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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Algo está errado: anta é atropelada e a notícia é o veículo danificado

Inversão de valores: o bem material vale mais que uma vida.

“Um Chevrolet Montana ficou com a lateral dianteira danificada após atropelar um animal silvestre no quilômetro 782 da BR-163. O acidente ocorreu, por volta das 3h, e o motorista que seguia sentido Sorriso-Sinop não se feriu.

O dano material prevaleceu à morte do animal
Foto: divulgação Polícia Rodoviária Federal

À Polícia Rodoviária Federal o motorista disse que a anta teria entrado subitamente na pista, provocando a colisão. O animal morreu na hora.” – texto da matéria “Sorriso: veículo fica danificado ao bater em anta na BR-163”, publicada em 1º de maio de 2014 pelo site Só Notícias (MT)

Morte do animal não tem importância na notíca
Foto: divulgação Polícia Rodoviária Federal

A imprensa, na grande maioria dos casos, reflete os valores da sociedade e seus diversos segmentos. Foi o que aconteceu com a matéria só site Só Notícias: prevaleceu uma leitura antropocêntrica do acidente na BR-163.

O dano a um veículo prevaleceu a morte de um animal silvestre, que ajudou a engordar a dramática estatística do coordenador do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas, Alex Bager: 475 milhões de silvestres morrem atropelados todos os anos nas estradas e rodovias brasileiras. O pesquisador, vinculado à Universidade Federal de Lavras (MG), é categórico ao afirmar que os atropelamentos estão entre as principais causas de perda da fauna.

Apesar da dimensão do problema, o jornalista se preocupou com um veículo amassado. Seu motorista não se feriu.

Algo está errado. E bastante errado.

Essa publicação é parte do pensamento que impera na sociedade, onde bens materiais são mais importantes que a vida. Assim como a grande maioria dos brasileiros, o jornalista que escreveu a matéria e seu editor não têm noção do contexto do problema com que se depararam.

Independentemente da dimensão da tragédia que acontece diariamente nas estradas brasileiras, a perda de uma vida sempre será mais importante que uma porcaria de veículo danificado.

- Leia a matéria do Só Notícias

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Começar a semana pensando...

...sobre um dos resultados do cativeiro.

“Operações de reintrodução de leões criados em cativeiro nas áreas selvagens da África têm feito muito pouco pela conservação destes animais, afirma um estudo divulgado nesta terça-feira (31) pela revista Oryx. Ações deste gênero, que podem envolver turistas, são classificadas como "comerciais" e "mitos" pelos cientistas responsáveis pela pesquisa.

Leão nascido em cativeiro na Namíbia
Foto: Luke Hunter/Panthera

Elaborada por uma equipe de biólogos da Panthera, unidade especializada em felinos da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na tradução em inglês), a pesquisa considera que há um "mito de conservacionismo" em operações deste gênero, quase sempre fracassadas. O estudo demonstra que nenhum leão criado em cativeiro foi realocado de maneira bem-sucedida no meio selvagem.” – texto da matéria “Reintrodução de leões criados em cativeiro fracassa na África, diz estudo”, publicada em 1º de agosto de 2012 pelo portal G1

A notícia permite uma reflexão.

Existem muitos programas de revigoramento populacional, mas pouco se divulga sobre o sucesso dos mesmos. Quando essas ações envolvem animais nascidos na natureza (como os apreendidos com traficantes de fauna ou acidentados que receberam tratamento), as chances de o bicho voltar a ter uma vida normal são grandes.

Mas o caso dos leões citados na matéria é diferente, afinal eles nasceram em cativeiro. A constatação dos pesquisadores eleva ainda mais a preocupação com a conservação das espécies em seus hábitats, afinal o homem está provando que não consegue reproduzir a perfeição da natureza.

Não basta ter o bicho sadio. O homem não consegue dar ao animal nascido em cativeiro o conhecimento aprendido pelos que sempre viveram no mato. A arrogância antropocêntrica encontrou um limite, pelo menos para essa espécie.

O mesmo está sendo planejado para a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), considerada extinta na natureza pelo Ibama em 2000. O desaparecimento da ave ocorreu em virtude da destruição de seu hábitat (caatinga baiana, desde o extremo norte da Bahia até o sul do rio São Francisco) e, principalmente, pela ação de traficantes de animais.

Foto da última ararinha-azul na natureza
Foto: Luiz Claudio Marigo

Da espécie, que em vida livre só existia no Brasil, existem cerca de 70 aves (a maioria fora do país). Há programas de reprodução para futuras tentativas de reintrodução.

Espero que com mais sorte que os leões.

- Leia a matéria completa do portal G1

terça-feira, 15 de maio de 2012

A onça Anhanguera teve sua segunda chance. Mas não resistiu à pressão humana

Há pouco, li um post no blog do deputado estadual Pedro Bigardi (“Serra do Japi em perigo: deputado Bigardi denuncia morte da onça Anhanguera após novo atropelamento”) informando a morta da onça-parda Anhanguera.

“Num pronunciamento realizado na Tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado estadual Pedro Bigardi denunciou que a especulação imobiliária e o crescimento desordenado de Jundiaí continuam interferindo drasticamente na preservação da Serra do Japi. O maior exemplo disso, segundo Bigardi, é a triste informação da morte da onça Anhanguera, após um novo atropelamento.

Anhanguera sendo resgatado em 2009

“A especulação imobiliária está chegando cada vez mais próximo à Serra do Japi e isso tem afetado diretamente em sua fauna e flora. Prova disso é o caso da onça Anhanguera que em 2009 foi atropelada na rodovia Anhanguera, após tratamento na Ong Mata Ciliar foi devolvida ao seu habitat, mas infelizmente foi atropelada novamente e não resistiu aos ferimentos”, afirmou o deputado.” – texto publicado em 10 de maio de 2012

Anhanguera pouco antes de ser solto
Foto: Divulgação Associação Mata Ciliar

Em 18 de abril, Anhanguera foi atropelada novamente. Desta vez, na altura do km 55 da rodovia dos Bandeirantes - o primeiro acidente foi na Anhanguera (daí o nome do animal).

"Após um ano e 3 meses em vida livre, a onça Anhanguera morreu. Pela segunda vez, esse macho de onça parda foi atropelado, só que nesse caso, de forma fatal. Com fraturas na coluna, nas costelas e com ruptura do fígado e diafragma, a onça parda teve morte instantânea após o atropelamento." - parte do texto "MOrre Anhanguera", publicado no site da Associação Mata Ciliar.

O Fauna News publicou posts sobre a preparação da onça para a volta à natureza e sobre a soltura:

- “Força Anhanguera!”, de 25 de fevereiro de 2011; e
- “Boa notícia: Anhanguera, a onça-parda atropelada em 2009, volta à natureza”, de 14 de abril de 2011.

Assita ao vídeo da soltura de Anhanguera:


Anhanguera teve uma segunda chance, mas caiu na mesma armadilha humana, resultado da urbanização crescente, sem planejamento e sem preocupação com a fauna. O felino foi vítima do antropocentrismo, do crescente movimento de ocupação da Serra do Japi, no interior paulista.

“Viver nos grandes centros urbanos, rodeado de barulho, poluição, violência e pouco verde é realmente muito difícil. É um modo de vida que nossa civilização escolheu e mantém com todas as suas forças.

Mas, apesar da escolha, é fato que muita gente tenta aliar as facilidades das cidades e a necessidade de trabalho com um estilo de vida um pouco mais bucólico. A opção, apesar de  não ser errada, tem um preço: os empreendimentos imobiliários estão cada vez mais ocupando os remanescentes de florestas e de matas que ainda restam. E não é só a vegetação que sofre com esse expansionismo...

(...) Os animais também são vítimas. O Jornal da Record, em sua edição de 21 de abril de 2012, fez uma pequena matéria sobre o assunto, abordando o trabalho da ONG Associação Mata Ciliar, de Jundiaí (SP). Apesar de a matéria ser curtinha, dá pra ter uma ideia do tipo de problemas que nossa busca por um estilo de vida mais próximo da natureza pode causar.”
– texto do post “Pensando em se mudar da cidade grande? Pense bem sobre onde quer viver”, publicado pelo Fauna News em 25 de abril de 2012

Assista ao vídeo do Jornal da Record:


- Leia o post do deputado Pedro Bigardi
- Leia o texto da Associação Mata Ciliar
Releia os posts do Fauna News:
- “Força Anhanguera!”, de 25 de fevereiro de 2011
- “Boa notícia: Anhanguera, a onça-parda atropelada em 2009, volta à natureza”, de 14 de abril de 2011
- “Pensando em se mudar da cidade grande? Pense bem sobre onde quer viver”, de 25 de abril de 2012