quarta-feira, 20 de junho de 2012

Onça versus ignorância: quem perde é a onça

No Pantanal há vários projetos de conservação da onça-pintada em áreas onde se desenvolve a pecuária. A intenção é conscientizar os fazendeiros a não matarem os felinos para proteção do rebanho. Afinal, é a atividade humana que está invadindo o hábitat dos animais. E ainda, se os proprietários de fazenda quiserem, é possível investir em turismo ecológico para a observação da espécie na natureza.

Mas esse trabalho ainda está restrito a algumas regiões. No Piauí, no entorno dos parques nacionais da Serra da Capivara e da Serra das Confusões, ainda não chegou.

“Na última quinta-feira, dia 14 de junho, os agentes que trabalham no Parque Nacional Serra da Capivara, localizado no semiárido piauiense, recebeu denuncia de atividade de caçadores na região do Corredor Ecológico entre a Serra da Capivara e a Serra das Confusões. De imediato o chefe do parque, Fernando Tizianel e sua equipe se dirigiram ao local e encontraram no interior de uma residência na zona rural pedaços de carne sem pele, crânio e duas patas dianteiras de uma onça-pintada (Panthera onca) e o crânio de uma onça-vermelha (Puma concolor). (...)

Armas, armadilhas e partes das onças apreendidas
Foto: André Pessoa

Para o chefe do parque, as maiores ameaças para a conservação das onças na região são o crescente desmatamento, a ocupação humana em áreas de grande densidade natural deste felino e o conflito com a predação de gado. Para ele, é necessário fazer campanhas juntos as comunidades locais para diminuir o conflito entre pecuaristas e a onça, e harmonizar a convivência do homem com o animal.

“Infelizmente, ainda há um grande temor da população local quanto à presença de onças nas proximidades das residências ou propriedades rurais, levando, em muitos casos, a generalizar que todas as mortes de gado são resultados de ataques por onças, o que nem sempre é verdade” comenta Tizianel.”
– texto da matéria “Caçadores matam duas onças nas imediações da Serra da Capivara”, publicada em 18 de junho de 2012 pelo Portal AZ

O que me chama a atenção é a fala do chefe do parque, Fernando Tizianel, falar que é necessário fazer campanhas junto às comunidades. Óbvio. E de quem é essa obrigação? Dele mesmo.

E por que não faz?

Quero acreditar que o chefe do parque é um profissional engajado na proteção ambiental. Dessa forma, não acredito que ele esteja acomodado, atuando sempre de forma reativa, isto é, agindo quando o dano já está causado. Por isso, tento imaginar o que o está impedindo de ir até as comunidades para tentar mudar esse quadro.

É falta de apoio institucional, do ICMBio? É falta de dinheiro? É falta de profissionais para tocar a gestão da unidade de conservação?

Algo está errado e tem de ser feito. Afinal...

“(...)A onça-pintada e a onça-parda são espécies ameaçadas de extinção. Segundo estudos recentes desenvolvidos pelo Instituto Onça Pintada, o Parque Nacional Serra da Capivara possui a maior densidade populacional dessa espécie dentro do bioma Caatinga.” – texto do Portal AZ

Onça-pintada: vítima da expansão humana
Foto: Divulgação Concessionária Cataratas do Iguaçu S/A

- Leia a matéria completa do Portal AZ

terça-feira, 19 de junho de 2012

No meio dos criadores de pássaros tem gente envolvida com tráfico de animais

“Porto Alegre (RS) - A Polícia Federal e o Ibama deflagraram, neste domingo (17), a Operação Campeão, de combate a crimes contra a fauna. A ação teve por objetivo a fiscalização de torneio de canto de passeriformes promovido por uma associação de criadores de pássaros, em São Leopoldo.

Ciradores de pássaros estavam envolvidos com o tráfico de animais
Foto: Divulgação Polícia Federal

Quinze pessoas foram presas em flagrante por falsificação e/ou adulteração de selo ou sinal público (anilhas de identificação), e utilização de espécimes da fauna silvestre sem a devida permissão da autoridade competente.” – texto da matéria de divulgação da Polícia Federal “Operação Campeão combate crimes contra a fauna no RS”, publicado pelo site da Polícia Federal em 18 de junho de 2012

Os criadores só deveriam estar com animais anilhados e registrados, mas...

“Foram apreendidos 46 pássaros, entre trinca-ferros e cardeais, anilhas de identificação, e aplicadas multas que totalizaram 65 mil reais.”
- texto da Polícia Federal

Se os órgãos de fiscalização fizessem uma operação realmente ampla nesses clubes de criadores, muitos problemas seriam identificados. E, quando fossem, essas entidades deveriam ser fechadas - o que infelizmente não é previsto em lei. Esse tipo de clube faz o seguinte com os pássaros:

"O modo como o campeonato é realizado surpreendeu as autoridades. Segundo o chefe de fiscalização do Ibama/RS, Régis Fontana Pinto, a competição na modalidade “Fibra” consiste em colocar as gaiolas com os animais lado a lado em uma arena. Pelo instinto de disputa de território ou de fêmeas, as aves começam a cantar. O vencedor era o pássaro que restava cantando no final, depois que os demais extenuados e estressados ficavam quietos. A competição pode durar horas.

No treinamento das aves vale até deixá-las em salas escuras, com som elevado de caixas de som, para que “aprendam” os cantos. Elas também podem ser treinadas ao seres colocadas ao lado de outros exemplares. As 15 prisões no local foram efetuadas devido à descoberta da falsificação ou adulteração de selo ou sinal público nos animais presentes no torneio, chamadas de anilhas de identificação, além do emprego de espécimes da fauna silvestre sem a devida permissão da autoridade competente."
- texto da matéria "Pássaros eram vendidos por até R$ 100 mil, diz Polícia Federal", publicada em 18 de junho de 2012 pelo jornal Correio do Povo

Essas competições não envolvem apenas um suposto prazer de ouvir belos cantos de pássaros. Há muito dinheiro envolvido.

"Responsável pela Delegacia de Repressão a Crimes contra Meio Ambiente e Patrimônio Histórico da PF/RS, o delegado Roger Soares Cardoso explicou que muitas aves capturadas no ambiente natural são levadas para cativeiro para posterior participação em torneios. As aves são vendidas no mercado clandestino entre os competidores. Houve casos de pássaros que custaram até R$ 100 mil." - texto do Correio do Povo

- Leia a matéria de divulgação da Polícia Federal
- Leia a matéria completa do Correio do Povo

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Começar a semana pensando...

...ou melhor, cantando, curtindo um forrózinho educativo. Bom para trabalhar o tema do tráfico de animais silvestres com crianças.

A música Sabiá da Mangueira faz parte do CD Cantando por Liberdade, feito pela equipe do Ibama do Piauí com 12 músicas. O projeto foi coordenado pelos veterinários Fabiano Pessoa e Sandovaldo Moura.


sábado, 16 de junho de 2012

Fauna News na rádio CBN

O jornalista responsável pelo blog Fauna News, Dimas Marques, foi entrevistado hoje pela âncora do programa Revista CBN, Tania Morales.

O tráfico de fauna e de partes de animais silvestres foi bastante discutido, além dos problemas de infraestrutura dos órgãos ambientais para receber bichos apreendidos em situação irregular.

Se você perdeu, confira agora.

- Clique aqui para ouvir a entrevista com Dimas Marques na rádio CBN

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Reflexão para o fim de semana: disputa judicial para evitar apreensão de animal traficado está virando moda

Em 4 de maio de 2012, o Fauna News publicou “Reflexão para o fim de semana: a Justiça acertou?”, em que abordava uma decisão da Justiça Federal determinando que a pessoa que mantinha ilegalmente uma arara-canindé em cativeiro continuasse com a posse do animal, apesar de não ter autorização para tal.  O caso começou em 2008 quando, durante fiscalização em Minas Gerais, o Ibama apreendeu a ave, batizada como “Chiquita Ferreira”.

Nesse post, escrevi:

“Tenho certeza que se o Ibama mantivesse uma rede de Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) bem estrutura e funcionando, além de um trabalho significativo de reintrodução na natureza de animais vítimas do tráfico e que eivem em cativeiro, o órgão ambiental federal teria mais argumentos para que a decisão judicial fosse outra.

O juiz “esquentou” a Chiquita Ferreira, até então ilegal com uma família que adquiriu a arara do tráfico. A decisão não foi educativa para essa pessoa.

Mas pode ser educativa para o Ibama, órgão que deveria investir em campanhas e atividades educativas para reduzir a demanda da população por animais silvestres, além de manter uma estrutura eficiente para acolher animais apreendidos e devolvê-los (quando tecnicamente possível) à vida livre.”

O novo caso foi noticiado pelo portal G1, na matéria “Idosa briga na Justiça para ficar com papagaio que foi do filho assassinado”, publicada em 14 de junho de 2012:

“A dona de casa Romilda Justina Franco, de 62 anos, moradora de Goiânia, entrou na Justiça para obter a guarda de um papagaio que há 32 anos faz parte de sua família. Conhecida por Lourinho, a ave pertencia ao filho dela, um policial militar que foi morto dentro do quartel em 2004, aos 29 anos.

Dona Romilda e Lourinho
Foto: Humberta Carvalho/G1

A mulher, que está depressiva desde a morte do filho, teme que a Justiça não conceda a guarda doméstica do animal. “Nas recaídas que tenho, ele é meu medicamento, ele que me tira de lá. Já não basta tanta dor que sofri, mais essa eu não aguento. Ninguém sabe a dimensão da dor”, declara a aposentada.”


O trecho acima é o início da matéria; de uma matéria que já de cara toma posição: a da coitadinha da velhinha.  Não estou ironizado os sentimentos da dona Romilda, mas o tom sentimentaloide do texto.

As informações relevantes e que merecem ser discutidos nesse caso ficaram diluídos em um texto repleto de descrições de cenas de dar dó da velhinha. E, para piorar, a matéria ainda publicou uma informação sem questionar:

“Segundo a dona de casa, Lourinho foi encontrado pelo seu filho, quando o menino tinha seis anos de idade. O papagaio, de acordo com ela, já era adulto e estava na cerca de uma fazenda no município de Aragoiânia, Região Metropolitana de Goiânia. Na época, meados de 1980, não existiam leis que impedissem a criação da ave em casa.”

Em 3 de janeiro de 1967, o então presidente da República, Humberto de Alencar Castelo Branco, promulgou a Lei nº 5.197, a chamada Lei de Proteção à Fauna ou Código de Caça.

Está no artigo 1º dessa Lei:

“Os animais de quaisquer espécies, em qualquer fase do seu desenvolvimento e que vivem naturalmente fora do cativeiro, constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e criadouros naturais são propriedades do Estado, sendo proibida a sua utilização, perseguição, destruição, caça ou apanha.”


Lourinho, lá por meados dos anos de 1980, vivia livre
Foto: Humberta Carvalho/G1

Está claro que, embora a legislação da época não impeça a criação de animais silvestres em casa, a captura do papagaio já era crime em meados de 1980. E a repórter que escreveu a matéria, mais uma vez, escolheu um lado.

Para tentar equilibrar as coisas, a repórter entrevistou o coordenador do Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama de Goiás, o analista ambiental Luiz Alfredo Lopes.

“Mesmo com todos os cuidados, o Ibama se mostra contra a permanência do animal silvestre na casa da aposentada e alega que, mesmo após 32 anos fora do habitat natural, ele pode ser reinserido na natureza. “O posicionamento do Ibama é que, mesmo não tendo condições iniciais de voltar para a natureza, nada se opõe a tentar treiná-lo e reabilitá-lo ou encaminhá-lo para um criador legalizado”, explica o coordenador do Centro de Triagem de Animais silvestres do Ibama de Goiás, o analista ambiental Luiz Alfredo Lopes.

De acordo com Lopes, animais silvestres criados como animais domésticos não têm como se reproduzir e acabam estimulando outras pessoas a criar esse tipo de bicho em casa: “Nessas condições, o animal não traz descendentes e acaba fomentando a cadeia do tráfico de animais silvestres. Mesmo que não tenha sido ela [Romilda] que pegou o animal na natureza, ela acaba fazendo parte da cadeia do tráfico”.


E só foi isso que a repórter escreveu, em uma matéria de 14 parágrafos, para tentar equilibrar um pouco. Mas ela não aguentou e acabou seu melodrama assim:

“Para a aposentada, resta a esperança de que a Justiça dê um parecer favorável e dê a ela a guarda doméstica. “Se ele puder ficar comigo, será uma parte do meu filho que vai voltar para mim, um pouquinho dele que vai ficar aqui. E para mim, essa vai ser a maior justiça feita pela morte dele”, declara Romilda.”

É dessa forma que a imprensa vai cumprir seu papel de informar e ajudar a conscientizar a população dos problemas?

Se a repórter queria polemizar e gerar a reflexão que o caso merece, que o fizesse com competência. E que seus editores a tivessem orientado para tal. O Ibama faz um péssimo trabalho nessa área, que merece ser criticado (releia o post “Reflexão para o fim de semana: a Justiça acertou?”, de 4 de maio de 2012). Mas não assim...

- Leia a matéria completa do portal G1
- Conheça a Lei de Proteção à Fauna
- Releia “Reflexão para o fim de semana: a Justiça acertou?”, de 4 de maio de 2012

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Tráfico de animais não é só com bicho vivo

Quando se fala em tráfico de animais, normalmente remetemos ao comércio criminoso de bichos vivos. São passarinhos, papagaios, macacos, peixes ornamentais e tantos outros. Mas esse crime também inclui o comércio de partes de animais, como penas, ossos, garras, dentes, peles etc.

“Na tarde desta quarta-feira (6), a Polícia Militar de Uberlândia informou que a caixa com ossos interceptada pelos pela Empresa de Correios e Telégrafos (ECT), na segunda-feira (4), continha ossos de javali. O material foi identificado durante a realização de raio-x, feito nos pacotes transportados pela empresa.

Imagem dos ossos de javali apreendidos
Imagem: Reprodução TV Paranaíba

A PM foi até o endereço identificado no destinatário do pacote. O homem que receberia a encomenda disse que usaria o material para a confecção de artesanatos.”
– texto da matéria “Ossos recebidos em caixa nos Correios são de javali, diz PM”, publicada em 6 de junho de 2012 pelo portal G1

Essas partes de animais são usadas, em muitos lugares, como parte de remédios caseiros. É assim com os chifres de rinocerontes, que são usados no Vietnã como medicamentos para vários males (tudo sem a menor comprovação científica).

Em outras regiões, peles e penas passa a integrar peças do vestuário. E há os casos, como o dos ossos de javali, em que essas partes são usadas como matéria-prima de ornamentos, bijuterias etc. Quem já não foi em uma loja de artesanato no litoral e encontrou partes de coral, estrelas-do-mar e outros tantos enfeites feitos com partes de animais?

Estrelas-do-mar usadas em artesanato
Foto: Apoena Mederios

Pois é, o tráfico de animais é bem mais amplo e está próximo da nossa realidade do que muitos de nós imaginamos. E você pode conribuir para que isso acabe: basta não comprar esses produtos.

- Leia a matéria do portal G1

quarta-feira, 13 de junho de 2012

João Pessoa (PB): a cidade cresce e coloca animais em risco

“Mais de 200 animais, entre cobras, jacarés, capivaras e preguiças foram encontrados e capturados pelo Batalhão de Polícia Ambiental na Grande João Pessoa este ano. O comandante do Batalhão, tenente-coronel Adielson Pereira, disse que a causa da invasão desses animais é o desmatamento. Com a destruição do habitat natural, os animais acabam procurando outras alternativas de moradia. “Infelizmente essa realidade tem sido cada vez mais frequente”, afirmou o comandante.

26 de maio de 2012: preguiça resgatada em João Pessoa
Foto: Walter Paparazzo/G1

Os bairros do Valentina, Mangabeira, Bairro das Indústrias e o Centro, em João Pessoa, costumam ser os mais 'visitados' pelos animais. (...)” – texto da matéria “Mais de 200 animais foram resgatados em JP”, publicada em 8 de junho de 2012 pelo Jornal da Paraíba

O que está acontecendo na capital paraibana ocorre em todo o país. O fenômeno não é uma exclusividade de João Pessoa.

Jundiaí, no interior paulista, também tem essa característica. A urbanização das matas do entorno da cidade, principalmente na região da Serra do Japi, estão sufocando a fauna silvestre. Em 25 de abril de 2012, escrevi “Pensando em se mudar da cidade grande? Pense bem sobre onde quer viver”:

“Viver nos grandes centros urbanos, rodeado de barulho, poluição, violência e pouco verde é realmente muito difícil. É um modo de vida que nossa civilização escolheu e mantém com todas as suas forças.

Região da Serra do Japi, em Jundiaí: exemplo do novo expansionismo
Foto: Portaljapy.com.br

Mas, apesar da escolha, é fato que muita gente tenta aliar as facilidades das cidades e a necessidade de trabalho com um estilo de vida um pouco mais bucólico. A opção, apesar de  não ser errada, tem um preço: os empreendimentos imobiliários estão cada vez mais ocupando os remanescentes de florestas e de matas que ainda restam. E não é só a vegetação que sofre com esse expansionismo...”

Há pouco tempo (18 de abril de 2012), a suçuarana Anhanguera foi uma vítima emblemática desse expansionismo na região de Jundiaí. Pela segunda vez, o felino foi atropelado, mas, dessa vez, não sobreviveu.

Suçuarana Anhanguera: atropelada duas vezes em São Paulo
Foto: Divulgação Associação Mata Ciliar

- Leia a matéria completa do Jornal da Paraíba
- Releia “Pensando em se mudar da cidade grande? Pense bem sobre onde quer viver”, publicado pelo Fauna News em 25 de abril de 2012
- Releia “A onça Anhanguera teve sua segunda chance. Mas não resistiu à pressão humana”, publicado pelo Fauna News em 15 de maio de 2012