiu em educação ambiental e pessoas o adquiriram e o criaram como Chico, o bichinho de estimação.

Não investe em Cetas bem estruturados, equipados e em quantidade suficiente para atender a demanda e assim evitar que animais apreendidos tenham de ficar com os infratores.

O combate ao tráfico de animais silvestres vive de ações e projetos isolados. Não tem norte, ou melhor, sequer existe como política pública.

- Leia a matéria completa do portal G1
Releia os posts do Fauna News sobre o macaco-prego de São Carlos:
- Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais, publicado em 5 de agosto de 2013
- Macaco Chico: na verdade uma fêmea criada no amor torto, publicado em 6 de agosto de 2013
- Macaco Chico: caso do animal mantido 37 anos em cativeiro pode parar na Justiça com argumentos afetivos, publicado em 7 de agosto de 2013
- Macaco Chico: animal virou iô-iô. Justiça determina retorno do primata à família, publicado em 15 de agosto de 2013

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Macaco Chico: animal virou iô-iô. Justiça determina retorno do primata à família

A decisão é liminar, isto é, ainda não é definitiva.

“Uma liminar da Justiça concedida no fim da tarde terça-feira (13) determina que a macaca-prego ‘Carla’ seja devolvida para a dona em São Carlos (SP) no prazo de cinco dias. O valor da multa em caso de descumprimento é de R$ 1 mil por dia. No dia 3 de agosto, o animal foi retirado da família que o criou durante 37 anos e o chamava de 'Chico' e levado para a Associação Protetora dos Animais Silvestres (APASS) de Assis (SP), distante a 330 quilômetros. A Secretaria Estadual do Meio Ambiente informou que ainda não foi notificada.

 Carla deverá deixar a APASS, em Assis (SP),...
Foto: Alan Schneider/G1

...para voltar a ser o Chico de dona Elizete, em São Carlos (SP).
Foto: Fabio Rodrigues/G1

Na decisão, divulgada nesta quarta-feira (14), a juíza Gabriela Muller Carioba Attanasio determina que, após a devolução da macaca, a dona terá um prazo de dez dias para realizar ajustes na estrutura e na alimentação do bicho, o que deverá ser comprovado por um laudo profissional.

A magistrada afirmou em sua decisão que documentos do processo evidenciam que há sinais de domesticação do animal durante os 37 anos que viveu em São Carlos, o que estabeleceu um vínculo familiar forte e uma interação entre o bicho e a dona. “Alguns estudos apontam que os animais mantidos em cativeiro por longos anos não conseguem se alimentar, nem se defender sozinhos”, diz um trecho do texto.”
– texto da matéria “Liminar da Justiça obriga retorno de macaca para dona em São Carlos, SP”, publicada em 14 de agosto de 2013 pelo portal G1

Chico, que foi rebatizado como Carla por ser uma fêmea, foi apreendido em 3 de agosto de 2013 após permanecer sem autorização do órgão ambiental por 37 anos com Elizete Farias Carmona, de 71 anos, em São Carlos (SP). O animal foi levado para a ONG Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), em Assis (SP). O caso causou grande polêmica com gente defendendo a ação do Estado e gente considerando uma crueldade a retirada do macaco do local onde, alegam, estaria ambientado.

Enquanto dona Elizete e o poder público disputam quem tem razão, a macaca novamente passará pelo estresse de uma viagem e de novas mudanças. Se a decisão definitiva da Justiça se alterar no futuro, mais uma troca. E assim vai...

E tudo isso por causa da falta de fiscalização na origem do problema, isto é, nas áreas de captura e apanha dos animais.

E tudo isso por causa da falta de investimento em educação ambiental, que faria com que as pessoas não optassem por manter animais silvestres em cativeiro como bichos de estimação.

E tudo isso por causa de uma legislação fraca, que não pune o traficante de animais como deveria.

Enfim, tudo isso está acontecendo porque o poder público não tem uma política definida para lidar com a fauna silvestre brasileira.

Estado omisso.

- Leia a matéria completa do portal G1
Releia os posts do Fauna News sobre o macaco-prego de São Carlos:
- Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais, publicado em 5 de agosto de 2013
- Macaco Chico: na verdade uma fêmea criada no amor torto, publicado em 6 de agosto de 2013
- Macaco Chico: caso do animal mantido 37 anos em cativeiro pode parar na Justiça com argumentos afetivos, publicado em 7 de agosto de 2013

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Mais amor torto: depois do macaco Chico, agora é a capivara Jorge

Um dos principais incentivadores do tráfico de fauna é a cultura do criar animais silvestres como bichos de estimação. O hábito não é novo e acompanha a humanidade há tempos. Um dos últimos capítulos desse capricho de algumas pessoas envolveu a apreensão do macaco-prego Chico, na verdade uma fêmea, que viveu por décadas com uma família do interior paulista.

Chico, que foi rebatizado como Carla, foi apreendido em 3 de agosto de 2013 após permanecer sem autorização do órgão ambiental por 37 anos com Elizete Farias Carmona, de 71 anos, em São Carlos (SP). O animal foi levado para a ONG Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), em Assis (SP). O caso causou grande polêmica com gente defendendo a ação do Estado e gente considerando uma crueldade a retirada do macaco do local onde, alegam, estaria ambientado.

Mudando um pouco o foco da discussão, deslocando-o dos animais para os humanos, uma máxima do doutor em Conservação da Vida Silvestre, fundador da Escola da Amazônia e membro do Instituto Pró-Carnívoros, Silvio Marchini, tem de ser lembrada: manejo de fauna é manejo de gente.

O comportamento de dona Elizete, que alegou tratar a macaca como um filho, não é uma exceção:

“Uma capivara de aproximadamente quatro meses foi entregue nesta sexta-feira (5) à Polícia Militar do município de Mucajaí, a 51 quilômetros de Boa Vista. O animal, chamado de Jorge pela família, estava vivendo em uma residência e era tratado como membro da família, segundo os policiais.

Jorge, a capivara, ganhou até uma festinha com direito a roupinha
Foto: Arquivo pessoal

O mamífero foi encaminhado à Companhia de Policiamento Ambiental na capital. De acordo com o major Charles Matos, a dona de casa Maria das Graças Silva, de 55 anos, entregou o animal devido a informações de que ele poderia ficar agressivo quando chegasse à vida adulta.

"Ela procurou a polícia de forma voluntária. Na hora da despedida, houve muita comoção. Os filhos da mulher choraram bastante, por terem se apegado à capivara", disse o major.

Aos policiais, Maria das Graças informou que resolveu cuidar do bicho quando, ainda filhote, foi encontrado machucado no quintal da casa. Ela disse que tinha o maior amor pelo animal, mas que muitas pessoas diziam que ela poderia ser multada caso a polícia descobrisse.

"A casa está vazia. Meus cinco filhos e dez netos estão tristes demais. Uma das minhas filhas ainda não comeu nada o dia todo. O Jorge dormia na minha cama e tomava mamadeira três vezes por dia", disse.”
– texto da matéria “Em Roraima, mulher entrega à polícia capivara que era tratada como 'filho'”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1

O caso envolvendo a capivara Jorge não chegou ao extremo do macaco-prego, mas também mostra o quanto esse tipo de amor torto pode gerar consequências. A família de Roraima tomou a decisão certa, ainda que não estivesse pensando no bem estar do animal e sim considerando uma futura agressividade do animal e a possibilidade de uma multa.

Deve-se reparar que o pensamento continua antropocêntrico, em que o ser humano está no centro das decisões e o restante do universo existe para servi-lo. Mas para as famílias que criavam o macaco-prego e a capivara, existia a convicção de que se estava fazendo o melhor pelos animais – afinal, o que pode ser melhor que o nosso amor incondicional?

Chico: como um filho para dona Elizete
Foto: Fabio Rodrigues/G1

Em última análise, o que Marchini afirma é que os problemas enfrentados pela fauna silvestre têm sua origem em ações humanas e não no comportamento do animal. Bichos sofrem e o meio ambiente é pressionado, no caso do tráfico de fauna e de cativeiros ilegais, para suprir carências afetivas e uma necessidade de manter-se ligado à natureza que se manifesta por meio de gaiolas e jaulas.

Está na hora de tratar o comportamento do homem com mais seriedade. O tráfico de fauna não vai ser resolvido apenas com ação policial e com biólogos e veterinários trabalhando com animais apreendidos e tentando, na medida do possível, realizar solturas. O combate ao mercado negro precisa de advogados, juízes, legisladores, educadores, jornalistas, publicitários, antropólogos e uma infinidade de profissionais.

O poder público ainda não se deu conta disso. O que ainda não ficou claro é se por falta de conhecimento ou por não priorizar o problema.

- Leia a matéria completa “Em Roraima, mulher entrega à polícia capivara que era tratada como 'filho'”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1
- Leia o artigo de Silvio Marchini “Manejo de fauna, manejo de gente”, publicado em 14 de março de 2012 no site O Eco
Releia os posts do Fauna News sobre o macaco-prego de São Carlos:
- Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais, publicado em 5 de agosto de 2013
- Macaco Chico: na verdade uma fêmea criada no amor torto, publicado em 6 de agosto de 2013
- Macaco Chico: caso do animal mantido 37 anos em cativeiro pode parar na Justiça com argumentos afetivos, publicado em 7 de agosto de 2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Macaco Chico: caso do animal mantido 37 anos em cativeiro pode parar na Justiça com argumentos afetivos

“A família que durante 37 anos cuidou de um macaco-prego em São Carlos (SP), retirado pela Justiça no último sábado (3), conseguiu um advogado nesta segunda-feira (5) para tentar trazer o animal de volta para casa. Após uma denúncia, o bicho foi levado para a Associação Protetora dos Animais (APA) de Assis (SP), que fica a 330 quilômetros de São Carlos. Exames veterinários feitos nesta tarde atestam que o macaco, até então conhecido como Chico, é, na verdade, fêmea. A dona do animal, Elizete Farias Carmona, de 71 anos, discorda. Dois abaixo-assinados na web que pedem a volta do macaco já tiveram adesão de 14.544 pessoas. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) da cidade vai apoiar a família.
Elizete e a macaca que foi batizada de Chico
Foto: Fabio Rodrigues/G1

(...) A presidente do Conselho de Meio Ambiente da OAB de São Carlos, Elizabeth Pepato, também procurou a família nesta segunda-feira para oferecer apoio. A entidade recebeu um e-mail do Cadastro Nacional dos Advogados solicitando à OAB de São Carlos que fizesse uma intervenção no caso e apurasse os fatos.”
– texto da matéria “Família consegue advogado para tentar recuperar macaco-prego”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1

Chico, que foi rebatizado como Carla, foi apreendido em 3 de agosto de 2013 após permanecer sem autorização do órgão ambiental por 37 anos com Elizete Farias Carmona, de 71 anos, em São Carlos (SP). O animal foi levado para a ONG Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), em Assis (SP). O caso causou grande polêmica com gente defendendo a ação do Estado e gente considerando uma crueldade a retirada do macaco do local onde, alegam, estaria ambientado.

A história desse macaco-prego-amarelo ganha agora um novo capítulo, que deve se desenrolar nos tribunais com a alegação da família de estar defendendo o bem estar afetivo do animal.

‘“Estamos à disposição. A família pode ingressar com ação própria para que o macaco volte. Além do direito de ela estar com o animal, vem o caso afetivo. Então se ficar longe, o animal vai sofrer mais do que no convívio da família”, disse a presidente da Comissão.’ – texto do portal G1

Deve-se salientar que também há argumentos que contradizem o alegado bem estar do macaco. O presidente da ONG Aguinaldo Marinho de Godoy declarou para o portal G1 na matéria “Veterinários de Assis, SP, atestam que macaco ‘Chico’ é fêmea”, publicada em 5 de agosto de 2013:

“Ela foi mantida presa com uma corrente de cerca de um metro, que não é o espaço recomendado, ela disso criou sequelas como machucados no pescoço e atrofiamento dos pés”, completa Marinho.

Ainda de acordo com os integrantes da ONG, o animal destruiu a ‘coleira’ quando ela foi retirada. “O que demonstra que ela não gostava de ficar presa.”

A macaca no quintal de Elizete

Outra matéria do G1 ("Macaca 'Carla' terá acompanhamento nutricional para recuperar peso ideal"), publicada em 6 de agosto de 2013, ainda destaca:

'Carla’ foi recolhida da casa de Elizete Farias Carmona, de 71 anos, em São Carlos. A antiga dona enviou uma folha de papel para a ONG detalhando a alimentação que dava ao animal: cenoura, banana, pão, leite, farinha, arroz. Segundo o presidente da ONG, Aguinaldo Marinho de Godoy, ‘Carla’ terá duas semanas de supervisão nutricional.  “Agora que o veterinário e o biólogo passaram o cardápio correto, inclusive com uma quantidade maior do que para os demais macacos. Nos próximos 15 dias, a cada três dias vamos fazer o acompanhamento nutricional fazendo a pesagem, já que hoje ela pesa 3,3 quilos e está três abaixo do peso ideal e também tem as pernas e o quadril atrofiados por causa da pouca movimentação”.'

Além do bem estar do animal, o caso deve ser analisado dentro do contexto do combate ao tráfico de animais silvestres. O mercado negro de fauna só existe porque tem gente que cria silvestre como pets e porque tem gente que compra os bichos. Será que a devolução do animal para a família não soará como um incentivo a tal hábito.

O poder público não investe em educação ambiental para conscientizar a população sobre os problemas causados pelo tráfico de fauna. Doenças são transmitidas para a população (mais de 180 zoonoses, como a raiva, já foram identificadas), animais sofrem, florestas perdem seus disseminadores de sementes, teias alimentares são alteradas e, se formos seguir com o raciocínio, é fato que a retirada dos bichos pode levar a extinções de espécies, com prejuízos ao equilíbrio dos ecossistemas e impactos climáticos e na produção de água. Tudo está integrado.

O poder público tem errado ao não encarar de frente o comércio ilegal de silvestres. Só fiscalização (que é deficiente e pouco chega às quadrilhas organizadas) não adianta. O Estado não possui uma política competente para gerir a fauna brasileira. Estimativa da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), de 2001, indica que cerca de 38 milhões de animais (sem contar peixes e invertebrados) são retirados da natureza todos os anos para abastecer o mercado negro.

O caso da macaca Carla, que por 37 anos foi Chico, está servindo para escancarar o problema.

Será que devemos tratar o caso com sentimentalismo?

- Leia a matéria completa “Família consegue advogado para tentar recuperar macaco-prego”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1
- Leia a matéria completa  "Macaca 'Carla' terá acompanhamento nutricional para recuperar peso ideal"), publicada em 6 de agosto de 2013 pelo portal G1
Releia os posts do Fauna News sobre o caso:
- Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais, publicado em 5 de agosto de 2013
- Macaco Chico: na verdade uma fêmea criada no amor torto, publicado em 6 de agosto de 2013

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Macaco Chico: na verdade uma fêmea criada no amor torto

Em 5 de agosto de 2013, o Fauna News publicou “Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais”, que comentou a apreensão de um macaco-prego-amarelo criado como bicho de estimação por 37 anos em São Carlos (SP). O caso gerou bastante polêmica, com muita gente considerando cruel a atitude da Polícia Militar Ambiental.

“Chico é o extremo do poder público ausente, de uma cultura antropocêntrica que considera o cativeiro correto e até uma forma de amor e da exploração sentimentaloide da imprensa (não surpreenderia se a Polícia Militar Ambiental tivesse se sentido pressionada e resolvido apreender o macaco após a publicação da primeira matéria sobre o animal, que tratou o caso simplesmente como algo curioso).” – texto do post “Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais”


O macaco viveu 37 anos com dona Elizete Farias Carmona
Foto: Fabio Rodrigues/G1

O animal foi levado para a ONG Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), em Assis (SP), onde exames veterinários descobriram que Chico é uma fêmea. O macaco ganhou um novo nome e agora se chama Carla. E o resultado desse tipo amor torto e egoísta, que normalmente sustenta o tráfico de animais, começa a aparecer:

 ‘“Em todo este tempo, o animal nunca foi levado a um veterinário, o que demonstra que a família sabia que não era legal manter em cativeiro um macaco-prego, por isso por tanto tempo eles não souberam se era fêmea ou macho e colocaram o nome de ‘Chico’”, afirma o presidente da ONG Aguinaldo Marinho de Godoy.

Esse era o lar do macaco, em São Carlos (SP)

Agora ‘Carla’, a fêmea está se acostumando com o novo ambiente, o presidente da ONG explica que a macaca vivia em condições totalmente inadequadas para uma espécie silvestre. ‘Ela foi mantida presa com uma corrente de cerca de um metro, que não é o espaço recomendado, ela disso criou sequelas como machucados no pescoço e atrofiamento dos pés”, completa Marinho.

Ainda de acordo com os integrantes da ONG, o animal destruiu a ‘coleira’ quando ela foi retirada. “O que demonstra que ela não gostava de ficar presa. Ela está se adaptando muito bem no ambiente de recuperação que está, apesar das sequelas que ficou”, completa. Ainda de acordo com Marinho, dificilmente o macaco poderá ser devolvido à natureza por ter vivido tanto tempo em cativeiro. "Essa espécie vive cerca de 40 anos, então os anos que restam de vida do macaco não é suficiente para fazer a readaptação à natureza. Ele deve ficar aqui, conviver com outros animais da espécie e quem sabe ainda dá até para reproduzir."’
– texto da matéria “Veterinários de Assis, SP, atestam que macaco ‘Chico’ é fêmea”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1

Carla não retornará mais à natureza
Foto: Alan Schneider/G1

- Leia a matéria completa “Veterinários de Assis, SP, atestam que macaco ‘Chico’ é fêmea”, publicada em 5 de agosto de 2013 pelo portal G1
- Releia o post do Fauna News “Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais”, publicado em 5 de agosto de 2013

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Macaco Chico: vítima do poder público ausente e do amor torto por animais

A apreensão pela Polícia Militar Ambiental do macaco-prego-amarelo (Sapajus libidinosus) Chico, em São Carlos (SP), tem motivado reações diversas. O elemento gerador de polêmica é o fato de o animal ter vivido por 37 anos com uma família. Foram quase quatro décadas de cativeiro ilegal, sendo tratado como bicho de estimação.

“O macaco-prego Chico, que há 37 anos vivia com uma família de São Carlos (SP), foi retirado do local, na manhã deste sábado (3), pela Polícia Militar Ambiental após denúncia. O animal se agarrou ao pescoço da dona e ofereceu resistência ao ser levado da casa. Elizete Farias Carmona, de 71 anos, que o tratava como filho, passou mal e teve que ser levada ao pronto-socorro.” – texto da matéria “Após 37 anos, macaco tratado como filho é tirado da família em São Carlos”, publicada em 3 de agosto de 2013 pelo portal G1

 Chico e dona Elizete: uma história de 37 anos recheada de erros
Foto: Fabio Rodrigues/G1

A grande vítima dessa história toda é Chico. Sua existência sempre será marcada por dois grandes momentos de sofrimento. O primeiro quando foi caçado para virar objeto ou mercadoria:

“A dona de casa (Elizete – explicação Fauna News) contou que Chico chegou ao bairro por meio de um caminhoneiro vindo de Mato Grosso. Ela frequentava a casa da família (do caminhoneiro – explicação Fauna News) devido à amizade que mantinha com a mulher e com os filhos.

"O Chico foi acostumando comigo e quando eu vinha embora ele vinha atrás de mim. O macaco era bravo com eles, mas comigo não. Um dia ele quis morder uma das crianças e o pai queria matar o macaco. A mulher interveio e como ele gostava de mim, acabou me dando. Eu comecei a cuidar. Ele nunca me mordeu, mas tem dias que ele está de mau humor e nem olha na minha cara", relatou Elizete.”
– texto da matéria “Dona de casa de São Carlos, SP, trata macaco-prego como filho há 37 anos”, publicada em 23 de fevereiro de 2013 pelo portal G1

Chico foi capturado na mata e pode ter sido vendido para o caminhoneiro. O macaco acabou traficado, passou medo e sabe-se lá o que enfrentou até chegar à casa de dona Elizete. Ele perdeu a liberdade e a natureza perdeu com a sua ausência, já que o animal deixou de cumprir suas funções ecológicas no ecossistema onde nasceu.

O segundo momento, lógico, foi na recente apreensão, com a retirada forçada do primatal de seu ambiente conhecido. Afinal, depois de 37 anos, o macaco-prego-amarelo havia se transformado no Chico, uma caricatura de animal silvestre:
Foto: Fabio Rodrigues/G1
“Chico vive em uma árvore no quintal da casa. Segundo a família, falta dinheiro para cercar todo o espaço com uma tela, por isso o macaco fica preso a uma corrente apenas para não fugir. Quando escapa, fica pelas redondezas e depois volta.

“Se deixar solto, a gente tem medo que ele suba no fio de alta tensão ou entre em alguma casa e veja o reflexo dele no espelho e pense que é outro macaco. Uma vez aconteceu isso no armário da cozinha e ele quebrou alguns pratos”, disse o soldador Ernani Furlan, de 46 anos, filho mais velho de dona Elizete.

Ernani considera o macaquinho como um irmão e até divide o seu espaço com o bicho. Quando chove, Chico fica no quarto do soldador onde passa a noite. Ele mesmo se cobre e dorme cedo, por volta das 20h. Mas não sem antes tomar um copo de leite fervido com açúcar, rotina que repete três vezes ao dia.”
– texto da matéria “Dona de casa de São Carlos, SP, trata macaco-prego como filho há 37 anos”, publicada em 23 de fevereiro de 2013 pelo portal G1

O poder público é o grande vilão por esse tipo de situação.

Não fiscalizou direito e o macaco acabou traficado.

Não investiu em educação ambiental e pessoas o adquiriram e o criaram como Chico, o bichinho de estimação.

Não retiraram o macaco da família quando, há 20 anos, a fiscalização se deparou com o ocorrido e optou por “tapar o sol com a peneira”, da mesma forma que está sendo feito hoje com a aprovação da Resolução 457 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Veja:

“Dona Elizete contou que há mais de 20 anos recebeu fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e soldados da Polícia Ambiental em casa devido a uma denúncia. “Eles entraram e viram as condições e como o Chico é tratado. Até minha vizinha interveio e disse que se levassem o macaco eu morreria porque ele é como um filho. Desde então recebi autorização", contou.

Chico foi transformado em uma caricatura de animal silvestre
Foto: Fabio Rodrigues/G1

Segundo o Ibama, não há como legalizar a situação. Quando há uma denúncia, os fiscais vão ao local, aplicam multa, apreendem o bicho e o levam para alguma instituição. Caso não exista um local para receber o animal e não for constatada nenhuma irregularidade no local em que ele já estava vivendo, é feito um Termo de Fiel Depositário. Com esse documento, a pessoa não pode ser multada novamente. A autorização, entretanto, pode ser cassada a qualquer momento e o animal retirado do ambiente.”
– texto da matéria “Dona de casa de São Carlos, SP, trata macaco-prego como filho há 37 anos”, publicada em 23 de fevereiro de 2013 pelo portal G1

Muita gente tem condenado a Polícia Militar Ambiental pela apreensão de Chico, considerando o ato cruel. Afinal, o animal enfrentará novamente o medo do desconhecido e, já com idade avançada, terá de se readaptar a uma nova realidade (ambiente, pessoas, dieta, etc.) na Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), em Assis (SP). A situação motivou a criação de um abaixo-assinado na internet (site Petição Pública), solicitando a devolução do macaco à dona Elizete.

O poder público, quando erra e negligencia, tem sim de ser cobrado pela sociedade. Mas o Estado não pode ser criticado por, no momento em que constatou seu erro, resolver agir. Se Chico ficasse com dona Elizete estaria aberto o precendente para todos os que mantêm animal silvestre em cativeiro ilegal exigir o mesmo tratamento.

Essas pessoas têm de saber que estão erradas e que o hábito de criar animal silvestre como bicho de estimação não é sinônimo de amor à natureza ou aos bichos. Tal cultura é responsável por retirar, apenas no Brasil, 38 milhões de animais silvestres da natureza todos os anos (estimativa de 2001 da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres, a Renctas). Isso sem contar peixes e invertebrados.

Esses bichos sofrem e, mais do que isso, deixam de cumprir seu papel na natureza (disseminar sementes, controlar a população de outras espécies, servir de alimento para ouras espécies, etc.) e expõe a população a mais de 180 doenças (zoonoses).

Imprensa
Que as pessoas, quando envolvidas sentimentalmente com o animal ou desinformadas, reajam mal e emotivamente à apreensão de Chico é compreensível. O que não dá para compreender é a imprensa fazer esse papel.

As duas matérias do G1 (“Dona de casa de São Carlos, SP, trata macaco-prego como filho há 37 anos”, publicada em 23 de fevereiro de 2013, e matéria “Após 37 anos, macaco tratado como filho é tirado da família em São Carlos”, de 3 de agosto de 2013) tratam o caso de Chico com o mesmo sentimentalismo de dona Elizete.

Apenas um exemplo da falta de informação do G1:

“Sombra e água fresca
Chico vive em uma árvore no quintal da casa. Segundo a família, falta dinheiro para cercar todo o espaço com uma tela, por isso o macaco fica preso a uma corrente apenas para não fugir. Quando escapa, fica pelas redondezas e depois volta.”
– texto da matéria “Dona de casa de São Carlos, SP, trata macaco-prego como filho há 37 anos”, publicada em 23 de fevereiro de 2013

O fato de o macaco viver acorrentado não pareceu um problema para o veículo jornalístico. Afinal, a corrente estava no pescoço do animal APENAS para evitar sua fuga.

A abordagem do G1 foi infeliz. Em nenhum momento o veículo abordou o problema do tráfico de fauna, não entrevistando sequer algum especialista no assunto.

Chico é o extremo do poder público ausente, de uma cultura antropocêntrica que considera o cativeiro correto e até uma forma de amor e da exploração sentimentaloide da imprensa (não surpreenderia se a Polícia Militar Ambiental tivesse se sentido pressionada e resolvido apreender o macaco após a publicação da primeira matéria sobre o animal, que tratou o caso simplesmente como algo curioso).

- Leia a matéria matéria “Dona de casa de São Carlos, SP, trata macaco-prego como filho há 37 anos”, publicada em 23 de fevereiro de 2013
- Leia a matéria “Após 37 anos, macaco tratado como filho é tirado da família em São Carlos”, publicada em 3 de agosto de 2013 pelo portal G1