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"Todos os argumentos que provam a superioridade humana não eliminam este fato:
no sofrimento os animais são semelhantes a nós."
Peter Singer - Filósofo e professor de bioética na Universidade de Princeton, autor de Libertação Animal (1975)

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quinta-feira, 13 de março de 2014

O neoliberalismo antropocêntrico transformando vida silvestre em mercadoria

Vale ser lido na íntegra o artigo de Alejandro Nadal, membro do Conselho Editorial do SinPermiso (revista espanhola com abordagem socialista), que foi reproduzido pelo site Carta Maior em 9 de março de 2014.  Para qualquer ação visando a conservação da fauna silvestre, há sempre uma reação do tipo “lobo em pele de cordeiro” com o discurso do “uso sustentáveis dos recursos naturais”. Texto ótimo para reflexão. Para os brasileiros, vale o debate sobre a publicação pelo Ibama da chamada Lista Pet, que permitirá o comércio de cerca de 100 espécies de animais silvestres como bichos de estimação.

O Fauna News publica o texto completo abaixo.


Rinoceronte morto por causa de seu chifre
Foto: Troy Otto

"SOBRE ELEFANTES E RINOCERONTES:
NEOLIBERALISMO NA FAZENDA

O lobby pró-comércio insiste que apenas as suas fazendas produtivas poderão salvar tigres, elefantes, ursos, rinocerontes e outras espécies ameaçadas.

Há duas semanas, aconteceu em Londres uma reunião internacional sobre o tráfico de espécies ameaçadas de extinção. A conferência teve por objetivo confirmar o compromisso de países consumidores e exportadores da flora e da fauna silvestre para controlar e erradicar esse grave problema.

Nos últimos anos, a extração ilegal de todo tipo de vida silvestre se agravou de maneira alarmante. Os exemplos mais conhecidos são os elefantes e os rinocerontes. Um cálculo conservador sobre o número de elefantes mortos na África no ano passado chega aos 22 mil exemplares (há quem calcule que as mortes ultrapassem os 50 mil elefantes por ano). Nesse ritmo, a espécie poderá ser extinta em uns 15 anos.

A disparidade nos números se deve ao fato de que a população total de elefantes não é conhecida, sobretudo nas regiões de florestas da África ocidental. Os elefantes são assassinados por conta de seu marfim, cujo valor de mercado (legal e ilegal) alcança os 4 mil dólares por aquilo: um dente de um elefante macho adulto pode chegar a pesar 18 quilos. O mercado mais importante de marfim é na China, e em alguns outros países da Ásia, mas também há espaços para transações legais nos Estados Unidos e na Europa.

O caso dos rinocerontes é alarmante. Aqui os números são mais precisos. Existem 18 mil rinocerontes brancos e em torno de 2 mil negros. A grande maioria desses animais (96%) se encontra na África do Sul. Em torno de 5 mil rinocerontes estão em terras de propriedade privada. No ano passado, mais de mil foram caçados ilegalmente com a finalidade de cortar-lhes os chifres e vendê-los na China e no Vietnã a preços astronômicos (em Hanói e em Ho Chi Minh, um quilo de chifre pode valer 90 mil dólares). Mesmo que a taxa de natalidade dos rinocerontes ainda supere a mortandade provocada por essa caçada, as coisas podem mudar neste ano, e esses animais também podem ser extintos em 10 ou 15 anos. Em situações tão dramáticas ou até mais delicadas que a dos elefantes e rinocerontes, estão os tigres, diversas espécies de ursos, e muitos répteis e aves.

Participaram da conferência de Londres representantes de 46 países, que lá assinaram um importante acordo por meio do qual claramente fecham portas aos esforços de alguns países no sentido de legalizar os mercados dessas e de outras espécies.

A reação não demorou a chegar. Diante do objetivo de acabar com o tráfico ilegal de espécies ameaçadas, surgiu um movimento que pretende controlar o massacre por meio da criação de mercados legais dessas espécies e seus “produtos” (peles, dentes, chifres, ossos, suco biliar etc.). Trata-se de um lobby internacional de proprietários de fazendas de todo tipo de animais, desde chifres e lagartos (peles), até fazendas com rinocerontes (chifre), tigres (ossos e pele), e ursos em cativeiro para lhes extrair o suco biliar. Se você tem o coração frágil, não aconselho a ver no YouTube os vídeos sobre a vida dos animais nessas “fazendas”.

Esse lobby se esconde atrás das palavras mágicas “uso sustentável” e argumenta que, com fazendas e produtores legais, é possível ter controle sobre esse mercado.

Insistem que suas fazendas baixariam os preços desses produtos, e isso acabaria por minar os cartéis que hoje dominam o tráfico de espécies. Mas sua análise econômica tem inúmeros problemas, entre os quais está o fato de que não há dados sobre a elasticidade-preço da demanda. Isso quer dizer que os modelos adotados por esse lobby não podem dizer nada sobre a expansão da demanda final quando os preços forem reduzidos. Além disso, os mercados legais abrem as portas ao marfim, chifres, peles e outros “produtos” desses animais.

Os defensores das fazendas insistem que a vida selvagem é um “recurso” que deve ser explorado para o bem-estar da humanidade. Bem, não toda a humanidade, mas apenas quem é proprietário e tem capital para converter a vida silvestre em espaço de rentabilidade. Em poucas palavras, é o neoliberalismo aplicado a tudo o que se arrasta, caminha, voa ou nada na biosfera. O projeto desse lobby é legalizar mercados e abrir fazendas de espécies ameaçadas para convertê-las em mercadorias e, desse modo, assegurar sua “conservação”.

Não importa que o gado e a avicultura tenham muito pouco a ver com a conservação da vida silvestre. O lobby pró-comércio insiste que apenas as suas fazendas produtivas poderão salvar tigres, ursos, rinocerontes e outras espécies (incluindo os elefantes).

Se George Orwell voltasse, sem dúvidas escreveria um adendo ao seu célebre Revolução dos Bichos. Mas, desta vez, o porco Napoleão não representaria o comitê central de um partido totalitário, mas o conselho de administração de uma fazenda na qual os animais devem se reproduzir para entregar suas peles, dentes, chifres e ossos aos acionistas. E tudo isso aos gritos de “Viva o uso sustentável e o capital natural!"

Carregamento de marfim apreendido na China
Foto: Kin Cheung

- Leia o texto na Carta Maior

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